Nem chegaram a uma centena. Em 2015, os dados do Gabinete de Estratégia e Planeamento (GEP) do Ministério do Trabalho referem apenas a pré-marcação de 95 greves. Bem menos do que as 123 de 2014 e um recuo de 53% face às 199 registadas cinco anos antes.

De acordo com o jornal Público, em 2015, o número de total de trabalhadores envolvidos nos protestos também caiu 83%, ao cabo dos mesmos cinco anos.

Que as greves diminuíram é um facto", assume Sérgio Monte, secretário executivo da UGT, ouvido pela TVI24, que realça, contudo, que os números derivam da contabilização de pré-avisos "de greves que muitas vezes não se concretizam"

Há que separar duas coisas: o privado e o setor empresarial do Estado. E aí, sobretudo no setor dos transportes, desde 2013, havia o espetro da concessão a privados", refere o sindicalista.

Ao Público, José Manuel Oliveira, dirigente da Fectrans (a federação dos Transportes da CGTP) afian pelo mesmo diapasão. Lembra que 2012 e 2013 foram os “momentos altos” dos processos de concessão a privados de empresas como a Metro de Lisboa ou a Carris. Logo, aumentou o número de greves e de trabalhadores envolvidos.

Já este ano, com a reversão de alguns processos de concessão, José Manuel Oliveira diz que a realidade é outra. Adianta mesmo que não foi entregue qualquer pré-aviso de greve nas empresas de transportes ditas tradicionais.

"Negociação coletiva começou a funcionar"

Para Sérgio Monte, a negociação coletiva explica também, em muito, a diminuição do número de paralisações em 2015.

A negociação coletiva começou a funcionar em empresas como o Metro, a Carris, nos próprios STCP e até na Transtejo e isso atenua as greves no setor dos Transportes, normalmente o mais atingido", explica Sérgio Monte.

Em termos globais, o sindicalista mostra-se satisfeito pelo crescente aumento da negociação coletiva, que bateu recordes negativos nos anos em que Portugal se guiava pelas regras da troika.

Em 2008, que podemos entender como um ano pré-crise, havia em Portugal cerca de dois milhões de trabalhadores abrangidos pela contratação coletiva. Em 2013/2014, esse número baixou para apenas 200 mil pessoas. Já no ano passado, o número subiu para 600 mil e até ao terceiro trimestre deste ano já ultrapassa os 800 mil", revela Sérgio Monte.

A baixa dos acordos de contratação coletiva explica assim, segundo o dirigente da UGT, o maior número de paralisações nos setores privado e público, registado entre 2011 e 2014, com um expoente de 233 paralisações em 2012, segundo os dados do GEP do Ministério do Trabalho.

Foram anos em que os patrões seguiram os maus exemplos que o anterior Governo dava no setor público", sustenta o sindicalista. 

Eficácia e dias de trabalho perdidos

Apesar do número de greves e de trabalhadores envolvidos ser menor, sobretudo desde 2012, a leitura do jornal Público dá conta que "o número médio de dias perdidos por trabalhador subiu de uma média de 1,5 para 1,7 entre 2014 e 2015".

Já a taxa de eficácia das paralisações, contabilizando a percentagem de exigências aceites pelas empresas, continua próxima dos 50%. Sendo que, "em 2013, no auge do programa da troika, apenas 11,9% das reivindicações tinham sido aceites ou parcialmente aceites, tendo mais de 88% ficado pelo caminho", na leitura do jornal.

Nas questões salariais e de condições de trabalho terá havido eficácia, mesmo que não tanta quanto gostaríamos. No caso do setor privado, foram conseguidos alguns aumentos de ordenados com as greves, mesmo que não tenham sido assim tão significativos. Mas aí, posso assegurar que mais de metade das greves que acompanhámos tiveram algum êxito", salienta Sérgio Monte.

Já no que respeita ao Estado, o dirigente da UGT considera que a leitura dos dados tem de ter outra abordagem.

No setor empresarial do Estado conseguiu-se travar a concessão a privados, sobretudo na forma como estava a ser feita, em cima do joelho", realça o sindicalista.