Vinte e um anos depois, Pinto da Costa voltou a dar uma entrevista à TVI, na qual abordou desde os temas desportivos aos políticos, mas também o seu futuro e o futuro do FC Porto. O líder portista falou ainda do impacto que a pandemia está a ter no clube, desvendou a atitude que vai assumir no que se refere à sua sucessão e clarificou a forma como quer deixar o clube quando sair.

Sempre sem medo das palavras, como habituou toda a gente em mais de quatro décadas de dirigismo desportivo, o presidente do clube azul e branco não deixou de falar ainda da rivalidade com o Benfica, assumiu a impossibilidade de se relacionar com o presidente das águias, Luís Filipe Vieira, ainda que não confunda as relações pessoais dos dois presidentes com as relações institucionais que garante existirem, sobretudo, para defender o futebol.

Como fizeram, aliás, muito recentemente, quando se debateu o regresso da competição após o confinamento.

Uma coisa é as pessoas não se darem, outra são os interesses do futebol. Estive com o presidente do Benfica, com o do Sporting, da Federação e da Liga a reunir com o Governo ainda há bem pouco tempo", começou por dizer quando questionado sobre a relação com Luís Filipe Vieira.

"Nas reuniões de presidentes, tratamos dos assuntos que temos de resolver, como falo com qualquer outro presidente. Falamos cara a cara", acrescentou, antes de sublinhar que isso é diferente de ter uma relação pessoal com o presidente do Benfica. Algo que, garante, nunca terá.

Não tenho relações com ele em nada que não tenha que ver com o futebol. Entre as pessoas não tem de haver relação, mas os clubes têm relações e tratam de coisas em conjunto. Pinto da Costa e Luís Filipe Vieira é que não se dão. Nem nunca irão dar. É assunto fechado", resumiu.

As eleições do Benfica também foram um tema abordado, ainda que de forma superficial, com Pinto da Costa a defender que "parece que foi o Luís Filipe Vieira que escolheu os candidatos".

Já mais sério foi o tom utilizado pelo dirigente portista sobre o nome de António Costa na lista de honra do atual presidente do clube benfiquista, algo que defende ser inconcebível.

Não me fez confusão o cidadão António Costa estar nessa lista, mas sim o primeiro-ministro António Costa. Mas os dois não são dissociáveis. Isso teve impacto porque se tratava do primeiro-ministro. Ele tem direito a ser sócio do Benfica e acionista da SAD, ninguém tem nada com isso. Mas choca-me ver um responsável nacional a apoiar alguém que deve milhões a um banco que está a ir todos os dias ao bolso dos portugueses", defendeu.

Pinto da Costa explicou ainda como acontece no FC Porto, que tem uma política clara: "Um executivo do FC Porto não pode estar na política".

De resto, assegura que não é habitual ver políticos na tribuna presidencial do Estádio do Dragão, com uma ou outra exceção.

O FC Porto nunca teve políticos na tribuna presidencial. A não ser uma ou outra vez, quando o Presidente da República ou outro responsável nos pedem para vir cá. De resto, quem vem cá não é como político, mas como meu amigo. É o caso do ministro do Ambiente [João Pedro Matos Fernandes], que é filho do nosso presidente da assembleia-geral e que vem cá. Ia dizer ao nosso presidente que o filho não podia vir cá?", questionou.

Ainda sobre esse tema, Pinto da Costa abordou o facto de haver vários presidentes de Câmara no Conselho Superior do clube, defendendo que são casos distintos.

Para mim um presidente da Câmara não é político. Ser titular de um cargo público sem estar vinculado a um partido, não é ser político, na minha opinião. E esse é o caso do Rui Moreira, que foi eleito presidente da Câmara do Porto como independente. Por isso, ter o privilégio de ter num órgão consultivo essas pessoas é algo que me orgulha muito", explicou.

 

Pinto da Costa não poupou nas críticas ao Presidente da República, acusando-o de ser obstáculo à regionalização. "Onde é que esbarra tudo? Porque o senhor Presidente da República é contra a regionalização", atirou.

