Dois anos depois do final de carreira, Nelson Ramos conduz o Maisfutebol numa viagem pelas memórias da carreira. De Cabo Verde a Sevilha, passando por Porto, Lisboa, Palermo ou Larnaca, entre outras paragens. As curvas de um trajeto que o levaram a concretizar um sonho de infância, mas que não ficou por aí. Uma retrospetiva que encontra alguns desgostos, mas que revela sobretudo orgulho. 

Neste excerto da entrevista o internacional português recorda os anos de carreira passados no estrangeiro, a representar Betis, Osasuna, Palermo, Almería, Alcorcón e AEK Larnaca.

Sai do Benfica para o Betis, em 2008, mas durante muito tempo falou-se no Sevilha, curiosamente…

Sim, sim. Estávamos no início da época e íamos jogar a pré-eliminatória da Liga dos Campeões. O Daniel Alves ia ser vendido ao Chelsea e eu era a primeira opção para o substituir, e o Sevilha contactou o Benfica. Fomos jogar a Copenhaga e eu fiquei no banco, por causa da possível transferência. O Daniel Alves acabou por não ir para o Chelsea do Mourinho, e eu fiquei no Benfica. Um ano depois fui para o Betis. Estava em negociações para renovar com o Benfica, não chegámos a acordo, e foi a melhor opção para as duas partes.

O Betis, onde estava já o Ricardo, não tinha a saúde que tem hoje. Acabaram por descer, houve invasão de adeptos ao treino… houve ali momentos complicados, não foi?

O Betis estava numa fase delicada. Era um clube respeitado, mas num momento de transição, com muitos jogadores novos. A equipa era muito boa, mas estava em formação. O Betis tinha muitos problemas: os adeptos estavam contra o dono, que era o Lopera, tivemos mudanças de treinadores, dívidas. Começámos bem a época, a lutar pela Europa, que era o objetivo, mas começámos a cair e descemos por um ponto. Os adeptos começaram a manifestar-se, tivemos essa invasão… saltaram a vedação e rodearam o campo, mas acabou por ser só bocas. O ambiente andou muito complicado, e na segunda época não conseguimos subir. O Betis começou a ter graves problemas financeiros. Como era dos jogadores com salário mais alto, fui emprestado ao Osasuna, onde reencontrei o Camacho.

Mas o Betis é um clube que continua muito presente na sua vida, até por viver em Sevilha, não é?

Sim. Tive uma ligação forte com o clube. Passei por um momento difícil quando voltei do Osasuna, estive um ano parado por lesão, mas consegui superar tudo. Consegui voltar, mostrar o meu profissionalismo, os adeptos cantaram o meu nome, e assim se vê a ligação que eu consegui. Ainda hoje os adeptos respeitam-me muito aqui, e isso enche-me de orgulho. Não saí como queria, mas consegui deixar o Betis na UEFA, que era o objetivo quando cheguei.

Depois esteve no Palermo, onde reencontrou Miccoli, e um plantel que tinha ainda Ilicic, e um tal de Dybala… 

O Palermo estava numa situação complicadíssima, e acabámos por descer de divisão. Foram contratados 13 jogadores a meio da época, mas não evitámos a descida. E a equipa era espetacular, cheia de internacionais. O Ilicic era um craque. O Dybala não jogava tanto porque era muito novo. Tecnicamente era espetacular, mas jogava o Ilicic e o Miccoli. O clube estava numa fase difícil, e apostavam nos jogadores mais maduros. Mas já se via que era um craque, rebentava nos treinos. Desportivamente não foi um ano muito bom, mas aprendi muito. Sofri um bocado, e isso deixou-me mais forte para superar qualquer circunstância no futebol.

E o Miccoli? Grande figura, não?

Já o conhecia, mas não ao Palermo. Era impressionante o respeito que eles tinham por ele. Era um Deus ali. Foi o único jogador que eu vi chegar ao clube com um massagista particular. Nem preciso dizer mais nada. Era o capitão. Fisicamente estava com problemas, e precisa de um tratamento especial, mas ele respeitava toda a gente, com humildade, e estava sempre disposto a ajudar. E com a bola no pé resolvia tudo.

Nuno Travassos