A Unidade Técnica de Apoio Orçamental (UTAO) admite que as previsões do Governo para o crescimento económico até 2017 podem ser prejudicadas por uma desaceleração do consumo privado e no investimento, limitado pela situação do sistema financeiro.

Na versão final da Análise do Programa de Estabilidade 2017-2021, a que a agência Lusa teve acesso, nesta sexta-feira, a UTAO acrescenta um ponto dedicado aos riscos associados ao cenário macroeconómico, admitindo que são descendentes e ascendentes para o crescimento económico estimado pelo Governo - de 1,8% este ano e subindo gradualmente até 2,2% em 2021.

Por um lado, admite, há "o risco de uma desaceleração do consumo privado, no caso de se concretizar um aumento da taxa de poupança superior ao previsto, o que poderia ser reforçado num cenário alternativo de aumento das taxas de juro".

Os técnicos que apoiam os deputados da Comissão de Orçamento e Finanças salientam que o cenário macroeconómico do Programa de Estabilidade apresenta uma "manutenção do ritmo de crescimento do consumo privado" até 2021, associado à “recuperação do rendimento disponível, através do aumento das remunerações por trabalhador e aumento da taxa de poupança em 2021 para níveis semelhantes aos de 2014".

Isto significa que a dinâmica do consumo privado "está sujeita por um lado, a uma recuperação lenta da taxa de poupança, que caso seja mais acelerada representa um risco descendente", que pode "ser reforçado num contexto em que se verifique o aumento das taxas de juro no mercado monetário, contribuindo desta forma para o aumento do incentivo da poupança".

Já quanto ao investimento privado, a UTAO entende que "poderá estar limitado pelas restrições de financiamento, perante reduzidos aumentos do crédito concedido e elevado rácio de endividamento e de crédito em incumprimento".

Além disso, destacam os especialistas, a "evolução do sistema financeiro, no sentido de superar as dificuldades para alcançar maiores taxas de rendibilidade num contexto de baixas taxas de juro, elevados níveis de crédito em incumprimento, e aumento de impostos dirigidos ao setor, poderão contribuir para dificuldades acrescidas à recuperação do investimento".

"Adicionalmente, o comportamento económico menos dinâmico dos principais parceiros comerciais poderá conduzir a um menor dinamismo das exportações portuguesas e do investimento previsto", admitem.

Além da incerteza ao paradigma económico e político em diversos países, como no Reino Unido ('brexit') e nos EUA, "os desenvolvimentos nos mercados financeiros internacionais são marcados por elevada incerteza", advertem os técnicos.

"Uma alteração deste enquadramento, nomeadamente com a redução da utilização de instrumentos de política monetária não convencional na área do euro deverá ter efeitos significativos nos mercados de capitais internacionais", afirmam.

Já nos fatores que podem ser positivos para as estimativas económicas do Governo até 2021, a UTAO destaca a recuperação do mercado de trabalho, que, "quer em termos quantitativos quer ao nível do aumento das remunerações, poderá materializar-se num risco ascendente sobre o consumo privado".

"O aumento previsto das remunerações totais da economia poderá conduzir a uma aceleração mais forte do consumo do que a esperada. Note-se que mesmo em contexto de aumento dos rendimentos poderá verificar-se redução da taxa de poupança, em particular verificando-se aumento nos escalões de rendimento com mais elevada propensão marginal a consumir", contrapõe a UTAO.

Os técnicos entendem que "este efeito é reforçado se as expectativas sobre as medidas de política económica contribuírem para um menor contexto de incerteza nos agentes económicos e perante a melhoria das condições no mercado de trabalho".

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