Após mais de 15 anos entre Moçambique, Canadá, Brasil e Estados Unidos, Marc dos Santos vislumbra hoje a primeira oportunidade profissional em Portugal, onde morou na infância e adolescência, mais especialmente na Gafanha da Nazaré.

Natural de Montreal, o técnico luso-canadiano, de 44 anos, está livre no mercado. Deixou recentemente o Vancouver Whitecaps, da MLS, poucas semanas depois de ter sido o responsável pela contratação do escocês Ryan Gauld, ex-Sporting e Farense.

Também com passagens por Palmeiras (formação), CF Montreal, San Francisco Deltas e Ottawa Fury, Marc adquiriu ao longo das últimas temporadas o seguinte conceito: ter um impacto na vida daqueles que estão ao seu redor, como explica na entrevista ao Maisfutebol.

Nasceu no Canadá, viveu anos em Portugal, passou por Moçambique, Brasil, Estados Unidos... Depois de viajar e rodar tanto, quem é hoje Marc dos Santos?

É difícil dizer isso, quem sou, não é? É sempre mais fácil perguntar às outras pessoas. Mas acho que, com o tempo, percebi que nós temos que fazer o trabalho que fazemos com a alegria, de seguir aquilo que é a vida. Por vezes, fechamo-nos muito numa só coisa, e não realizamos o que a vida tem para nós. Ter viajado muito, ter estado em mercados muito diferentes fez-me perceber que temos que trabalhar muito bem, mas também temos que, como dizem em inglês, enjoy life (desfrutar a vida). E é aí que acho que mudei com o tempo.

O Marc treinador tem muito do Marc homem ou são totalmente opostos?

Tem, tem. Sou 100% o mesmo. Uma pessoa próxima das pessoas, uma pessoa que quer o bem do grupo onde eu estou. Que quer sempre ver as pessoas crescerem. Sou assim com os meus filhos, com os jogadores e nos clubes onde estou. Quero ver crescimento, ter sempre um impacto na vida das pessoas.

Como um bom português, gosta de um bom vinho, não?

Porquê? (Risos). Sim, o português sempre. Mas aprendi nas diferentes regiões, ao viajar, a apreciar os vinhos dos sítios diferentes. Quando fui treinador adjunto em Los Angeles, só bebia vinho da Califórnia. Mas, quando estava em Portugal, só bebia vinho de Portugal. Então...

«Eu não quero ser somente um treinador. Eu quero ter influência na vida das pessoas.» Peço para explicar melhor o peso desta declaração que você costumar ressaltar em entrevistas.

Quando estava na formação do Palmeiras, em 2012, construí relações com os jogadores, que nos levaram a ganhar a Copa do Brasil naquele ano. Mas vou destacar um exemplo: um guarda-redes, o Daniel Fuzato. Só trabalhamos naquele ano juntos. Nunca mais falamos e hoje, nove anos depois, falamos outra vez, quando recentemente fechou com a Roma. Isso só acontece com relações fortes. Acho que muitas pessoas estão num trabalho ou num meio e não são sempre totalmente honestas com aquilo que fazem. Sempre quis implicar-me muito na vida de jogadores para fazê-los crescer e vê-los crescer. É por isso que digo que quero ser mais do que um técnico.

Teve um estágio no FC Porto, certo? Conte-nos um pouco sobre isto. Qual era a equipa técnica na época, que jogadores o clube tinha naquela altura?

Conheci um preparador físico chamado Ricardo Silva, ainda no Boavista, e foi ele que apresentou-me, há muitos anos, ao professor Vitor Frade e ao professor Guilherme Oliveira, na Universidade do Porto. E, através deles, consegui o estágio no FC Porto. Passei muito tempo com o professor Ilídio Vale, que é hoje o treinador adjunto da Seleção Nacional. Ilídio Vale, José Guilherme Oliveira, o professor Luis Castro... eles que me influenciaram, de uma forma ou de outra, em pequenos momentos, para ser o treinador que sou hoje. Mas, no FC Porto, estive muito tempo na equipa B, na formação. Na altura, a equipa A era aquela com Hulk, James Rodríguez, João Moutinho, entre outros.

Até por envolver estes grandes nomes, quando lhe perguntam sobre o FC Porto, qual é a sua primeira lembrança?

A primeira imagem é a qualidade de treino. Aquelas pessoas ajudaram-me a crescer como treinador, o alto nível de treino teve um impacto grande em mim.

Foi para o Palmeiras pelas mãos do antigo internacional brasileiro César Sampaio e, depois, teve a maior oportunidade na MLS a convite do Bob Bradley. O que tem para chamar a atenção de grandes ícones do futebol?

