A carne ficou mais cara, um cabaz de fruta custa quase mais um euro em comparação com 2019, mas os vegetais ficaram mais baratos uns cêntimos durante a pandemia.

De acordo com contas feitas pela TVI24 com base nos valores mais recentes do Índice de Preços no Consumidor e, utilizando o exemplo de um cabaz de alimentos pensado para uma pessoa durante uma semana, chega-se à conclusão de que, em agosto de 2021, pagámos mais 1,40 euros na caixa do que pagávamos no mesmo mês em 2019.

A maior subida é no preço da carne. Se, em 2019, 9,99 euros nos permitiam comprar meio quilo de bifanas de porco, uma embalagem média de bifes de frango e 270 gramas de carne de novilho, hoje esse preço ascende aos 10,54 euros.

Exemplificando, meio quilo de bifanas custa hoje 2,3 euros - de acordo com uma média feita com base no preço de venda ao público em quatro supermercados distintos. Sendo que o preço deste produto aumentou 5.32% desde 2019, percebemos que, antes da pandemia, este alimento custava cerca de 2,17 euros.

Para Henrique Tomé, analista financeiro da XTB, a razão passa pela “subida do preço das matérias-primas, que continuam a alimentar as pressões inflacionárias”. Contudo, assume, “espera-se que nos próximos anos possa haver uma estabilização dos preços, à medida que as economias continuam a reabrir e os constrangimentos continuam a ser ultrapassados”.

Destaque para a carne de porco que, durante o ano de 2020, registou um aumento de 97% (a generalidade dos produtos alimentares aumentou em 17,4%, nesse ano), muito por causa de um surto de peste suína que se espalhou pelo continente chinês em janeiro. Milhões de animais morreram e a situação provocou uma mudança na procura dos importadores, que tentaram encontrar uma solução na Europa e nos Estados Unidos.

A economia esteve parada durante vários meses e isso provocou limitações na produção de vários produtos. Além disso, o aumento dos preços das matérias-primas, como os produtos agrícolas, também deverá estar na origem desta subida nos preços dos produtos alimentares”, define o analista financeiro.

Nos Estados Unidos, a realidade é notória se considerarmos o bacon, que atingiu o valor mais alto em 40 anos. O preço médio por fatia de bacon subiu 28% nos últimos 12 meses, ao passo que as costeletas de porco sofreram um aumento de 7%, de acordo com o IPC norte-americano.

Outro grupo de alimentos que também registou uma subida notória foi a fruta que, em agosto de 2020, aumentou o preço em mais de 15%. Aplicando os mesmos requisitos, em 2019, se levasse no carrinho de compras um quilo de maçãs, um quilo de bananas, 500 gramas de uva branca e um quilo de laranjas, iria pagar 6,17 euros. Em 2020, esse preço subiu para 7,28 euros, sendo que, um ano depois, reduziu para 7,12 euros. 

Uma subida menos acentuada é aquela no recibo das compras por pão e cereais. Uma média feita em quatro hipermercados mostra que o preço de três bolas de centeio, duas bolas de mistura e três baguetes de trigo custam 2,17 euros. Uma subida de quatro cêntimos desde 2019 e de um cêntimo, se considerarmos o mês de agosto de 2020.

No entanto, há também produtos que desceram (não muito) no correr da pandemia. Tomando o cabaz selecionado como exemplo, os vegetais, os ovos e lacticínios desceram uns cêntimos. 

Exemplo: dois pacotes de leite, uma dúzia de ovos e uma embalagem de queijo flamengo custariam, em média, 5,05 euros em 2019. Em 2020, com uma variação de menos 0,57%, o preço era de 5,02 euros, mais um cêntimo do que em 2021.

Já no departamento dos vegetais, uma alface, um quilo de tomates e de batatas, um pacote de espinafres e um quilo de curgetes têm um impacto na carteira, hoje, de 6,19 euros. Em 2020, o valor era de 6,21 euros e pré-pandemia de 6,29 euros.

Durante os últimos meses, têm chegado várias informações de que o preço dos alimentos tem estado a subir e muitos especialistas olham para a pandemia como justificação. De facto, as limitações na produção e uma oferta mais limitada de bens são notórios, mas é importante perceber como esse contexto afetou as carteiras.

Feitas as contas, é possível perceber como, de fevereiro de 2020 até agosto de 2021, houve 17 meses em que os preços dos produtos alimentares subiram de forma homóloga, com o pico a ser atingido em junho, mês em que o Índice de preços no consumidor - usado para observar as tendências de inflação num conjunto específico (ou não) de bens - atingiu os 3,32%.

Na opinião de Henrique Tomé, as grandes variáveis que influenciaram o preço dos alimentos pago pelo consumidor prendem-se por a economia ter estado a produzir a “meio gás” durante quase um ano e meio. Isto “acabou por agravar a situação dos produtos que ainda continuam com receios em torno do futuro, uma vez que a pandemia ainda está longe de estar controlada”.

Os constrangimentos nas cadeias de fornecimento, de alguns produtos, também não têm ajudado e têm contribuído para o aumento dos preços. A juntar a tudo isto, o aumento dos preços dos produtos agrícolas fazem com que os produtores tenham de passar os custos para os consumidores finais”, explica, em entrevista à TVI24. 

Ainda assim, apesar de Portugal não ser dos países que apresenta as maiores taxas de inflação na zona euro ou em comparação com outras economias como a norte-americana, “espera-se que este crescimento dos preços generalizados possa começar a abrandar durante os próximos meses”. 

E os tradicionais alimentos de Natal? Podemos esperar um aumento? Tomé diz que “existe essa possibilidade”, embora se espere que a inflação comece a abrandar durante o último trimestre deste ano. 

Preço mundial dos alimentos atinge pico em 10 anos

Esta quinta-feira a agência de alimentos das Nações Unidas afirmou que os preços mundiais dos alimentos subiram pelo segundo mês consecutivo, em setembro, para atingir o pico de 10 anos.

A Organização para a Alimentação e Agricultura (FAO), com sede em Roma, também projetou uma produção mundial recorde de cereais em 2021, mas disse que isso seria superado pelo consumo previsto.

O índice de preços de alimentos da FAO, que acompanha os preços internacionais dos bens alimentares mais negociados globalmente, atingiu a média de 130,0 pontos no mês passado, a maior leitura desde setembro de 2011, segundo dados da agência.

Na comparação anual, os preços aumentaram 32,8% em setembro.

Na mesma linha, os preços dos bens agrícolas aumentaram de forma acentuada no ano passado, uma subida influenciada por retrocessos na produção e na procura por parte da China.

O índice de preços de cereais da FAO aumentou 2,0% em setembro em relação ao mês anterior, com um aumento de quase 4% nos preços do trigo.

Também os preços mundiais do óleo vegetal subiram 1,7%, revelando um aumento anual de cerca de 60% e impactado com preocupações mundiais com a escassez de mão de obra na Malásia.

Ademais, os preços globais do açúcar aumentaram 0,5% em setembro, devido à preocupação com o clima adverso da cana no principal exportador, o Brasil. Ainda que, parcialmente compensado por uma perspectiva favorável de produção na Índia e na Tailândia, de acordo com a FAO.