Dois anos depois do final de carreira, Nelson Ramos conduz o Maisfutebol numa viagem pelas memórias da carreira. De Cabo Verde a Sevilha, passando por Porto, Lisboa, Palermo ou Larnaca, entre outras paragens. As curvas de um trajeto que o levaram a concretizar um sonho de infância, mas que não ficou por aí. Uma retrospetiva que encontra alguns desgostos, mas que revela sobretudo orgulho. 

Neste excerto da entrevista o internacional português fala sobretudo dos três anos em que representou o Benfica, clube pelo qual já torcia em Cabo Verde, e também assume a tristeza por não ter conseguido representar mais vezes a seleção portuguesa.

Esteve apenas um ano no Boavista e depois assina pelo Benfica, clube pelo qual já simpatizava…

Sim. Não era nada novo para quem me conhecia, essa paixão pelo Benfica. O João Pinto sempre foi uma referência para mim, a família era toda benfiquista. «Engaram-me» na pré-época, disseram que eu ia a Lisboa tratar de documentos no consulado. Viajei com o Paulo Gonçalves, e só a meio do caminho ele disse que eu ia assinar pelo Benfica.

Mas também houve interesse do FC Porto, não foi?

Sim, por altura de novembro um intermediário tinha falado comigo sobre essa possibilidade. Eu entreguei o assunto aos meus representantes. Foi o que eu soube.

A passagem pelo Benfica fica marcada sobretudo pelas noites europeias?

O primeiro ano foi muito importante. Mudou tudo na minha carreira. Cheguei a um clube grande, e passei de incógnita a certeza em dois ou três meses. Consegui impor-me na equipa, tinha a confiança do treinador e dos colegas. Foi um ano espetacular. Consegui superar a pressão e mostrar o que eu valia. Foi um ano muito bonito a nível pessoal, até porque depois tive o Europeu de sub-21. Mais tarde cheguei à seleção principal com Scolari…

Mas sai do Benfica sem qualquer título conquistado. É uma mágoa que ainda guarda?

É a tristeza que eu tenho, e falo disso com os meus amigos. Não escondo que sou benfiquista, e ser campeão pelo Benfica seria… nem sei. Seria um sonho realizado. Ia marcar-me para toda a vida. A trajetória que eu fiz, e depois chegar ao Benfica e ser campeão…cuidado. As pessoas não têm noção do que é sair de Cabo Verde com uma enorme incerteza e depois acabar campeão no Benfica. Era para contar aos netos, algo impensável para muitos. É uma das coisas que me deixa triste, ter saído do Benfica sem ser campeão. Quando cheguei ao Benfica, nunca pensei sair. Pensava acabar lá a carreira, mas no futebol acontecem muitas coisas. Quando cheguei ao Benfica senti que tinha chegado ao topo, pois sentia que era o clube mais importante do mundo. Fiquei muito triste por não ser campeão.

Que recordações guarda do Benfica?

Quando cheguei lá desfrutava de tudo, de todos os detalhes. Tinha sonhado com aquilo, mas viver aquilo era diferente. Estava sempre a pensar se ainda era um sonho. Desfrutava cada momento, de chegar ao balneário, do convívio com os colegas e as pessoas do clube. Dos jogos bonitos que fiz, aquele ambiente da Luz. Nas minhas redes sociais estou sempre a recordar os momentos que passei no Benfica, nas redes sociais.  Mantenho amizade com pessoas que ainda estão no clube, e com antigos colegas, como o Simão e o Nuno Gomes. Com o Mantorras não tenho falado tanto, mas também mantive a ligação. David Luiz. O Sidnei, que está no Betis. Carlitos.

E o dia em que chegou atrasado ao treino e não viajou com a equipa para a Roménia…

(risos) Estava sozinho em casa, a minha mãe não estava. Não ouvi o despertador. Acordei à hora que estava a começar o treino. Eu vivia na Charneca [da Caparica], ali ao lado do Seixal, e fui rápido, mas a tremer por todos os lados. Sabia como era o Fernando Santos. Fui falar com o mister, que me disse que eu não ia ser convocado. Disse que eu estava de castigo, que o Benfica era uma instituição muito grande, que era preciso encarar o trabalho com seriedade. Imagina como eu passei o dia… senti-me muito mal. É que eu sempre tive bem presente o clube que representava. Falhar um treino, uma viagem… era grave. Saiu nas capas dos jornais e senti vergonha. Só saí quando a equipa voltou, para ir treinar.