Temos de esperar que ele vá embora para haver regionalização", concluiu, referindo-se ainda a Marcelo Rebelo de Sousa.

O legado da cidade desportiva e o último mandato

Pinto da Costa olhou também para o futuro, dele e do clube, não deixando de fazer um balanço do que tem sido uma presidência anormalmente longa como a que protagoniza nos dragões há 38 anos.

Às vezes dizem-me que eu já fiz tudo neste clube: um estádio, um pavilhão, um museu. Mas eu não fiz nada, quem fez foi o FC Porto. Eu tive o prazer e honra de liderar o FC Porto durante esse período", começou por dizer.

Mas com tanta obra feita, o que gostava Pinto da Costa de fazer antes de deixar a presidência do clube?

Gostava de fazer ainda a cidade desportiva, que já temos no pensamento e que já está na ação, não apenas no pensamento", atirou, antes de deixar um outro desejo: "Quero que o FC Porto esteja sólido e unido quando eu sair do clube".

Sobre uma possível recandidatura no final do atual mandato, o homem que lidera o clube há quase quatro décadas não deixou certezas absolutas.

É a velha questão: nunca digas nunca. Para mim mesmo, e até publicamente, já disse que era o último mandato. Mas depois, por circunstâncias diversas, não saí. Não vou dizer que este é o último [mandato], nem que não é. Tenho de chegar ao fim do mandato e perceber se sou ou não sou necessário", declarou.

Sem acreditar que o desporto receba uma "bazuca financeira" - "para nós nunca chega nada" -, Pinto da Costa falou sobre a falência técnica do FC Porto e declarou acreditar que ainda este ano essa situação será resolvida.

É evidente que a falência técnica existe porque temos de apresentar as contas que respondem a diversos critérios. Mas estou convencido de que brevemente sairemos do [incumprimento do] fair-play financeiro. Este ano ainda. Aquilo que vendemos no final da época dava para cobrir essas contas se a época tivesse sido normal e tivesse acabado em junho. Porque as vendas já entrariam no cenário das últimas contas apresentadas", apontou.

Apesar de acreditar que a situação será resolvida em breve, o dirigente portista assumiu sentir-se responsável pela situação, da mesma forma que se sente responsável por tudo na vida do clube.

Eu sinto responsabilidade pessoal por tudo o que acontece no FC Porto. Mas estou seguro de que esta situação não se vai prolongar no futuro", sublinha.

Nesse sentido, o responsável pelos Dragões justificou ainda a opção tomada pela direção no final da temporada 2018-2019 – depois de a equipa não ter conseguido entrar na Liga dos Campeões – de não vender jogadores, abdicando da receita que daí poderia advir, para atacar a conquista do título nacional, que o FC Porto acabou por alcançar na última época.

Quando não se consegue entrar na Champions, que é algo que pode acontecer a qualquer clube, como aconteceu este ano ao nosso rival, as opções são duas: ou se aguenta o prejuízo, ou se fazem vendas. E nós decidimos não vender na época passada. Aguentámos o prejuízo, valorizámos o plantel para tentar conquistar o título e acabámos até por fazer a dobradinha", enaltece.

A venda de Alex Telles e o caso de Lucas Veríssimo

Este ano, contudo, as coisas foram diferentes e o FC Porto viu-se ‘obrigado’ a vender alguns dos melhores jogadores, algo que Pinto da Costa declara nunca gostar de fazer. Mesmo quando o clube encaixa somas avultadas com a venda dos ativos.

O caso de Alex Telles, vendido ao Manchester United perto do fecho do mercado, foi um desses casos.

Eu nunca fico satisfeito quando sai um bom jogador. Nunca. Uma grande venda que fizemos e que fiquei desgostosíssimo foi o Hulk. E foi um grande negócio. Mas nunca gosto. Só que há momentos em que não temos outra opção", disse, antes de explicar o caso do lateral brasileiro que deixou o clube neste verão.

