Bruno Lamas tem sido um dos destaques do surpreendente Santa Clara. O médio já fez 28 jogos, tendo apontado três golos e realizado cinco assistências. As estatísticas dizem, de resto, que ganha 3,5 duelos por jogo, que tem uma percentagem de acerto no passe de 77 por cento, que remata mais de uma vez por jogo e que tem sucesso em 74 por cento dos dribles feitos.

Ora na semana em que o Santa Clara visita Alvalade, o Maisfutebol esteve à conversa com o jogador de 24 anos. Falou-se da formação em grandes clubes do Brasil como o São Paulo, o Santos e o Cruzeiro, falou-se da chamada à seleção brasileira aos 15 anos e falou-se das aventuras ao lado de Paulo Henrique Ganso e Neymar. Venha daí por esta conversa.

Na formação passou por grandes clubes brasileiros. Imaginava que nesta altura estaria num nível mais elevado do que o Santa Clara?
Como qualquer criança quando se começa, sobretudo numa equipa grande, parece que tudo vai ser fácil. Joga-se com equipas mais pequenas e ganhamos sempre de goleada. Por isso acabamos por construir um estatuto na formação que não tem correspondência quando se chega a sénior. Na formação, por mérito meu, ganhei muita moral. Criei nome, com títulos e exibições boas. Por isso esperava dar um salto grande logo muito jovem, mas a verdade é que não aconteceu.

O que faltou?
Acho que faltou sobretudo uma oportunidade. Nunca tive oportunidade de jogar na equipa principal, nem do Santos nem do Cruzeiro. Mas as coisas acontecem de forma natural. Estou a crescer a cada ano que passa e espero chegar cada vez mais longe na minha carreira.

Depois de passar quatro anos no Leixões, não acha que a primeira divisão demorou muito tempo a olhar para si?
Acho que o tempo que passei no Leixões fez-me crescer em algumas coisas que precisava de melhorar. Todos os anos pensava dar o salto para a Liga, não foi possível antes, mas a verdade é que todos os anos acrescentava coisas novas ao meu jogo. As coisas têm o seu tempo e acho que aconteceu na hora certa. Estou feliz por ter chegado a este patamar e espero continuar a crescer.

Foi chamado à seleção brasileira muito novo...
Essa convocatória para a seleção brasileira, quando tinha 15 anos, foi muito boa para mim. Naquela altura não estava à espera. Tinha sido campeão da Copa Nike, que é uma espécie de Mundial de clubes sub-15, mas tinha-me lesionado pouco antes e estive parado, fazendo o primeiro jogo pouco antes de sair a convocatória.

Como aconteceu a convocatória?
Eu lembro-me que estava de folga, em casa de um amigo, quando o meu pai me ligou a dizer que tinha sido chamado à seleção brasileira. Eu pensei que ele estava a brincar. Não, pai, para de brincar com isso. Então ele disse-me para ir para casa e para confirmar. Nessa altura percebi que era verdade e depois toda a gente me deu os parabéns.

Nessa altura construiu muitos sonhos?
Quando se está na seleção, começa-se a ver o futuro. Pensamos que podemos chegar muito longe. Por isso é uma coisa que toda a gente sonha, porque é uma garantia de que temos talento.

Mas a verdade é que nunca mais voltou a acontecer...
Infelizmente só fiz dois treinos, porque ainda estava a recuperar da lesão. O meu pai até me disse para não ir naquela altura, que mais tarde acabaria por ser chamado novamente. Mas eu não aguentei não ir. Quando se é chamado à seleção brasileira, parece que se sente uma força de dentro que nos obriga a ir. Então eu fui e não foi a melhor decisão. Devia primeiro ter terminado o tratamento e esperar outra oportunidade. Enfim, a vida é feita de escolhas, foi a escolha que fiz naquela época e agora só tenho é de olhar em frente.

 

O que se lembra da sua chegada ao São Paulo com 12 anos?
A minha chegada ao São Paulo foi muito boa. Quando entrei no Centro de Treinos, vi aquela estrutura, vi as pessoas que estavam lá para nos ajudar, vi que cada jogador tinha um quarto individual só para ele, enfim, parecia que estava num hotel de luxo. Acabei por criar uma família ali dentro, fiz amigos com que ainda hoje falo.

Ajudou a superar a separação da família?
Isso também me surpreendeu. Nunca tinha saído de casa, nunca me tinha afastado dos meus pais, pensei que fosse sentir muito a ausência deles, mas a verdade é as amizades que fiz tornaram as coisas muito fáceis. O clube fazia tudo para que nos sentíssemos bem, até mesmo no alojamento, por isso foi uma experiência ótima. Cresci muito ali dentro.

No Santos jogou com Victor Andrade e os dois eram considerados os sucessores de Neymar e Ganso. Foi uma pressão muito grande?
Sim, jogámos juntos no Santos. É uma coisa natural no clube, sempre que sai um craque, o pessoal começa logo a comparar com um jogador parecido de uma equipa mais nova. O Santos sempre teve essa ligação entre um médio e um atacante, primeiro foi o Diego e Robinho, depois o Ganso e o Neymar e mais tarde fui eu e o Victor Andrade, comparavam-nos muito com o Ganso e o Neymar. Sentíamo-nos bem, entendíamo-nos e quase que deu certo. Por pouco não jogávamos na equipa principal. Não aconteceu, mas aprendi e fiquei mais forte com isso.

Chegou a treinar com os próprios Neymar e Ganso. Como foi essa experiência?
Sim, treinar com o Neymar e o Ganso foi das melhores coisas que me aconteceu na passagem para sénior. Sempre que ia treinar com o plantel principal olhava com muita atenção para o que eles dois faziam, sobretudo para o Ganso, que joga na minha posição e tem características parecidas com as minhas. Também prestava atenção ao Neymar, claro, porque não tem como não prestar, ele até nos treinos fazia magia.

