Começou a época passada no banco do Boavista, terminou-a no Moreirense e com um oitavo lugar no final da Liga, mas não continuou no cargo. Apesar de ter mais um ano de contrato, Vasco Seabra explica a saída com um fim de ciclo justificado pela diferença de perspetivas com a direção dos minhotos.

Do adeus ao Bessa confessa guardar alguma mágoa, pela forma como não foi possível apresentar resultados numa época de mudança.

«Não podemos trocar 15, 16 ou 17 jogadores e com um estalar de dedos as coisas acontecem», recorda, sobre um plantel em que contou com um «jogador estratosférico» como Angel Gomes.

Por falar em talentos, Vasco salienta também o valor de Filipe Soares e Abdu Conté, dois internacionais sub-21 portugueses que deram nas vistas em Moreira de Cónegos e que estão a ser cobiçados pelo mercado, e recorda o despontar de Diogo Jota nos juniores do Paços.

Tudo numa longa conversa no Maisfutebol, numa tarde de calor no Parque Urbano de Paços de Ferreira, sempre com entusiasmo cativante a falar de futebol e um sorriso fácil, a perspetivar o futuro que tem pela frente.

Parte I: «Esperava um casamento feliz com o Boavista, custou-me sair tão cedo» 

Parte II: «Para o Diogo Jota cada exercício no treino é como a final da Liga dos Campeões»

MAISFUTEBOL – Neste período sem treinar, como é que mata saudades do futebol?

VASCO SEABRA – A ver futebol. Acompanhei o Campeonato da Europa. Vejo jogos de outros países também. Tivemos uma reunião da equipa técnica em que estivemos reunidos três dias. No final de julho vamos voltar a juntar-nos outra vez para debater o que temos vindo a fazer de bem, o que podemos melhorar.

Como é que esse método se processa?

Da última vez, foi perto de Lisboa. Cada um vê os seus jogos, analisa, faz cortes de alguns lances específicos, trocamos ideias. Se estou de fora, não posso ir para a praia todos os dias. É claro que fiz uma semana de férias com a minha mulher. Faço a minha vida aqui por Paços de Ferreira. Tenho ido à loja de desporto dos meus pais e isso também me ocupa o tempo. Vejo documentários, leio livros.

O que anda a ler e a ver?

Ando a ler três livros: «Subliminar», «Força do Hábito» e «Onze Anéis». Gosto de ler vários ao mesmo tempo, não por falta de compromisso, mas gosto de variar. O último documentário que vi foi o «Coaches», na Netflix. Na verdade, revi. Já tinha visto e comentado com o Javi Garcia, quando estava no Boavista, que também andava a ver. É um documentário que tem, entre outros treinadores, o José Mourinho. São histórias fascinantes e que nos fazem abrir a mente. Dou por mim a ver aquilo e a pensar: «Não é descabido ir por aqui…»

Aproveita esta paragem para avaliar a sua evolução enquanto técnico, portanto.

Comecei como treinador em 2004. Já são 17 anos e nunca estive um ano inteiro sem treinar. Comecei na formação com o Rui Quinta, que me abriu as portas e me ajudou muito no início. Depois fui adjunto na III Divisão, treinador principal na Distrital, voltei à formação do Paços de Ferreira, estive na I Liga, a seguir voltei a uma equipa de sub-23, seguiu-se a II Liga e voltei à I Liga. A carreira já teve altos e baixos e essas experiências todas foram importantes para percebermos a nossa evolução.

Disse há pouco que acompanhou o Europeu. Que seleção mais lhe agradou?

É ingrato dizermos que gostamos do campeão, mas de facto gostei da Itália desde o início. Pela forma de jogar, pela paixão deles como equipa. Lembro-me de os ver em alguns jogos a defenderem completamente em baixo, outros bem em cima, outros a assumirem a bola como se não houvesse amanhã, outras vezes com o adversário a pressioná-los em cima e eles saírem de forma direta, a mobilidade dos jogadores para procurarem espaços… Foi a equipa de que mais gostei.

Onde é que se imagina daqui a 10 anos?

Dantes visualizava as coisas mais longe. Dizia que tinha o sonho de um dia ouvir o hino da Liga dos Campeões e continuo a tê-lo. Esse é um propósito maior. Quero crescer enquanto treinador, talvez ter experiências lá fora, noutras ligas. Há muitos campeonatos atrativos. Aliás, por essa via, até é possível ser mais fácil vir a ouvir o hino da Liga dos Campeões.

Sérgio Pires