Uma semana ou duas antes [da venda], a irmã, que é empresária dele, mostrou-nos a vontade dele sair. E depois ele veio aqui dizer que queria sair e ir para o Manchester United. Para quê manter um jogador que assume publicamente, e perante mim e outros diretores, que quer ir embora? Nesse caso, ele já não está aqui e nós não temos outra opção", nota.

O dirigente, de 82 anos, fez ainda a distinção do que é um bom e um mau empresário, antes de dar o exemplo da venda de Fábio Silva para o Wolverhampton.

Um bom empresário é importante para o futebol. Um mau, é negativo para o futebol, para os clubes e até para os jogadores. Porque há empresários que querem ganhar tanto como os jogadores", contextualizou.

O Fábio Silva [vendido por 40 milhões de euros] foi um bom negócio para os empresários e para o FC Porto. O clube ganhou 30 milhões, porque a cláusula dele era de dez, e foi bom para todos. E aí o empresário foi importante", disse.

Lucas Veríssimo foi outro dos temas abordados pelo presidente portista. Pinto da Costa assumiu que o defesa-central brasileiro que foi apontado ao Benfica e ao FC Porto chegou a ser uma possibilidade, mas que o clube não o quis porque a opção do treinador recaiu noutro jogador.

"Esse jogador [Lucas Veríssimo] não veio para o FC Porto porque o FC Porto não quis. Ele foi uma opção das que ficaram para o final, mas o treinador quis ficar com o Pepe, o Mbemba, o Diogo Leite e Sarr [emprestado pelo Chelsea]. O Lucas chegou a estar em cima da mesa, e se quiséssemos era nosso. Mas não quisemos. Se vai para o Benfica? Para mim é indiferente se ele vai para o Benfica ou não. O treinador reconheceu que era bom jogador, mas preferiu este [Sarr]", resumiu.

Como não podia deixar de ser, também a pandemia foi tema na entrevista à TVI, com o dirigente a voltar a criticar a falta de público nos estádios, lembrando que outros setores já abriram portas.

Mas tem alguma lógica um espaço ao ar livre como este [a entrevista aconteceu no Estádio do Dragão] estar vazio, quando vemos salas fechadas com público?", questionou, antes de fazer contas ao prejuízo que as portas fechadas têm dado ao clube.

O custo vai em 29 milhões de euros. Esse é o custo de não termos receita [de bilheteira]. A alguns clubes, se calhar dá mais jeito que os adeptos não estejam lá porque vão ao estádio para insultar. Se houver adeptos que vão ao estádio para insultar o presidente ou o treinador, é preferível ter o estádio vazio", atirou, não confirmando se se referia ao Sporting: "O senhor [jornalista] é que disse o nome de um clube, não fui eu".

Acho que é incompreensível ter os estádios fechados. Temos camarotes de família no estádio. Eles não podem vir cá, mas podem ficar em casa juntos ou ir ao cinema", aponta.

E aí, o nome do primeiro-ministro voltou a ser tema, com Pinto da Costa a separar as águas.

Há a ideia de que critico António Costa, mas não critico. Quando falo do primeiro-ministro, não falo dele globalmente. Eu tenho a maior cordialidade com ele, temos sempre uma conversa afável e simpática. Em termos governamentais, não tenho de estar de acordo com tudo. No que é a política no futebol discordo totalmente", esclareceu.

Na opinião do dirigente, tendo em conta o atual cenário, Portugal devia ter uma política semelhante à de outros países europeus. 

Em impostos, o FC Porto pagou quase 20 milhões desde que começou a pandemia. Em Itália baixaram mais de 30 por cento os impostos do futebol. O FC Porto tem 572 funcionários que vivem do salário que recebem do FC Porto", apontou.

Alexandre Pinto da Costa "não faz negócios com o FC Porto nem pode fazer"

Nessas contas, quem não entra, garante o presidente, é o seu filho Alexandre Pinto da Costa.