Tive sorte. Porque, em Montreal, a equipa tinha acabado de ganhar a Segunda Liga Norte-Americana. E, quando o Bob ligou-me, tinha acabado de ganhar a Segunda Liga outra vez, com a equipa de San Francisco. Não estava à espera de uma chamada do Bob Bradley. É uma pessoa que tem muita força no mercado norte-americano, treinou a seleção dos Estados Unidos duas vezes, participou num Mundial, dirigiu também a seleção do Egito... é um profissional renomado. O Bob Bradley é um outlier para um técnico norte-americano. Agora, o Jesse Marsch é outro exemplo de um bom técnico norte-americano. Quando o Bob me chamou, não tive hesitação. Era uma equipa nova, o Los Angeles FC, na MLS. Era uma oportunidade única.

Foram anos a trabalhar no Canadá e nos Estados Unidos, além de uma passagem pelo Brasil (formação do Palmeiras). Ganhou experiência em mercados diferentes. Por outro lado, isto pode «jogar contra» você. Nunca passou pela Europa...

Tem razão. A MLS e a América do Norte são mercados muito diferentes. Número um: por causa das distâncias. Você pode jogar em Vancouver no sábado, e na quarta-feira em Nova Iorque. São seis horas de voo. Então, a preparação e as dinâmicas de preparação numa liga assim são muito diferentes. Mas o positivo, a coisa que tiro de positivo, é a facilidade que um treinador tem para adaptar-se. Quando se trabalha na América do Sul, depois na América do Norte, tens que adaptar-te a sítios muito diferentes, jogadores muito diferentes. A maioria das equipas da MLS têm 13, 14 estrangeiros. E isto instiga o treinador a ter que adaptar-se de várias formas.

Escutamos várias vezes os seguintes questionamentos: por que este jovem jogador não foi para um mercado melhor? Por que escolheu a MLS? Acha que há ainda um certo preconceito com o futebol norte-americano?

Acho que sim. Ainda acho que as pessoas veem a MLS como uma liga de jogadores que vão reformar-se. Mas dou muitas vezes o exemplo do Ibrahimovic. Um ano depois de regressar do LA Galaxy para o Milan, ele chegou e fez muitos golos em Itália. Então, não fez só golos no Galaxy, fez no Milan também. Acho que o que acontece é que a liga está a mudar. A MLS está a ser uma liga mais compradora. O argentino Ezequiel Barco, que trocou o Independiente pelo Atlanta United, é um exemplo disto.

Era um nome muito falado para outros mercados, inclusive na Europa...

Era, era. Recordo-me quando o Ignacio Piatti saiu do San Lorenzo depois de ser o jogador do ano na América do Sul, ninguém pensava que ele iria para Montreal. É uma liga que está a comprar mais, uma liga que está a crescer muito e já não é aquilo que era há 10 anos. Se falasse para você, há 10 anos, que Vancouver iria vender um lateral-esquerdo canadiano (Alphonso Davies) para o Bayern de Munique, você diria no chance. Impossível. E aconteceu. As coisas estão a mudar. O futebol está a ficar cada vez mais globalizado. E o que eu acho é: há bons jogadores em toda parte do mundo.

Existe algum paralelo, alguma similaridade, entre o mercado de compra português e o norte-americano?

Vou só falar no lado técnico. Número um: qualidade de preço. Neste momento, para a MLS, faz sentido ir buscar reforços na América do Sul. É muito mais difícil, por exemplo, um clube da MLS comprar um jogador que é internacional sub-21, português. Porque os preços são mais altos. A outra coisa é: a MLS é um jogo que tem muita transição, é um jogo esticado, há muitas bolas perdidas, transição, recuperação, transição... E isto vê-se muito na Argentina. Por isso, tem a ver com qualidade do jogador, preço e perfil do jogador. E é por isso que há muita procura, neste momento, na América do Sul.

Qual foi a sua participação na contratação do Ryan Gauld pelo Vancouver Whitecaps?

Sou português e conheço a liga portuguesa. Esta pode ser a minha resposta. É um jogador que seguia há muito tempo. E, quando soube da situação dele e fui alertado pelo empresário dele, não houve hesitação nenhuma. Nós sabíamos que era um jogador que, com as características que tem, iria adaptar-se muito rapidamente à MLS.

Como tem visto a evolução do Gauld na MLS?

Tive o azar de sair do clube quando ele chegou. Foi um jogador que trabalhei muito para contratar. Acreditava muito nele. Mas estou muito feliz que porque ele entrou logo com um forte impacto, está a ajudar muito. É muito responsável por aquilo que a equipa está a fazer hoje.

Gauld é o tipo de jogador para tornar-se uma grande figura da MLS ou deve regressar ao futebol europeu?

Da última vez que falei com ele, ele disse-me que foi com o espírito de ser um jogador top na MLS. Ele não foi com o espírito de 'ah, quero fazer um pouco aqui para ir para outro lugar'. Agora, o futebol é dinâmico, não é? As coisas mudam rapidamente. Ele está muito feliz lá e, quando ele foi, foi com o objetivo de fazer uma carreira e ter um nome forte na liga.

Sendo português e conhecer do mercado do futebol português, surpreendeu-o o facto de vocês – não sei se com facilidade – terem contratado o Gauld, e não o Benfica, o Sporting ou o FC Porto?

