O Banco Millenium BCP quer despedir cerca de 800 trabalhadores. Miguel Maya, presidente executivo do BCP, afirmou esta segunda-feira que o plano de reestruturação do banco prevê a dispensa de 800 trabalhadores mas que não existe um plano de adesão voluntária.

Nós temos que retirar trabalhadores onde eles existem em excesso e, portanto, não é indiferente de onde se retiram essas pessoas. Como queremos reduzir o número de pessoas a sair temos de ter a capacidade de fazer com que saiam as pessoas que o banco tem a mais e isso pode exigir medidas unilaterais", disse, admitindo tacitamente o recurso a um despedimento coletivo.

O gestor afirmou ainda que os funcionários do banco a dispensar são quer de serviços centrais quer de sucursais. E acrescentou que o plano é para cumprir "na sua totalidade este ano", que o banco não está disponível para atrasar o processo.

Segundo informação a que a Lusa teve acesso, o BCP vai tentar que os empregados saiam através de reformas antecipadas ou rescisões por mútuo acordo (sem acesso a subsídio de desemprego). Miguel Maya não confirmou esta informação, referindo que apenas fala desse assunto com os representantes dos trabalhadores.

As estruturas sindicais temem, no entanto, que o número de trabalhadores dispensados possa chegar ao mil. Questionado na apresentação de resultados do primeiro semestre (lucros de 12,3 milhões de euros) se o objetivo do banco é a saída de 1.000 trabalhadores, Miguel Maya disse que esse era o objetivo inicial mas que, "depois de ouvidos a Comissão de Trabalhadores e os sindicatos, o objetivo central anda na ordem de 800 trabalhadores", "mais próximos dos 800 do que dos 900".

Na apresentação de resultados do banco, Miguel Maya disse que o  plano de reestruturação que está em curso tem um custo de cerca de 90 milhões de euros este ano, mas levará de futuro a poupanças anuais de 35 milhões de euros. 

O BCP apresentou lucros de 12,3 milhões de euros no primeiro semestre deste ano, menos 84% do que no mesmo período de 2020.

No entanto, o gestor disse que esta reestruturação "não tem a ver com pandemia", que a crise pandémica foi um "acelerador de tendência" mas que já estava previsto fazer devido aos hábitos dos clientes que "querem a conveniência dos canais digitais", à evolução tecnológica que "permite níveis de automação e eficiência superiores" e a um "contexto estrutural (não conjuntural) de concorrência acrescida".

Miguel Maya disse ainda que há cada vez mais operadores de base tecnológica que fazem concorrência ao banco, em diversas áreas, afirmando mesmo que alguns deles operam de modo "não regulado", repetindo uma crítica que tem feito recorrentemente.

No dia 13 de julho, os sete sindicatos do setor bancário promoveram uma manifestação em frente à Assembleia da República, contra os despedimentos, deixando em cima da mesa a realização de uma greve nacional. A iniciativa foi inédita por juntar pela primeira vez os vários sindicatos numa ação conjunta.

Na semana passada, os deputados da Comissão de Trabalho e Segurança Social votaram hoje por unanimidade os requerimentos do PSD para audição aos sindicatos do setor bancário e ao presidente executivo do BCP, Miguel Maya, que deverá ocorrer esta semana.

O setor bancário perdeu cerca de 15 mil funcionários entre 2009 e 2020 e este será novamente um ano ‘negro’.

Grandes bancos portugueses preveem reduzir milhares de trabalhadores, sendo BCP e Santander Totta os que têm processos mais ‘agressivos’ em curso.

Numa carta ao primeiro-ministro, António Costa, a UGT disse a semana passada suspeitar de que existe cartelização entre os grandes bancos para uma redução inédita de postos de trabalho no setor, "à custa da pandemia e dos seus efeitos".

Agência Lusa / MJC