O meu filho foi dirigente do FC Porto há muitos anos. Pediu a demissão porque quem está no ativo não podia estar na política e ele aceitou convite para fazer parte de uma lista e foi eleito como vereador da CM Porto. Hoje não tem ligação nenhuma a não ser a de associado há 52 anos, que foi inscrito no dia em que nasceu. A minha neta é sócia com 14 minutos de vida. Hoje exerce a atividade como empresário. Não faz negócios com o FC Porto porque nem sequer pode fazer. Pode fazer com os outros clubes", esclareceu.

Antes de projetar o futuro do FC Porto sem ele na presidência, Pinto da Costa falou ainda sobre dois casos de justiça distintos: o Apito Dourado e Rui Pinto.

Quanto ao primeiro, o dirigente nega que essa possa ser uma mancha negra no seu historial à frente dos destinos do clube.

Uma suspeita é uma mancha negra? Então toda a gente está com uma mancha negra porque em Portugal suspeita-se de toda a gente. Não penso nisso agora, nem pensei na altura. Quando ouvi as acusações, fiquei totalmente tranquilo. Fui ilibado em todos os processos e fiz sempre a minha vida normal. A mim nunca me preocupou", assegura.

Já sobre Rui Pinto, o dirigente diz que não é a ele que lhe compete dizer se estamos perante um herói ou um criminoso.

Não tenho opinião. É um processo ao qual não liguei. Há uma coisa que não percebo, por isso não vou estar a dizer se é herói ou criminoso porque não sei. Há pessoas com responsabilidades no país, e que até querem ter mais, que o consideram um herói. Porque deu a conhecer processos que nunca se conheceriam se não fosse ele", disse.

Quanto ao futuro do clube, Pinto da Costa diz que, no dia em que deixar o FC Porto, não vai interferir com a liderança do clube. E, por isso, recusa apontar possíveis sucessores.

"Gostava que fosse alguém que sentisse e vivesse o FC Porto e que trabalhasse para o clube. Não quero interferir na vida dos outros clubes e o Villas-Boas é treinador do Marselha, contra quem vamos jogar", afirmou, garantindo que não tem qualquer obrigação de decidir pelos sócios.

O FC Porto não é uma monarquia. Se isto fosse uma monarquia, teria de preparar o meu filho, que seria o meu sucessor. Quem tem de escolher são os sócios. Isto não é meu, é dos sócios. Sou presidente há 38 anos porque os sócios quiseram. Nunca vou dar opinião nem apoiar ninguém. Quem vier tem de ser escolhido pelos sócios e fazer o seu caminho. No dia em que sair, quero que o presidente que me suceder tenha a mesma paixão pelo FC Porto que eu tenho. Depois, quero vir ao futebol sem interferir em nada para o meu sucessor poder traçar o caminho que quiser, com as pessoas que quiser. Quero ser apenas adepto", assegura.

Quando sair da presidência, Pinto da Costa diz que vai orgulhar-se das memórias que leva.

"Vou guardar dos sócios a melhor recordação, porque sempre me apoiaram, todos", garante.

E voltou a reforçar que não quer que o seu nome seja dado ao Estádio do Dragão, revelando que pretende vender o naming do estádio ainda durante o atual mandato.

Não gostava que o estádio tivesse o meu nome. Por isso é que gostava de o deixar já com o nome vendido. Também porque o dinheiro dava jeito, claro. Mas se estiver vendido, os que defendem isso não têm essa possibilidade. Isso é questão que não existe", defende, revelando que se não fosse a pandemia, a venda até já podia ser uma realidade.

"Estávamos a fechar um contrato de cinco milhões por ano. Estávamos entre cinco e seis milhões, mas a negociação foi suspensa por causa da pandemia. E uma das coisas que me deixava satisfeito é que tinha conseguido manter o nome ‘Dragão’, juntamente com o da marca", finalizou.

Redação