O Ganso era um ídolo para si, não é?
Sim, o Ganso era um ídolo. Nós olhávamos para ele e não percebíamos como ele encontrava certos espaços. Por isso queria muito ver as coisas que ele fazia e tentar perceber como as fazia.

Chegou a jogar com eles?
Ainda joguei um amigável, sim. Foi um jogo em que o Ganso não estava, mas o Neymar estava e proporcionou-me uma aprendizagem muito boa. Jogar com os melhores é mais fácil.

Que episódios recorda desses tempos com esses dois monstros do futebol brasileiro?
Uma vez, quando estava nos juniores, fomos jogar contra a equipa principal. Durante o jogo, o Geuvânio lesionou-se e o Muricy Ramalho virou-se para mim: Entra lá, menino. Fui jogar pela equipa principal, ao lado do Neymar, do Arouca e desses jogadores todos. Senti-me tão bem que parecia que fazia parte da equipa. O Neymar batia os cantos e até me disse para começar a bater eu. Brincámos e demo-nos bem dentro de campo. Foi uma memória de companheirismo que ficou. Não voltou a acontecer, mas talvez no futuro joguemos outra vez juntos...

Qual foi o melhor jogador com quem jogou?
O melhor jogador foram esses dois: Neymar e Ganso. Para além disso, e falando das camadas de formação, tenho de mencionar o Piazon [Chievo Verona], o Ademilson [Gamba Osaka] e o Emerson Palmieri, que hoje está no Chelsea. Todos eles tinham muita qualidade naquela altura e acabaram por ter algum destaque.

Tem algum ídolo?
Tenho alguns ídolos. Gosto muito do Messi, como gostava do Ronaldinho Gaúcho, do Totti, do Zidane. Também gosto muito do Paulo Henrique Ganso, com quem aprendi muitas coisas quando estava no Santos. São jogadores que tenho na minha mente e que tento imitar, para fazer as coisas que eles faziam.

E, já agora, quem é o jogador que mais dificuldades que lhe criou?
Acho que foi o Felipe, do FC Porto. É um jogador muito agressivo e que não deixa o adversário respirar. Até tenho uma cicatriz nas costas que foi feita por ele. Aconteceu quando estava no Leixões, no primeiro jogo que fiz contra o FC Porto, empatámos 0-0 e ele acabou por me pisar nas costas. É um jogador muito agressivo e é muito difícil passar por ele.

É verdade que chegou a estar perto do Sp. Braga?
É verdade. Naquela altura estava em final de contrato com o Santos, acabei por não renovar e surgiu a possibilidade de assinar pelo Sp. Braga, para jogar no Sp. Braga B. Esperei algum tempo, mas depois precisava de definir a minha vida, não podia manter as coisas em suspenso, por isso assinei por três anos com o Cruzeiro. Cheguei a ir a Braga, conhecer as pessoas e as instalações, mas a proposta depois nunca mais aparecia e assinei pelo Cruzeiro.

 

Tem-se falado com insistência de uma saída para o estrangeiro, acha que este pode ser o ano do seu salto para um nível melhor?
Sinceramente não soube de nada. Esse tipo de coisas deixo para o meu empresário Flávio Campos. Eu só quero jogar futebol e manter a cabeça no lugar, para trabalhar bem. Depois as coisas acontecem.

O que sabe do interesse de clubes espanhóis e franceses?
Vai falar-se disso em todos os mercados, vai haver sempre essas notícias. Tenho feito todos os jogos, tenho realizado boas exibições, tenho marcado golos, tenho feito assistências, a partir daqui que seja o que Deus quiser. Nesta altura só tenho de pensar no Santa Clara e em ajudar a equipa a chegar cada vez mais alto na classificação. Se fico no Santa Clara, se saio para um clube maior, se vou para o estrangeiro, deixo com o meu empresário. Ele está a falar com os interessados, por isso só tenho de me concentrar em fazer o que mais amo e em fazê-lo bem.

Vem aí o jogo com o Sporting, que não tem estado muito seguro, sente que é uma boa altura para fazer este jogo?
O Sporting não tem estado tão bem, mas tem jogadores com muita qualidade. É uma equipa muito forte e nunca se sabe como vai estar naquele dia. As equipas grandes são sempre difíceis. Mas o Santa Clara está forte e quer ir a Alvalade somar os três pontos. Se não for possível, pelo menos queremos o empate, para mantermos a nossa caminhada tranquila.

O Santa Clara nunca venceu em Alvalade, será desta vez?
Estamos a trabalhar muito forte todos os dias, todos os treinos. Acho que a equipa está bem e vamos tentar quebrar esse tabu, conseguindo a primeira vitória do Santa Clara em Alvalade. Vamos tentar fazer o melhor e depois esperar o que o jogo nos reserva.

O Santa Clara vem de quatro jogos sem perder. Esta é a melhor fase da temporada?
Estamos numa fase boa, sem dúvida. Na primeira volta somámos três vitórias seguidas e chegámos ao sexto lugar, essa foi a melhor fase da equipa. Mas esta fase atual também é muito boa e esperamos manter este bom registo no fim do jogo em Alvalade.

Já agora, os números são bons, mas como sente que está a correr a estreia na Liga?
Está a ser boa. Nas primeiras jornadas houve aquela ansiedade normal de querer mostrar muitas coisas, por estar em grandes palcos, mas depois passou a ser normal. Está a ser uma época muito boa, tenho feito todos os jogos e tenho conseguido boas exibições. Espero continuar assim.