Inglaterra voltou a colocar esta quinta-feira Portugal Continental na lista de países cujos passageiros estão sujeitos a quarentena, como resposta à pandemia de covid-19. O isolamento de 14 dias passa a ser obrigatório em quase todo o Reino Unido, uma vez que os viajantes vindos de Portugal Continental já estavam sujeitos a quarentena na Escócia e no País de Gales, desde os dias 5 e 4 de setembro, respetivamente.

A medida entra em vigor a partir das 04:00 do dia 12 de setembro.

Em comunicado oficial, o governo inglês informa que, tal como Portugal, França, Hungria, Polinésia Francesa e a ilha de Reunião também passam a estar fora da lista dos corredores turísticos.

O governo inglês fala numa "capacidade de diferenciar a Madeira e os Açores e o resto de Portugal do resto de Portugal".

Isto significa que os passageiros que cheguem a Inglaterra vindos dos Açores e da Madeira não precisam de cumprir quarentena, mas os que cheguem de Portugal vão ter de se auto-isolar", acrescenta a nota.

O governo inglês afirma que segue os dados do Joint Biosecurity Centre and Public Health England, que terá detetado uma mudança significativa no nível e no ritmo dos casos confirmados em Portugal.

Os dados mostram que houve um aumento consistente nos novos casos reportados em Portugal nas últimas três semanas, com um aumento de 81% nos novos casos em sete dias de 1.464 para 2.652 entre 26 de agosto e 9 de setembro", informa o comunicado.

Ficam também desaconselhadas todas as viagens não essenciais para o território continental português.

Em sentido contrário, o governo inglês decidiu incluir a Suécia na lista de corredores seguros, na sequência de uma diminuição da incidência da pandemia naquele país.

Portugal só foi incluído na lista dos países com “corredores de viagem” com o Reino Unido há três semanas, a 20 de agosto, porém o aumento contínuo do número de casos de infeção em Portugal terá pesado na decisão, que era esperada na semana passada, quando ultrapassou o nível de 20 casos por 100 mil habitantes. 

Na altura, o ministro dos Transportes, Grant Shapps, alegou que não excluiu Portugal devido à “taxa de positividade” em declínio.

MNE lamenta exclusão do continente do corredor aéreo britânico

O ministro dos Negócios Estrangeiros (MNE) de Portugal, Augusto Santos Silva, lamentou a decisão britânica de excluir Portugal continental da lista de países seguros.

Lamentamos a decisão britânica de excluir Portugal continental da lista de países isentos de quarentena, mas valorizamos a manutenção dos Açores e da Madeira", reagiu o MNE no Twitter, depois de o Governo britânico ter anunciado hoje que a partir de sábado quem regresse do continente terá de cumprir duas semanas de isolamento ao chegar ao Reino Unido.

O ministro acrescentou, na mesma publicação, que as regras sanitárias implementadas em Portugal têm controlado a covid-19.

As nossas regras sanitárias e a eficácia do nosso SNS [Sistema Nacional de Saúde] têm reconhecidamente permitido controlar os efeitos da pandemia", pode ler-se na conta oficial do MNE no Twitter.

Santos Silva frisou que continuará a ser enviada para o Governo britânico a informação relativa à evolução da covid-19 no país.

Portugal continuará a remeter toda a informação sobre a evolução da situação epidemiológica no espírito de total transparência que caracteriza o nosso diálogo com o Reino Unido", acrescentou.

O ministro da Economia, Pedro Siza Vieira, defendeu que a saída de Portugal da lista de países seguros do Reino Unido não é correta, nem fundamentada por razões objetivas.

Não é uma decisão correta, que seja fundamentada por razões objetivas de controlo da doença. O Reino Unido não cumpre o critério que definiu para a quarentena dos visitantes”, afirmou Siza Vieira, que falava aos jornalistas à margem da inauguração da nova sede da Auchan Retail Portugal, em Paço de Arcos, distrito de Lisboa.

O governante lembrou ainda que a União Europeia definiu que os países não devem aplicar “restrições à circulação” dos cidadãos dentro do espaço europeu.

Por outro lado, Siza Vieira notou que os operadores económicos e turísticos vão ter um ano ainda mais difícil na sequência desta decisão.