Só volta a Portugal em 2014, para uma época no Belenenses. Antes disso não surgiu a oportunidade de voltar?

Sim. Quando o Betis desceu de divisão o Sporting mostrou interesse, mas não conseguia pagar o meu salário. Mas eu também tinha outras possibilidades, como o Atlético de Madrid, só que o Lopera não deixava sair ninguém. Dizia que os jogadores que tinham descido o Betis iam voltar a coloca-lo na primeira divisão. E depois também quando fui para o Osasuna, dois anos depois, o Sporting esteve novamente interessado.

Quando assina pelo Belenenses é com o intuito de ficar em Portugal para terminar a carreira?

Tinha propostas da Turquia, e da segunda divisão espanhola, equipas para lutar pela subida, mas o Belenenses mostrou muito interesse. Sabia perfeitamente o projeto que me esperava. Eu fui para o Belenenses com duas intenções: voltar a casa, pois tinha saudades dos meus amigos e da minha mãe, que vivia sozinha em Portugal, e depois voltar à Seleção. Pensei que ia ter maior visibilidade.

Fez quatro jogos pela Seleção. A estreia com Carlos Queiroz, e depois três jogos com Paulo Bento. Olhando agora para trás, sente que foi pouco, ou foi aquilo que tinha de ser?

Na vida eu sou assim: quando acontecem coisas más, tento sempre ultrapassá-las rapidamente. Foi assim que cheguei onde cheguei. Mas sinceramente tive muitos percalços na carreira, que limitaram o meu percurso na Seleção. Quando fiz a estreia, tinha Paulo Ferreira, Miguel e Bosingwa como concorrentes. O Betis desceu, e eu pensei logo que o Mundial estava perdido. Mas se não tivesse sofrido aquela lesão no Osasuna, no auge da minha carreira, naquela que foi a minha melhor época em Espanha… faltavam dois jogos para o final da época! O Paulo Bento contava comigo. O Leonel [Pontes] falava sempre comigo, vinha ver os meus jogos, dizia que contavam comigo. Fiquei um ano parado, e era ano de Europeu. O Nápoles queria contratar-me. No dia da lesão tinha o diretor desportivo do Nápoles no estádio. Até foi ver-me ao hospital e falou com os médicos para saber a gravidade da lesão. Acabei por não ir para lado nenhum. Se não fosse isso, tinha muitas hipóteses de fazer um percurso diferente na Seleção. Na altura as opções era eu e o João Pereira. Mas o futebol é mesmo assim. Segui em frente, voltei depois, e o Paulo Bento chamou-me. Mostrou que contava mesmo comigo, que estava à minha espera. Quando voltei tive um dérbi com o Sevilha, e o Betis queria fazer-me a folha. Eu tinha um salário alto, e se fizesse 20 jogos renovava automaticamente. Perdemos 5-1 com o Sevilha, apontaram-me o dedo, e estive afastado da equipa três meses. Tive de sair, fui para o Palermo, e a minha carreira começou a descer aí.

Qual a maior mágoa: não ter conquistado um título pelo Benfica, ou ter falhado uma fase final pela Seleção?

Não vou ser hipócrita. Sou muito benfiquista, mas uma fase final de uma prova pela Seleção é o máximo a que um jogador pode aspirar. Doeu-me muito. Sobretudo por pensar que não foi por falta de trabalho ou por falta de qualidade. Foi pelos percalços que tive. Mas não dependia de mim. Por isso não me posso sentir culpado. Mas o que sinto mais mágoa é não ter participado numa grande competição pela seleção.

Boavista-Porto, Benfica-Sporting ou Betis-Sevilha: qual o dérbi mais marcante?

Escolho os clássicos entre Benfica e Porto! Quando era pequenino já vivia esses jogos, em Cabo Verde, e havia sempre chatices. E no campo sempre os vivi intensamente. Contra o Porto sempre existiu essa rivalidade, que vinha desde pequenino. Era muito mais intenso. Mas o Betis-Sevilha também é top, top mundial. Não se fala de outra coisa durante a semana. O ambiente é muito bonito. Mas dentro de campo escolho o Benfica-Porto.

Nuno Travassos