O Sindicato Independente dos Motoristas de Mercadorias (SIMM) acusou hoje a Antram de estar a aproveitar-se do que aconteceu no Reino Unido e de estar a preparar-se para não aumentar os salários em 2021, como estava previsto.

Iremos deitar mão a todas as formas de luta ao nosso alcance para travar a ‘sem-vergonhice’ que é o aproveitamento que está a ser feito do que se passou no Reino Unido, o que esse senhor [porta-voz da Antram, André Matias de Almeida] está a dizer aos profissionais que foram as principais vítimas daquela situação angustiante, é que terão os seus salários congelados em 2021”, afirmou hoje o SIMM, em comunicado.

Em causa está a suspensão do tráfego de camiões entre o Reino Unido e a França durante 48 horas, na sequência da deteção em território britânico de uma variante do SARS-CoV-2 que pode ser até 70% mais contagiosa.

Em declarações à agência Lusa, o porta-voz da Associação Nacional de Transportadores Públicos Rodoviários de Mercadorias (Antram), André Matias de Almeida, disse que o balanço da associação apontava para perdas que podiam “ultrapassar os dois, três milhões de euros”.

Na opinião do porta-voz da associação patronal, “terão de ser assumidas as responsabilidades políticas” pela situação vivida pelos motoristas na semana passada e, também, pelas consequências sofridas pelas empresas.

Ao Expresso, Matias de Almeida disse que patrões não vão “suportar” aumentos salariais dos motoristas, previstos para janeiro, e que iam pedir uma reunião com o Governo.

O SIMM considerou hoje ser “absolutamente ridículo” tentar “colar” a situação vivida no Reino Unido a todo o setor, uma vez que “90% das empresas de transporte portuguesas não fazem transporte de ou para o Reino Unido”.

“Não podemos deixar de questionar qual a intenção da Antram com as últimas declarações do seu porta-voz, Dr. André Matias de Almeida”, lê-se no comunicado do sindicato.

Das duas uma, ou a Antram se prepara para incumprir com os aumentos salariais previstos (não vamos deixar) ou, está em marcha mais um plano para obter, através de benefícios fiscais, uma compensação que acomode o aumento salarial acordado há mais de um ano”, acrescentou o SIMM, manifestando-se contra a última hipótese.

Somos contra que sejam os impostos de todos os portugueses a pagar o nosso aumento”, afirmou.

Os motoristas de mercadorias, que protagonizaram duas greves em 2019 (abril e agosto), consideram que a paz social no setor está novamente ameaçada, face às declarações do porta-voz da Antram, que descreveram como um “pistoleiro que dispara sobre a lata que faz mais barulho, apenas para chamar a atenção e desinformar a comunicação social e a opinião pública”.

Depois de duras negociações entre patrões e sindicatos, com a mediação do Governo, ficou acordado que o aumento do salário base dos motoristas de mercadorias para os anos de 2021, 2022 e 2023 estaria indexado à percentagem de aumento do salário mínimo nacional.

“Durante duas décadas - e mesmo agora - as empresas deste setor concorrem numa lógica de concorrência desleal onde a única coisa que fazem é destruir o mercado onde pretendem ganhar dinheiro, quase sempre à custa dos motoristas, pelo número de horas de trabalho a que estão sujeitos, pelo desrespeito da tabela salarial, pela sonegação ou diminuição dos valores previstos nas cláusula de expressão pecuniária; em suma, uma política de gestão de ‘pato bravo’ com a conivência das autoridades e organismos do estado”, acusou o SIMM.

/ BC