Portugal anda a criar emprego, mas não de forma homogénea em todo o país. As conclusões são de um estudo da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE) sobre o risco da automação do trabalho, apresentado hoje no Porto.

O desempenho da economia portuguesa, que cresceu 1,3 pontos percentuais entre 2011 e 2016, "mascara grandes diferenças ao nível regional", já que durante este período a maioria dos postos de trabalho foi criada na região de Lisboa, representando mais de 60% da criação líquida de postos de trabalho em Portugal. Em contraste, “a região Norte registou a maior perda de empregos, representando cerca de 64% de um declínio de empregos líquidos na economia".

De acordo com a OCDE, estima-se que em 2019 a instalação mundial de 1,4 milhões de robots industriais contribuirá muito significativamente para a transformação tecnológica das empresas, o que trará repercussões a médio prazo na economia local.

A OCDE sublinha, contudo, que "desde 2011, a maioria das regiões (60%) conseguiu criar mais empregos com menor risco de automação do que os empregos perdidos em setores de alto risco de automação".

As regiões com uma parcela menor de empregos em risco de automação, acrescenta, "são aquelas que têm trabalhadores altamente qualificados, um forte setor de serviços comercializáveis e que são altamente urbanizadas".

Para aquela organização, "o impacto desigual da automação entre as regiões pode potencialmente ampliar as desigualdades nas condições de emprego", pelo que cabe aos decisores políticos encontrar soluções de equilíbrio "entre a necessidade de promover a automação para aumentar a produtividade e a necessidade de gerenciar perdas de emprego a curto ou médio prazo provenientes da automação".

Uma das preocupações espelhadas no estudo prende-se com o trabalho precário, nomeadamente os "falsos recibos verdes", que "na maioria dos países da OCDE dissimula grandes diferenças regionais dentro dos países".

Consequentemente, defende a OCDE, as políticas que combatem o falso emprego ajudarão a melhorar a qualidade global do trabalho independente, que garantam o acesso a um mercado de trabalho inclusivo e a oportunidades profissionais de boa qualidade para todos independentemente da região onde vivem.

Automação pode aumentar desemprego nas regiões com taxas mais altas

A OCDE alertou ainda que o crescimento da automação nas empresas pode pôr em risco postos de trabalho, sobretudo em regiões onde a taxa de desemprego já é elevada.

De acordo com o estudo "por um lado, a automação é necessária para promover o crescimento da produtividade, mas, por outro lado, aumenta o espetro de novas perdas de emprego em regiões que já sofrem com o alto índice de desemprego".

Entre os 36 países considerados no estudo, e onde se inclui Portugal, a percentagem de empregos que apresentam um risco elevado de automação varia entre 4% e 40%.

Eslováquia (com 33,6% dos trabalhadores), Eslovénia (25,7%), Grécia (23,4 %), Espanha (21,7%), Chile (21,6%) e Lituânia (21%) são os países que registam uma maior percentagem de alto risco de automação, aquela em que cada trabalhador tem 70% ou mais de possibilidade de ser substituído por um computador.

Já no que diz respeito ao "risco significativo de mudança" (entre 50% e 70%), o topo da tabela é ocupado pela Turquia, a Lituânia, o Japão, a Alemanha, a Rússia, a Itália, Grécia e França.

Espanha também surge na lista, com 30,2% dos trabalhadores em risco significativo de mudança.

Diferenças que podem ser ainda mais expressivas entre regiões do mesmo país onde as disparidades são, frequentemente, mais de cinco ou de dez pontos percentuais.

Entre as regiões com melhor e pior desempenho está o Canadá, onde esses valores diferem em apenas um ponto percentual e a Espanha que regista uma diferença de 12 pontos percentuais.

Em Portugal, e segundo a OCDE, não foi possível, por falta de informação, apresentar uma estimativa de empregos em risco de automação, mas apenas traçar um perfil das condições de trabalho no país.

No relatório, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico que escolheu o Porto para acolher a 14ª edição do LEED Fórum sobre as novas tendências do mundo de trabalho, sublinha ainda que "devido aos recentes desenvolvimentos tecnológicos no campo da inteligência artificial, o ritmo da automação deve acelerar".

Enquanto anteriormente eram, sobretudo, as profissões que exigiam baixas ou médias qualificações, que poderiam ser automatizadas, atualmente, e à luz das novas tecnologias, abrem a porta, num futuro próximo, à automatização de funções altamente qualificadas,

O objetivo do LEED Fórum é juntar responsáveis locais, nacionais e internacionais para debater com empresários e inovadores sociais quais as novas exigências do mundo do trabalho e de que forma será possível conseguir uma maior harmonia entre a formação e a preparação dos trabalhadores com as novas oportunidades laborais.