Bruno Fernandes tem nome de craque e era-o, efetivamente, no seu tempo. Para os mais esquecidos, fez parte do plantel campeão da Taça UEFA pelo FC Porto em 2002/03 e ainda hoje é considerado uma lenda viva do Marítimo, apesar da passagem pelo rival Nacional. Em fim de semana de dérbi madeirense, o Maisfutebol foi conversar com o ex-jogador.

Começou a carreira muito cedo e pendurou as chuteiras muito tarde. Aos 42 anos disse adeus aos relvados, depois de um percurso recheado de jogos, alguns títulos e muitos anos na primeira divisão portuguesa.

Iniciou a formação no «clube do coração», o Marítimo e, na altura, ainda fugiu para os rivais do União da Madeira, mas os verde-rubros não descansaram até tê-lo de volta. Regressou ao clube nos juvenis de segunda época e seguiram-se mais de dez anos de ligação ao emblema maritimista com passagens pelo Machico e pela Camacha no início da carreira profissional.

Desde cedo os leões da Madeira perceberam o que tinham e não mais o largaram, senão para o FC Porto de José Mourinho em 2002/03, já com quase 30 anos.

Madeirense e maritimista desde infância, Bruno, mais conhecido como o «cabeças», não consegue escolher um momento que o tivesse marcado mais ao serviço dos verde-rubros, mas destaca as idas à Europa e a transferência para o FC Porto.

«Entre muitas situações não é fácil escolher os melhores momentos e os piores, mas naturalmente que entre os melhores estão as muitas idas à Europa pelo Marítimo e depois a transferência para o FC Porto que, apesar de ter sido já com quase 30 anos, não deixou de ser um ponto de viragem na minha vida», recordou o antigo médio, agora com 44 anos.

Dono de uma qualidade técnica impressionante, Bruno brilhou ao serviço dos insulares e José Mourinho foi um dos muitos que não ficou indiferente às características do jogador.

O Maisfutebol quis saber como é que o ex-jogador encarava os dérbis madeirenses… das duas perspetivas. Para quem não sabe, Bruno não só defendeu a camisola verde-rubra, como também brilhou ao serviço dos alvi-negros. Traição? O jogador prefere falar em profissionalismo.

«Eu não fazia distinções de clubes. Naturalmente que existe uma euforia e um clima diferente de outros jogos quando há estes dérbis, mas eu pessoalmente tentava abstrair-me e tentava dar o meu melhor em prol da equipa e do grupo de trabalho. Tive o prazer de ter ganhado muitos dérbis e de ter marcado golos importantes para dar vitórias. Acho que é um ambiente fantástico e todos os jogadores devem tirar proveito porque quando acabarem as suas carreiras não vão voltar a ter este prazer e espero que o façam com paixão», explicou o antigo capitão do Marítimo.

«Aceitar jogar no Nacional foi uma decisão muito difícil»

No início da época de 2004/05, Bruno regressou à Madeira, desta vez para uma casa que lhe era desconhecida. Uma casa em que, em tempos, não seria tão bem-recebido. O rival desde pequeno. Deu-se inicio a uma aventura no Nacional.

«Uma decisão muito difícil», é assim que Bruno classifica o ingresso nos alvi-negros.

«Eu ia jogar contra o clube do meu coração e isso não é fácil. Houve muitas pessoas que não entenderam essa situação e eu como mantive o meu nível exibicional no Nacional, as pessoas não conseguiram compreender muito bem», continuou.

Como já foi anteriormente referido, o madeirense representou o Marítimo desde pequeno e esta foi uma mudança que os adeptos não perdoaram.

Para quem não está a par desta realidade, a rivalidade entre ambas as equipas é capaz de ser tão forte quanto um Sporting – Benfica. Calma, caros leitores. Não estamos a comparar estas equipas a nível de dimensão, mas a nível de intensidade emocional.

Podem não ter tantos adeptos quanto os grandes, mas a paixão pelos clubes é a mesma. Dérbi é dérbi e as clubites também se fazem sentir de forma muito intensa nestas situações. Querem um exemplo muito ilustrativo? Chega-nos do próprio Bruno e é capaz de impressionar os mais alheios a esta realidade.

«Houve uma situação em que iam agredindo a minha filha a seguir a um jogo Nacional – Marítimo, mas isso são coisas do passado, nem sequer vou falar sobre isso porque é preciso saber lidar com essas situações e às vezes nem sempre temos o melhor raciocínio», contou o jogador ao Maisfutebol.

E para piorar mais as coisas para o lado dos verde-rubros, Bruno chegou a marcar por três vezes em dois jogos que garantiram a vitória do Nacional frente ao Marítimo. Golos que «nem todos perdoaram, mas que conseguiram entender».

«Espero que o estádio esteja cheio e que o Marítimo vença»

Após três épocas, Bruno lá regressou ao ponto de partida. Ao Marítimo. E por lá permaneceu por mais três épocas, tendo-se tornado capitão do clube. Também voltou a marcar nos duelos frente ao Nacional e, por isso, a passagem pelo rival estava esquecida pelos adeptos.

Aos 37 anos deixou o Marítimo e a primeira divisão. O objetivo era acabar a carreira no clube que o viu crescer enquanto homem e enquanto jogador, mas a vida assim não quis.

«Acho que podia ter jogado até aos 40 na primeira divisão, porque sentia-me capaz e era sempre titular, mesmo com 37 anos. Portanto, se eu jogava com essa idade, acho que me sentia apto, mas acabou por não acontecer. Acabei de uma forma que se calhar eu não queria, mas o futebol é assim mesmo», explicou o jogador que, depois, ingressou em mais um clube da região, desta vez, o União da Madeira, seguindo-se depois o futebol distrital com o Bairro da Argentina.

Agora, aos 44 anos, já só treina por prazer e para manter a forma física, mas não esconde o desejo de continuar no mundo do futebol, seja de que maneira for.

«Revejo-me em muitas áreas do futebol e acho que posso estar em muitas áreas porque aprendi muito e lidei com os melhores do mundo. Revejo-me como diretor desportivo, é uma ambição que tenho para o futuro, mas nem sempre o que nós queremos se proporciona», atirou o jogador.

E antes de acabarmos esta conversa, lançamos o desafio ao ex-jogador de tentar adivinhar um resultado para o dérbi deste domingo. Bruno preferiu jogar pelo seguro, mas sabe perfeitamente quem quer que ganhe.

«No futebol, fazer futurologia é complicado. Espero que seja um grande espetáculo de futebol, que o estádio esteja cheio e que no final o vencedor seja o Marítimo», concluiu.

O Marítimo-Nacional, lembre-se, disputa-se este domingo, às 15h (siga AO MINUTO), no Estádio dos Barreiros, com as duas equipas separadas uma da outra por apenas um ponto, sendo que os verde-rubros se encontram dois pontos acima da zona de despromoção e os alvi-negros apenas a um.

Roberta Vieira