Numa altura em que o tema da dívida portuguesa volta à agenda política com o presidente Marcelo Rebelo de Sousa a elogiar a iniciativa da proposta acordada entre PS e Bloco de Esquerda para resolver o peso da mesma na economia portuguesa, e o PCP a dizer que é preciso mais, a TVI24 foi saber do que estamos a falar.

Em declarações à TVI24, o diretor da gestão de ativos do Banco Carregosa, Filipe Silva, dá alguns esclarecimentos sobre um tema que é central para a recuperação económica do país.

Como é que o mercado está a olhar para a dívida portuguesa?

A perceção de risco tem descido, logo as taxas de juro também têm baixado.

Quais as perspetivas de evolução dos nossos juros da dívida –  quanto se está disposto a pagar para ter dívida portuguesa?

Os juros da dívida soberana portuguesa vão evoluir em função dos défices orçamentais que forem sendo apresentados, da evolução do crescimento da economia e da ajuda que o Banco Central Europeu (BCE) for prestando, comprando e garantido a nossa dívida.

Quem tem dívida portuguesa?

Na sua maioria é detida pelo BCE (fruto das compras que tem feito ao abrigo do plano de estímulos, e da entrega, como colateral, por parte dos bancos portugueses para se financiarem) e por investidores institucionais.

Qual o peso da nossa dívida no Produto Interno Bruto e, fora estimativa do Governo, quanto os mercados estão a incorporar que desça nos próximos tempos?

Grosso modo a dívida pública portuguesa corresponde a 130% do PIB.  Os analistas e investidores não estão a incorporar uma descida significativa deste nível de endividamento.

Porque querem os partidos de Esquerda que se renegocie a dívida?

À parte razões ideológicas e políticas, porque entendem que ela não é sustentável.

O que isso significa?

Renegociar significa, sempre, alterar as condições de reembolso (pagamento) da dívida. Isso pode ser feito através de uma renegociação de uma taxa de juro mais baixa, de um perdão de parte da dívida, de uma extensão do prazo de pagamento.

Como é encarada pelos mercados a perspetiva de renegociação da dívida?

Essa hipótese nunca é bem encarada pelos credores, porque significa dizer-lhes que não vão receber o que estava acordado.

É apetecível, neste momento, ter dívida portuguesa? Porquê?

Para quem procura algum rendimento (“procura de taxa”) os títulos de dívida portuguesa são dos que apresentam melhor remuneração e, à falta de alternativas melhores para o mesmo nível de risco, é um investimento atrativo.

De que países é melhor ter dívida face à portuguesa e porquê?

Nenhum é comparável ao risco de Portugal. A nossa dívida a 10 anos paga 3,52%. A da Grécia paga 6,5%, mas o risco é maior. Itália, a 10 anos, paga 2,2%. Espanha paga 1,65%, mas o risco é menor. França e Bélgica pagam, pela dívida a 10 anos, 0,8%.

Alda Martins