Não sei como é que o Sporting, o FC Porto e o Benfica atacaram ou se atacaram o Gauld. Por isso, não posso falar por estes clubes. Sei que muitas vezes lemos coisas...

Gauld jogaria tranquilamente nos três grandes de Portugal?

Acho que ele tem qualidade técnica para isso. É um jogador que tem uma qualidade técnica muito alta, um último passe bom, uma bola parada fantástica. Agora, depende das opções que os outros clubes têm em relação a ele.

Quais jogadores, especialmente jovens, na liga norte-americana, caberiam ou entrariam de caras nos grandes do futebol da Europa?

É difícil dizer. Nós temos o exemplo do Pulisic, que foi para o Borussia Dortmund e depois para o Chelsea. Todos têm um caminho um pouco diferente. O Jonathan David, que estava numa academia, em Toronto, foi à experiência para a Bélgica, ficou num clube belga e hoje está no Lille. Há dois jogadores da seleção norte-americana que, para mim, são muito interessantes, e vou esperar para ver o que acontece depois do Mundial de 2022 – se não se forem antes: Ricardo Pepe, do Dallas, e Miles Robinson, do Atlanta United.

E de Portugal para os Estados Unidos? Alguém para 'indicar'?

Não, não, nomes, não. Mas escuto muitas pessoas. Tenho falado com pessoas muito interessantes e escrevo muito. Mas é claro para mim que esse é um mercado que... quando vimos o Ryan Gauld, o impacto na MLS. Um destaque como o Pedro Santos, que saiu do Sp. Braga, foi para o Columbus Crew, ganhou a MLS Cup, é um jogador importante. Acho que o mercado português sempre vai ajudar qualquer clube do mundo.

Qual é hoje papel do Nani na MLS?

Falei com o Nani assim que ele chegou ao Orlando City, e a primeira coisa que me marcou foi a forma física dele. Acho que os jogadores portugueses estão a seguir a 'dieta-Cristiano Ronaldo', porque ele está numa forma física incrível. Ele gosta muito de Orlando, gosta de jogar no Orlando. Joga com alegria, adaptou-se bem. É um jogador que trouxe muito também para a MLS.

Dá para dizer que o Nani é uma das principais referências, hoje, da MLS?

Sim. Para mim, as referências são os jogadores que jogam no All-Star Game. O Carlos Vela é referência, o Diego Rossi era referência, o Nani é referência, o Josef Martínez é referência. Os jogadores que estão no All-Star são sempre referências.

Por falar em referências, o que o Marc dos Santos tem do treinador de MLS?

Organização. Acho que uma obsessão pelo detalhe e pela organização. Uma das coisas que o circuito norte-americano dá a um treinador é que ele tem que ser quase um DM, diretor desportivo, além de ser treinador. A segunda divisão ajudou-me muito, porque, tanto no Ottawa como em San Francisco, tinha quase um trabalho de diretor desportivo e técnico.

Qual é o seu próximo passo na carreira?

Agora quero estar na melhor estrutura possível. Não estou fechado a um só mercado ou um só sítio, nunca fui assim. Sempre fui uma pessoa corajosa e aventureira. Quero um sítio estruturado e com bom ambiente de trabalho para buscar o sucesso.

O futebol português tem uma certa 'preferência' na sua escolha?

Em todas as entrevistas que fiz em Portugal, esta pergunta veio. Se um dia quero treinar em Portugal. Em um clube...

Mas a minha pergunta foi diferente. Minha pergunta é se Portugal está à frente dos outros países em uma eventual procura...

Está. Está, porque... não é porque está que digo que vai ser. Cuidado. Mas é onde conheci o amor por aquilo que faço hoje. Meus pais são portugueses, cresci aqui. Mas nunca treinei aqui. Aprendi muito em Portugal, mas sempre apliquei fora. Por isso que sei que um dia vai acontecer. Se não for agora, sei que um dia vai acontecer.

O que você quer é um projeto adequado às suas ideias, independentemente da liga e da divisão. É basicamente isso?

Sim. É 100% isto. Acho que, se você, como técnico, trabalha em um sítio que é considerado, lá fora, muito top, mas não é feliz, não vai mostrar todas as suas qualidades. Às vezes, há sítios que parecem mais pequenos, mas que você, enquanto pessoa e técnico, pode mostrar todas as suas qualidades, ser feliz e crescer a partir daí.

Como acha que o mercado português olha para você?

Não tenho ideia. É difícil responder isso. Mas o que vou dizer é: todas as pessoas que conheço que trabalham no futebol português, de uma forma ou outra – imprensa, empresários e técnicos – são muito profissionais e muito implicados naquilo que fazem. Muito detalhados naquilo que fazem. Então, sei que só pessoas com estas características podem ser aceites em um mercado assim.

Então, para fechar, vou completar: que imagem você espera construir se, eventualmente, treinar em Portugal?

De alguém com muita ambição, alguém que quer ganhar. Alguém corajoso. Uma imagem de uma pessoa que arrisca muito. E é isso que quero deixar.

Bruno Andrade