No próximo dia 20 de fevereiro, o Olympiakos de Pedro Martins recebe o Arsenal para a Liga Europa. Oportunidade perfeita, pois, para esta entrevista com o treinador português de 49 anos, imbatível há mais de um ano no campeonato helénico.

Na conversa com o Maisfutebol, Pedro Martins diz estar encantado com o projeto encontrado em Atenas, mas assume que olha no futuro para uma experiência na liga que mais o atrai: a inglesa. O Arsenal é, por isso, um bom teste para experimentar os anfiteatros britânicos, depois de ter defrontado o Tottenham na Liga dos Campeões. 

Homem de convicções muito fortes e de determinação rara, Pedro Martins elenca as medidas tomadas na chegada à Grécia, elogia o trio de portugueses do clube - Podence saiu há poucas semanas - e aproveita para garantir que nunca recebeu um convite formal de nenhum dos três grandes de Portugal. 

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Maisfutebol – Está há um ano sem derrotas na liga grega. Que retrato faz do seu Olympiakos?

 

Pedro Martins – Temos de recuar um ano e meio e lembrar o que vim encontrar. O meu início foi difícil. O clube tinha perdido a hegemonia, vinha de uma época negativa [terceiro lugar] e fomos obrigados a fazer muitas mudanças. Entraram 21 novos atletas no plantel. Plantel novo e muita gente jovem. Os primeiros seis meses foram complicados, mas havia qualidade e sabíamos que era uma questão de tempo até começarmos a ganhar regularmente. Depois das mudanças, depois de os atletas aceitarem os meus métodos, depois de mudarmos a mentalidade que se instalara no passado recente, tudo passou a dar frutos. Não conquistámos nada, mas estamos há um ano sem perder para o campeonato e isso é um bom prenúncio. Temos o estádio sempre cheio, boas participações na Liga Europa e na Liga dos Campeões, desenhámos uma realidade muito distinta daquela que encontrámos no início.

MF – Tem estado sempre mais do que uma época em todos os clubes. É um treinador que privilegia a estabilidade dos projetos?

  

PM – Costumo dizer que sou um treinador de clube, um treinador que analisa a estrutura, que procura perceber qual o plano, qual a exigência. Quando me sinto bem e sou acompanhado, não sinto necessidade de mudar. Mas quando esse paradigma muda, sou o primeiro a querer não continuar. Não sou um treinador saltitão, que muda por mudar.

MF – Sente-se confortável nestes desafios de grau de dificuldade elevado.

  

PM – O Olympiakos é muito isso. Os ciclos vitoriosos criam relaxamento. Eu percebi isso quando cheguei e percebi que tinha de acabar rapidamente com essa atmosfera. Desenhei o plantel de uma forma exaustiva. Comecei a ver jogos em maio e a perceber quem podia ou não entrar no grupo. Depois tive outra fase de observação na pré-época. Quem me interessava ou não. Foi um grande desafio. O Olympiakos estava com poucos jogadores gregos e achei importante levar atletas do país para o clube. E depois tivemos de recrutar bem, porque o orçamento era limitado. O Mohamed Camara chegou da segunda liga francesa [Ajaccio], o Podence era um jovem, o Guilherme veio do Deportivo e não lutava por títulos, o Tsimikas estava emprestado na Holanda [Willem II] e está a fazer uma época soberba, o Sá estava sem jogar no FC Porto, muitos, muitos atletas que têm crescido.

MF – O Podence foi recentemente vendido e o Olympiakos fez um bom encaixe.

  

PM – O Daniel era uma referência nossa, compreendo a venda dele. A proposta era boa e havia a necessidade de vender. Foi uma boa oportunidade para todos, não é fácil entrar em Inglaterra. O Podence era importante, mas até acho que a grande época dele aqui foi a anterior. Este ano teve momentos bons, mas foi menos consistente.

MF – Além do Podence, o José Sá e o Rúben Semedo também chegaram à seleção.

  

PM - Lancei o Sá no Marítimo e agora está num nível que eu, muito sinceramente, tinha algumas dúvidas que ele alguma vez atingiria. Grande, grande qualidade, crescimento brutal. Eu tinha a imagem do Sá jovem, inexperiente, só com 19 anos. Está com um nível soberbo e é um dos mais acarinhados pelos adeptos.

MF – O José Sá já é um guarda-redes pronto para ser opção séria na seleção?

  

PM – Sim. Sou sincero: há o Rui Patrício e depois temos o José Sá.

Pedro Martins é adorado nas ruas de Atenas

MF – O Rúben passou por um momento delicado, esteve detido. Quando o conheceu teve algum especial cuidado com ele ou fez por tratá-lo apenas como mais um?

