O Banco de Portugal reviu em baixa as suas previsões de crescimento económico. Avisa que a economia vai desacelerar nos próximos anos, com as exportações a crescerem menos do que perspetivava até aqui. No boletim económico de dezembro, a instituição liderada por Carlos Costa realça que a economia "deverá prosseguir uma trajetória de crescimento", "embora em desaceleração", até 2021. Projeta que o produto interno bruto (PIB) cresça 2,1% em este ano (menos 0,2 pontos percentuais do que estimava em outubro e abaixo dos 2,3% previstos pelo Governo), 1,8% em 2019 (o Governo prevê 2,2%), 1,7% em 2020 e 1,6% em 2021.

Os valores para o horizonte 2018-19 implicam um crescimento ligeiramente inferior do PIB em 2018 e 2019 face às estimativas divulgadas nos Boletins Económicos de junho e outubro, essencialmente devido a uma revisão em baixa do crescimento das exportações, que reflete a revisão das hipóteses relativas à evolução da procura externa e a incorporação da informação mais recente".

As exportações deverão crescer 3,6% este ano (e não 5% como projetada em outubro), 3,7% em 2019, 4% em 2020 e 3,6% em 2021. 

O abrandamento do PIB no horizonte 2018-21 reflete, em larga medida, um contributo progressivamente menor das exportações em termos líquidos de conteúdos importados. O contributo da procura interna líquida de conteúdos importados para o crescimento do PIB também se deverá reduzir ligeiramente ao longo do horizonte de projeção".

Seja como for, "o enquadramento externo da economia portuguesa deverá permanecer relativamente favorável". "Após um crescimento significativamente superior ao da atividade em 2017 e 2018, o comércio internacional deverá apresentar uma evolução mais próxima da do PIB mundial, implicando uma relativa estabilidade do crescimento da procura externa dirigida a Portugal em 2019‐21", lê-se no comunicado do Banco de Portugal. 

Ao longo do horizonte de projeção a economia portuguesa deverá manter uma situação de capacidade de financiamento face ao exterior, sinaliza o Banco de Portugal.

Ao nível do emprego, após um crescimento “muito dinâmico” em 2017, o emprego deverá retomar, em média, no horizonte de projeção, uma evolução mais em linha com a sua relação histórica com a atividade, o que permitirá a continuação de uma trajetória descendente da taxa de desemprego, embora mais moderada do que nos anos recentes. A taxa de desemprego deverá situar-se em 5,3% no final do horizonte de projeção.

Riscos

O banco central refere ainda alguns fatores de risco: entre eles, o enquadramento externo (política comercial e monetária dos EUA, tensões geopolíticas e incerteza a nível global, impacto do ‘brexit’, entre outros).

A economia portuguesa continua ainda a enfrentar “constrangimentos específicos ao crescimento” no médio‐longo prazo, apesar dos progressos dos últimos anos ao nível do funcionamento dos mercados e da redução do endividamento dos diversos setores da economia.

O processo de redirecionamento dos recursos para setores mais expostos à concorrência internacional, por natureza mais permeáveis à inovação, deverá prosseguir, potenciando efeitos de composição favoráveis à evolução da produtividade total dos fatores.

Por outro lado, o envelhecimento da população cria limitações ao contributo do fator trabalho para o crescimento, apesar de a evolução dos fluxos migratórios poder vir a compensar esta dinâmica negativa. “Neste quadro, a aposta no capital humano afigura‐se essencial para promover o crescimento no longo prazo”.

A importância das exportações de Turismo

O Banco de Portugal destaca, também neste boletim, o “contributo importante” das exportações de Turismo para a evolução da atividade e emprego e para a manutenção da capacidade de financiamento da economia.

O desempenho de Portugal tem sido superior ao do mundo e ao da Europa do Sul/Mediterrânea, sendo que o aumento da insegurança em destinos concorrentes poderá explicar parte deste dinamismo, mas também a “melhoria da perceção da qualidade do serviço oferecido” pelo país.

