Se este fosse um ano normal, Bruno Alves não estava a jogar futevólei e a mergulhar no mar da Póvoa de Varzim antes de falar em exclusivo ao Maisfutebol. Mas este não é um ano normal. Esta é a primeira vez, desde 2006, que o defesa central de 37 anos não está nos convocados de Portugal para uma grande competição de seleção.

Estão mais de 30 graus e nem a típica nortada da zona se faz notar. Bruno senta-se à mesa, respira fundo e joga em casa. Todos o conhecem, todos o cumprimentam, é aqui que o internacional português - três Europeus, três Mundiais, uma Confederações, 96 jogos/11 golos - se sente bem. E é aqui que volta sempre. Agora com mais tempo do que é costume. 

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Maisfutebol – A Liga das Nações vai começar e é a primeira grande competição de seleções que falha desde 2006. Não é estranho para si?
Bruno Alves –
Tudo tem o seu tempo, é o ciclo natural da vida. Sempre dei o meu máximo na seleção, em treinos e em jogos. Estou muito feliz com tudo o que conquistei pelo meu país. Se gostava de ainda ser chamado? Claro, claro que sim. Sinto-me em boas condições, mas o selecionador é que tem de decidir. Sinto orgulho na minha carreira e continuo a torcer pela seleção, pelo Fernando Santos e por todos os meus colegas.

MF – 96 internacionalizações e 11 golos. Não é tentador pensar que podia chegar aos 100?
BA –
Não ficou nada por fazer. Vivi o meu sonho, fiz tudo o que queria. Quando comecei em pequenino a treinar com o meu pai nunca pensei em chegar onde cheguei. Tive muita ambição e muito sacrifício desde miúdo. Estou muito feliz pelos 96 jogos na seleção, pelos campeonatos onde estive e pelas amizades que fiz. Não tenho nenhuma mágoa, sinto que a porta da seleção estará sempre aberta para mim.

MF – A final do Euro2016, em Paris, é o momento perfeito da sua carreira internacional?
BA –
Esse Europeu foi uma experiência fantástica para mim. Quando jogamos sempre, se calhar estamos focados no nosso treino, na nossa parte. Como fui pouco utilizado, acabei por me preocupar muito com o ambiente no balneário, em ajudar os mais novos, em motivar. Fui titular contra o País de Gales, ganhámos bem e depois… chegou a noite mágica. Um jogo dificílimo, em casa do adversário, a lesão do Cristiano, a entrada do Eder.

MF – Estava ao lado do Eder no banco. Teve alguma conversa especial antes dele entrar?
BA –
Essa é a beleza do futebol. Ele era na altura o jogador mais contestado, o menos apreciado pelos adeptos, e fez aquilo. Tudo pode acontecer, tudo pode mudar de repente. Fico feliz por ter vivido essa história e por ter sido o Eder a marcar. No banco falámos muito, ele estava cheio de vontade de entrar, lembro-me disso.

MF – Três anos depois, consegue perceber a real dimensão dessa noite histórica?
BA –
Esses momentos passam tão depressa, vivemos a uma velocidade tão grande, não é fácil saborear tudo. Não é fácil analisar com discernimento tudo o que fizemos. Passámos por grandes dificuldades nesse Europeu, fomos empatando jogos e avançando na competição, criámos um espírito raro. Foi fantástico para todos e merecido porque Portugal já tinha ameaçado no Euro2004 e no Euro2012. Somos um país pequeno com equipas fantásticas de futebol.

Bruno Alves recebeu a visita do pai, Washington, durante a entrevista

MF – Foi chamado à Seleção Nacional pela última vez no Mundial da Rússia. Depois disso teve alguma conversa com o selecionador, ele explicou-lhe as suas opções?
BA –
Não houve nenhuma conversa. Sempre tive uma excelente relação com o Fernando Santos. Ele foi meu treinador no AEK quando eu era muito novo e na seleção a ligação foi fantástica, mesmo nas fases em que eu joguei menos vezes. Temos de deixar as coisas acontecerem naturalmente. Se o Fernando Santos achou que o meu tempo na seleção acabou, então tenho de aceitar. Encaro isso como uma sequência natural. Tenho 37 anos. Se ele precisar de mim, estou aí, disponível. E sem mágoa.

MF – Os três centrais convocados para a Liga das Nações são o Pepe, o Fonte e o Rúben Dias. Pode falar-nos sobre cada um deles?
BA –
O Pepe dispensa apresentações. É um grande amigo, um grande jogador e um dos melhores centrais do mundo. Pelas qualidades técnicas e pelo perfil de liderança. Foi um dos melhores no Euro2016, foi essencial, jogou a um nível altíssimo. E continua muito bem. Começámos juntos no FC Porto e continuámos juntos na seleção.
O José Fonte foi outro amigo que o futebol me deu, mais tarde. Não o conhecia até ele chegar à seleção. É uma pessoa honesta, de grande caráter, um batalhador. Muito sério. Temos uma amizade especial, temos o mesmo padrão de treino e de alimentação, trocámos mensagens sobre isso.
Em relação ao Rúben, é um defesa com grande talento e tem um futuro bonito à espera. É um rapaz determinado, gosta de trabalhar. Vai ser um grande defesa.   

MF – Na Seleção trabalhou com Scolari, Paulo Bento, Carlos Queiroz e Fernando Santos. Fale-nos um pouco sobre cada um deles.
BA –
Bem, o Scolari lançou-me na seleção. Acreditava muito em mim, era brasileiro como o meu pai e houve essa empatia. Foi importante trabalhar com ele. Também gostei de trabalhar com o Paulo Bento, pela frontalidade que sempre teve comigo. O Carlos Queiroz é muito educado e tem uma visão interessante do futebol. O Fernando Santos era um velho conhecido e teve uma importância fundamental no Europeu. O melhor? São todos diferentes. O melhor é quem vence mais vezes, mas dei-me bem com todos eles.