O clima é de recuperação económica, sim, mas nos últimos anos muitas famílias portuguesas entraram numa espiral de sobre-endividamento que as deixou numa situação muito complicada, financeiramente. Muita gente gasta mais dinheiro do que tem. Ainda que os créditos criem a ilusão de que está tudo bem, são compromissos para pagar. 

A propósito do Dia Mundial da Poupança, que se assinala esta quarta-feira, 31 de outubro, a Deco revelou novos dados, ainda preocupantes, e deixou alertas no Espaço Economia 24 do Diário da Manhã da TVI.

"Temos cada vez mais famílias em situação de dificuldade financeira e com taxas de esforço cada vez mais elevadas. Até 2016, a taxa de esforço desceu ligeiramente [para 67%] e esperávamos que continuasse, mas em 2017 aumentou [para 70,8%)e em 2018 também está a aumentar", começou por explicar a coordenadora do gabinete de Proteção Financeira da Deco, Natália Nunes.

Para que uma família consiga suportar os seus encargos, a taxa de esforço não deveria ultrapassar os 35%. A média atual, entre as famílias portuguesas, assusta:

72% do rendimento mensal líquido é absorvido por créditos. Em 1.130 euros de rendimento líquido mensal, se 820 euros são para prestações de crédito, as pessoas precisam de sobreviver e pagar a conta da luz, da água, do gás, a alimentação. No final do mês, não sobra dinheiro"

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Se, muitas vezes, as famílias tendem a destinar à poupança o que sobra depois de saldados os compromissos desse mês, assim não vão lá. 

Causas do sobre-endividamento

Há explicações para isto. Desde 2000, altura em que a Deco começou a ter dados, o desemprego é - continua a ser - a principal causa do sobre-endividamento dos portugueses. Embora a percentagem tenha descido em relação a 2017, de 30,1% para 20%, ainda ocupa o primeiro lugar.

Em segundo, temos a deterioração das condições laborais (19% das causas). Como constata Natália Nunes, este é um "espelho do que se passa no mercado de trabalho: há mais emprego, mas muito é a termo, a prazo, a ganhar o salário mínimo ou pouco mais". A precariedade que ainda mancha as estatísticas. 

Há, porém, outras causas que se estão a evidenciar mais este ano, como é o caso dos negócios mal sucedidos (6%), mas que estão, também eles, relacionados com o desemprego. Houve quem passasse de situações favoráveis para ficar sem trabalho de repente e com compromissos de crédito na mesma. "Agora não conseguem comportar". 

O desemprego  é sempre a grande causa. Temos já o emprego a crescer, mas nos últimos anos taxas muito elevadas e muitas das soluções para as pessoas passaram por criar o seu próprio emprego. Só que em muitos casos não correu assim tão bem e estão a pedir ajuda"

O número de penhoras e execuções também se destaca entre as causas (12% dos casos), bem como as alterações no agregado familiar e os divórcios (10% cada). Aliás, 47% das pessoas que estão a ser ajudadas pela deco são divorciadas ou viúvas. Há também cada vez mais filhos a terem de ajudar os pais (5%). As pirâmidas abaixo são elucidativas.

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Até outubro, mais de 26.100 famílias pediram ajuda à Deco para tentarem sair de situações de sobre-endividamento. O número aumentou em relação aos primeiros dez meses do ano passado. A nota positiva é que os créditos em incumprimento, embora ainda representem quase metade, baixaram para 49%.

Sinal de que as pessoas estão a pedir ajuda mais cedo, antes de a situação ficar crítica ao ponto de já não se conseguir resolver. A renegociação de dívidas/créditos é um passo a ter em conta.

É muito importante fazer um orçamento familiar, anotar gastos e ganhos para perceber onde é que gasta o dinheiro, cortando no que não é essencial; fazer contas à taxa de esforço; e, claro, ter um pé-de-meia, que deverá ser cinco a seis vezes o rendimento líquido mensal.

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