Há "alterações estruturais no setor que deverão continuar a sustentar um crescimento forte do horizonte de projeção” (2018-20):

  • a diversificação da proveniência de turistas estrangeiros
  • a distribuição geográfica mais abrangente dos turistas no território nacional
  • os sinais de uma menor sazonalidade dos indicadores

Do lado da oferta, o banco central destaca o “forte aumento da capacidade de alojamento turístico e da presença de companhias aéreas de baixo custo no mercado português”.

Embora existam desafios, a comparação internacional indica margem “para um crescimento das exportações de turismo superior ao da atividade no horizonte de projeção, baseados nas vantagens comparativas da economia portuguesa neste setor”.

As projeções deste boletim apontam assim para a manutenção de um crescimento relativamente forte das exportações de Turismo nos próximos anos, superior ao projetado para o total das exportações de bens e serviços e para o PIB, mas inferior ao registado em 2017.

As perspetivas para as exportações portuguesas de Turismo "estão ancoradas nas vantagens comparativas da economia portuguesa neste setor e na margem de crescimento existente. Estas perspetivas positivas estão, no entanto, sujeitas a incerteza e riscos”. Por um lado, continua, a atividade turística tem uma elevada sensibilidade ao ciclo económico global, pelo que uma deterioração das perspetivas de crescimento mundial terá certamente impacto neste setor. Por outro lado, acrescenta, a recuperação da atividade turística em destinos concorrentes, que competem essencialmente na vertente preço, também poderá afetar negativamente este tipo de exportações.

Há ainda, de acordo com o BdP, riscos de hostilidade por parte dos habitantes locais, a considerar, que poderão conduzir à deterioração da experiência turística e à degradação do património natural, cultural e histórico.

Neste quadro, mantém-se a necessidade de uma melhor distribuição do turismo não residente ao longo do ano e em termos regionais. Os progressos realizados nestas áreas deverão ser aprofundados de forma a evitar potenciais efeitos de congestão na época alta ou de subutilização de infraestruturas na época baixa, bem como o impacto negativo da sazonalidade sobre o mercado de trabalho, onde contribui para aumentar o emprego temporário e precário”.

Não obstante este esforço de redução da sazonalidade,o investimento em infraestruturas de transporte e outras facilidades turísticas não deve ser descurado, evitando a criação de estrangulamentos. O quadro regulatório do setor deve permitir o desenvolvimento ordenado de novos modelos de negócio, nomeadamente associados a novas tecnologias.

Reações políticas

O PSD classificou estas projeções como “um sinal de alarme”, considerando “incompreensível” a atitude de satisfação do Governo. A deputada Inês Domingos falou aos jornalistas no Parlamento.

É uma situação de alarme e, por isso, é para nós incompreensível a posição do Governo e do primeiro-ministro, que se mostram sempre muito satisfeitos com a situação da economia portuguesa (...) O Governo, seja porque não quer, seja porque não pode, ignorou os nossos avisos e, neste momento, já não é tempo para pedirmos ao Governo para mudar de rumo, é tempo de uma alternativa”.

A alternativa do PSD para o crescimento, explicou a deputada, passa por “olhar para fatores de sustentabilidade e do crescimento no longo prazo”, em particular o investimento e as exportações. “Mas passa também por olhar para a qualidade de vida das famílias, não apenas para os próximos meses, mas ao longo de toda a sua vida e para as gerações futuras”.

Já o porta-voz do CDS-PP, João Almeira, reiterou ao reagir que o Governo desperdiçou a oportunidade da atual conjuntura e mostrou-se empenhado em conceber uma alternativa política. "Os dados hoje divulgados pelo BdP confirmam aquilo que o CDS vem dizendo há muito tempo relativamente ao crescimento económico: que Portugal está a perder uma enorme oportunidade de recuperar competitividade", disse, nos Passos Perdidos, no Parlamento.

É mais grave aquilo que agora o BdP confirma porque sucede àquilo que já a Comissão Europeia, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) e até o próprio Governo, no relatório do Orçamento do Estado, tinham antecipado, que é um arrefecimento da economia portuguesa. Verificamos não só que a melhor oportunidade já está perdida como está a terminar".