Para os cidadãos britânicos, também não tem qualquer fundamento. Uma pessoa que possa estar em férias em Portugal ou em negócios, de repente é confrontado com esta decisão”, exemplificou.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, reagiu hoje à decisão do Governo britânico de voltar a excluir Portugal continental do chamado corredor aéreo declarando que causa "uma sensação de injustiça".

Em resposta a questões dos jornalistas, no final da inauguração da nova sede da empresa Auchan Retail Portugal, em Paço de Arcos, no concelho de Oeiras, o chefe de Estado apontou o Algarve, em particular, como sendo "injustamente punido por esta decisão".

Mas temos de continuar, olhar em frente. O que é preciso nestas situações críticas - e eu vou ter reuniões esta semana com a hotelaria - é resiliência, resistência", acrescentou Marcelo Rebelo de Sousa.

Turismos do Algarve e do Norte esperavam decisão

O presidente do Turismo do Algarve disse que a decisão do Reino Unido de retirar Portugal do corredor aéreo que isenta os viajantes de quarentena à chegada ao seu território, “não é uma boa notícia, mas era esperada”.

Era uma decisão que era esperada, na medida de que na última semana o indicador de novos casos [de covid-19] por cem mil habitantes em Portugal superou o que tem sido o referencial do Reino Unido e que se agravou entre o período das duas revisões britânicas”, indicou à agência Lusa o presidente da Região de Turismo do Algarve, João Fernandes.

Para João Fernandes, a decisão britânica é “uma contrariedade muito grande para a procura externa do Algarve, dado que setembro é o mês de maior procura dos britânicos e que dita o início da época alta do golfe”.

Temos vindo a trabalhar outros mercados como alternativa, mas o peso relativo do mercado britânico dificulta muito a capacidade de atenuar o impacto e as reduções de procura como certamente veremos nos próximos tempos a partir do Reino Unido”, sublinhou.

O responsável máximo do Turismo do Algarve vê, no entanto, um sinal positivo que pode vir a reverter a posição do Reino Unido, “nomeadamente a redefinição dos critérios do conselho científico, que estão na base para a avaliação, como o número de testes como o fator mais determinante”.

Há aqui um sinal de esperança se houver uma redefinição do conjunto de critérios, porque temos visto que destinos que testam menos têm tido bonomia de avaliações que nem sempre traduzem a realidade dos territórios, tendo existido já uma discriminação positiva para os destinos insulares”, indicou.

Na opinião de João Fernandes, numa altura em que surgem testes mais baratos, rápidos e eficazes para a despistagem da covid-19, a discriminação positiva poderia estender-se a outras regiões, nomeadamente com “os passageiros a serem testados à partida e à chegada nos aeroportos, o que permitia desbloquear alguns impasses que são criados como medidas de fronteira” e que não penalizavam as regiões com menos casos.

Temos a obrigação, sobretudo, enquanto país, de tentar controlar a evolução da pandemia para podermos beneficiar dos corredores aéreos e das ligações que, apesar de tudo, mantemos com o Reino Unido e da procura para esses voos, porque obviamente está não é uma boa notícia, embora fosse aguardada”, concluiu.

O presidente do Turismo do Porto e Norte, Luís Pedro Martins, afirmou que a saída de Portugal continental da lista de países seguros do Reino Unido ainda que “expetável”, é uma “péssima notícia” para o turismo português.

Era uma saída já expetável tendo em conta o agravamento da situação em Portugal e o aumento de número de casos. De qualquer forma, é uma péssima notícia, mais uma para o turismo português, muito em particular para o Algarve, o primeiro destino escolhido pelo mercado britânico, mas também para o Porto e Norte”, afirmou Luís Pedro Martins.

Em declarações à agência Lusa, o presidente do Turismo do Porto e Norte de Portugal (TPNP) disse ainda que, apesar do mercado britânico não ser um dos “principais mercados” da região, estava a crescer, tendo aumentado 11% de 2018 para 2019.

Não tivemos a sorte de beneficiar dos britânicos naquele que é o mês que habitualmente preferem para visitar o Porto e o Norte”, salientou Luís Pedro Martins, referindo-se ao mês de setembro.

O presidente do Turismo Porto e Norte considerou ainda que a entrada de Portugal continental na lista de países obrigados a quarentena no Reino Unido, é “mais uma dificuldade” num ano “trágico” para o setor do turismo.

António Guimarães / com Lusa-atualizada às 19:05