As diferenças entre o Governo e os partidos que lhe dão suporte mais à esquerda, no Parlamento, têm na descida da Taxa Social Única um exemplo. Mas isso não faz o primeiro-ministro ver algum abalo na relação com BE e PCP. E o seu partido, o PS, também constata que aqueles dois partidos sempre estiveram contra uma baixa da TSU. Já o PSD não. E a estratégia política saída da reunião da Comissão Nacional socialista, já de madrugada, foi continuar a atribuir responsabilidades a Passos Coelho por não querer viabilizar a medida da qual depende, em contrapartida, a subida do salário mínimo já no final de janeiro, um compromisso firmado na Concertação Social.

Perante os jornalistas, no final do encontro de três horas e na mesma linha de António Costa, a secretária-geral adjunta dos socialistas, Ana Catarina Mendes, também procurou desdramatizar a posição assumida pelo Bloco de Esquerda - que ontem expressou que, "por uma vez, o PSD tem razão" -, PCP e PEV em relação à descida da TSU.

"O Bloco de Esquerda, o PCP e o PEV sempre disseram que estavam contra a descida da TSU. Os partidos que apoiam o Governo do PS sempre disseram quais eram as suas convergências e as suas divergências", alegou a "número dois" da direção dos socialistas.

Sempre foi conhecida essa divergência. Não façamos disto um caso. Quem mudou de posição não foi o PS, não foi o PCP ou o Bloco de Esquerda. Quem mudou de posição foi Pedro Passos Coelho e o PSD".

Passos Coelho continua a dizer que vai inviabilizar a medida, quando for a votação no Parlamento. Depois de, no último fim de semana, ter acusado o Governo de estar a "simular uma negociação" ontem à noite disse com todas as letras que o "PSD não servirá para o Governo aprovar TSU no parlamento". Criticou, ainda, o que diz ser a agenda "revanchista" do executivo de António Costa, rejeitando fazer "jeitinhos". 

Certo é que a estratégia política do PS mantém-se: atribuir responsabilidades no impasse ao PSD. Ana Catarina Mendes acusou o presidente social-democrata de sucessivos "ziguezagues" políticos e total desnorte sobre este tema. Disse até mesmo que a situação atual do PSD "fragiliza a democracia".

Recordou que, em 2016, "já na oposição, o dr. Pedro Passos Coelho dizia que estava contra o salário mínimo nacional então fixado, mas nada disse se estava a favor da descida da TSU. Agora, em 2017, o dr. Pedro Passos Coelho diz que está contra a descida da TSU e nada diz sobre o novo valor do salário mínimo nacional".

Na perspetiva da secretária-geral adjunta dos socialistas, "o que verdadeiramente está em causa é um acordo de concertação social, que tem medidas boas para os trabalhadores e que, sobretudo, representa o cumprimento de mais uma promessa do PS de aumentar o salário mínimo".

Mais uma vez, o PSD e Pedro Passos Coelho demitem-se de fazer uma oposição a sério, entretendo-se apenas com ziguezagues e revelando um desnorte total. Esse desnorte não é bom para o PSD, mas, principalmente, é negativo para o país, porque a democracia fica sempre fragilizada quando não existe uma oposição forte e que saiba o que quer".

Já Costa, na qualidade de secretário-geral do PS, classificou como "bom" o estado das relações políticas entre o Governo e os partidos que o suportam no parlamento, apesar desta divergência na TSU.

De acordo com fonte socialista citada pela Lusa, essa opinião foi transmitida por António Costa na reunião da Comissão Nacional do PS, após uma pergunta formulada pelo dirigente da UGT, José Abraão.

Na sua intervenção, José Abraão considerou "estranha" a contestação "dura" que está a ser feita pelo PCP, Os Verdes e pelo Bloco de Esquerda ao acordo de concertação social celebrado pelo Governo, mais concretamente à medida que concede aos empregadores uma descida da TSU em 1,25% como compensação a um aumento do salário mínimo para os 557 euros.

António Costa afastou totalmente, segundo as fontes, qualquer cenário de crise e aguarda "serenamente" pela apreciação do diploma pelo Presidente da República. Marcelo, por enquanto, opta pelo silêncio.

Há debate quinzenal no Parlamento, com o primeiro-ministro, hoje à tarde, pelas 15:00. O Governo escolheu a “situação económica e financeira” para tema e a polémica da TSU deverá ser ponto inevitável de discussão.