  

PM – Isso está ultrapassado, nem gosto de falar sobre isso. O Rúben vai ser sempre marcado por essa questão. Eu prefiro não recordar esse episódio. Ele já pagou o que tinha a pagar. Desportivamente, posso dizer que está muito bem e vem de dois jogos de grande nível, após uma fase de menor fulgor. Está com um nível fantástico nesta altura.

MF – O próximo adversário na Liga Europa é o Arsenal. Jogar em Inglaterra e logo contra um nome destes torna tudo mais aliciante?

  

PM – São jogos especiais, importantes para o treinador e para os jogadores. É uma forma de promover as carreiras e vão ser dois grandes jogos de futebol. Mostrámos enorme qualidade na Liga dos Campeões e dos seis jogos feitos na fase de grupos só estivemos mal em Munique. Aí, claramente, fomos castigados pelo Bayern. Nos outros cinco disputámos o resultado até ao último segundo. A experiência fez toda a diferença. Em Londres, casa do Tottenham, fizemos uma primeira parte deliciosa e sofremos um golo com um erro individual em cima do intervalo. Isso mudou por completo o jogo. São esses detalhes que fazem a diferença na Champions.

MF – Para chegar à fase de grupos teve de ultrapassar três clubes: Viktoria Plzen, Basaksehir e Krasnodar.

  

PM – Estamos em todas as frentes e começámos muito cedo na Champions. A equipa tem dado respostas muito interessantes. Essas três equipas estão a lutar pelos respetivos títulos nacionais e isso prova o elevado grau de dificuldade dos jogos.

MF – O Basaksehir é o próximo adversário do Sporting na Liga Europa. Que impressão tem dos turcos?

  

PM – É uma equipa sólida, experiente, joga junta há muito tempo. No verão eles mudaram de treinador e estavam na altura ainda à procura da nova identidade, mas pareceu-me uma equipa muito difícil de bater. Estão a lutar pelo título turco e isso diz tudo. É uma equipa de muita qualidade.

MF – Em Portugal dizemos que os adeptos gregos são fanáticos, no mau sentido. Tem sentido algum problema no plano social?

  

PM – Sou muito acarinhado, muito mesmo, e respeitado pelos adversários. Ando normalmente na rua, sem limitações, fui muito bem recebido em Atenas. O problema no campeonato é outro.

MF – A organização?

PM – Sim, tem de dar um passo qualitativo em relação à organização e à qualidade dos relvados, por exemplo. É pior do que em Portugal. Os relvados deixam muito a desejar. São muito fracos. Para quem quer jogar bom futebol é mais um adversário. Adultera o nosso jogo. Em Portugal há melhores relvados na segunda divisão. Essa é a realidade.

MF – Consegue explicar a aposta dos gregos em treinadores portugueses? No seu clube já estiveram o Paulo Bento, o Leonardo Jardim, o Vítor Pereira e o Abel está no PAOK a lutar consigo pelo título.

  

PM – O treinador português é rigoroso e dedicado. Os gregos sentem isso e sabem que nos adaptamos bem. E falta falar no nome mais importante aqui na Grécia: Fernando Santos. É ele o nome que reúne o maior consenso.

MF – E há sempre comparações entre quem chega e quem já lá esteve.

  

PM – Eu passo um pouco à margem disso, mas sei que é inevitável. Foquei-me no meu trabalho, sem pensar muito no que os meus compatriotas fizeram ou fazem. Tenho um trabalho feito em ano e meio e agora os jornalistas já nos podem comparar se quiserem (risos).

MF – Está focado no Olympiakos, mas quais são as ambições para a sua carreira a curto/médio prazo?

  

PM – Não tenho nenhum problema em responder a isso. Sou um treinador ambicioso, mas se estiver feliz num sítio, como estou agora na Grécia, não penso em nada mais. Mas quem não gostava de treinar em Inglaterra? Todos gostariam de lá treinar, mas não é algo para amanhã. Acredito que isso vai acontecer no timing certo. Adoro o Olympiakos, mas penso nisso para o futuro. É normal. Para já estou focado em ser campeão na Grécia.

MF – Foi convidado alguma vez para treinar um dos três grandes em Portugal?

  

PM – Formalmente, nunca falaram comigo. Estou num grande clube e é normal que nesta altura esses clubes olhem para outros treinadores, mais disponíveis.

MF – Onde se imagina daqui a cinco anos no futebol principal?

  

PM – Num grande clube e a lutar por títulos. Vejo-me ao mesmo ou a um melhor nível.