Esteve nove anos ligado ao Sporting, clube no qual fez praticamente toda a formação, mas na próxima quinta-feira vai estar no banco oposto. Agora timoneiro do Alverca, Vasco Matos assume que o duelo da Taça de Portugal é uma montra também para quem tem menos de dois anos como técnico principal, mas acredita que a valorização será proporcional ao mérito coletivo.

Antes do encontro da terceira eliminatória da Taça de Portugal, o Maisfutebol esteve à conversa com o técnico de 39 anos (recém-cumpridos). Para olhar para o que aí vem, mas também para puxar pelas memórias dos tempos de jogador.

Maisfutebol - Vasco, foram nove anos de ligação ao Sporting, mas não é aí que tudo começa…

Vasco Matos - Não. Comecei nos Aliados da Brandoa, de onde sou. Futebol de cinco. Fazíamos muitos torneios, e eu era bom. Um amigo do meu pai disse para ir fazer testes ao Estrela da Amadora, e fiquei logo. Tinha oito anos. Lembro-me que fiz logo um torneio de Sintra, com equipas internacionais, e fui o melhor jogador. Houve uma época em que fiz noventa e tal golos.

MF - A ponta de lança?

VM - Nem me lembro. Era na frente (risos). Davam-me a bola e eu não passava a ninguém. O treinador tirou-me a braçadeira na altura, porque eu nunca tabelava com ninguém. Pegava na bola e fazia golos. Tive o Benfica e o Sporting atrás de mim, e acabei por ir para o Sporting, aos doze anos.

Vasco Matos no início de carreira. Com a camisola do Estrela da Amadora, em cima, e da Seleção de Lisboa, em baixo (arquivo pessoal)

MF - Havia alguma ligação familiar ao futebol, já anterior?

VM - Não. É engraçado que não. O meu pai é sportinguista, e íamos muito ao futebol. Lembro-me de ir muito, mesmo antes de começar a jogar. Mas não tinha ninguém na família com ligação ao futebol.

MF - Então essa mudança para o Sporting foi muito festejada em casa…

VM - Sim, o meu pai era sócio, e costumávamos ir ver os jogos. Acabei por fazer a formação toda lá, e como sénior ainda fiz contrato, embora nunca tenha chegado a jogar.

MF - Joga com o Ricardo Quaresma, antes com o irmão Alfredo, Alhandra, Simão, Filipe Cândido, Caneira, Paulo Costa, Hélder Rosário, Márcio Ramos…com quem manteve relação ao longo dos anos?

VM - Cada um seguiu a sua vida, mas o Márcio, que agora é treinador de guarda-redes do Olhanense, é com quem tenho mais relação. Mas lembro-me bem, foram bons tempos. Lembro-me dos torneios no estrangeiro, por exemplo. Uma vez fomos a um na Corunha e a malta queria sair à noite. O Carlos Pereira disse que, se ganhássemos, íamos todos sair, e lá foram os miúdos depois. Foram épocas marcantes.

MF - O Vasco ia da Amadora para os treinos, todos os dias?

VM - Inicialmente o meu pai ia buscar-me à escola, mas a partir dos juvenis ia de transportes. Eram dois transportes. Da Brandoa para o Colégio Militar, e daí para o Campo Grande. Eu jogava sempre, mas uma vez cheguei atrasado, antes de um jogo na Marinha Grande, e não fui convocado. O Carlos Pereira diz-me: “no futebol, um minuto é um minuto”. Isso marcou-me, e ainda hoje transporto isso para a minha carreira de treinador. Ele era um treinador muito rigoroso, e levei isso para a minha carreira de jogador, e agora como treinador. No Sporting tive muitas experiências boas a esse nível.

MF - Já como sénior é emprestado ao Lourinhanense (1999/2000), então satélite do Sporting…

VM - A transição de júnior para sénior é difícil. Estás habituado a um padrão de jogo, no qual ganhas quase sempre, tens sempre bola, és muito superior aos adversários. E depois entras num contexto diferente, com jogadores experientes, de qualidade, e sentes um choque grande. Eu senti-o, tal como outros colegas. Era um campeonato muito competitivo, muito exigente. Deu uma bagagem grande.

MF - A realidade desse escalão era diferente, comparando com o agora designado Campeonato de Portugal?

VM - Sim. Havia mais dinheiro, muitas equipas tinham o objetivo de subir, e contratavam jogadores batidos, de divisões superiores. Tinham sempre três ou quatro jogadores em posições fulcrais. Lembro-me do Feirense e do Maia, por exemplo. Era com cada bicho. Entradas duras, gajos aos gritos. Um gajo até se assustava. Agora os jogadores são mais jovens, os clubes também andam à procura da galinha dos ovos de ouro. Lembro-me que alguns jogadores ganhavam o que hoje não ganhas na II Liga, e se calhar até muitos não ganham na Liga. O Vizela tinha avançados a ganhar cinco mil euros, nessa altura. Isso hoje é impensável. Os jogadores prolongavam a carreira, mas agora, se calhar chegam aos 23 ou 24 anos e não estão para se chatear com isto, e seguem outra profissão. Hoje em dia os jogadores também estão mais sensibilizados para estudar, e antigamente não era assim. Lá está, porque também ganhavam mais dinheiro.

MF - Depois, a época 2000/01, é de regresso ao Sporting, para a equipa B, com Carlos Martins, Hugo Viana, Ricardo Quaresma, Lourenço. Foi importante voltar à casa-mãe?

VM - Foi. Foi uma época de afirmação. Jogávamos no Estádio José Alvalade. Sentiamo-nos mais acarinhados. O ambiente é diferente. Estávamos habituados ao Sporting, a viver numa redoma, e depois fomos para o Lourinhanense. Estávamos lá muitos, o que atenuava, mas é sempre diferente, por isso foi bom voltar.

Vasco Matos no Sporting B. É o segundo a contar da direita, na fila de baixo (arquivo pessoal)

MF - Agora vai ter a oportunidade de reencontrar o Hugo Viana [diretor desportivo do Sporting]…

VM - Sim, de vez em quando cruzo-me com o Hugo por aí. Não muitas vezes, mas já aconteceu, e vai ser bom.

MF - E como foi ter Vítor Damas como treinador?

VM - Era muito carismático, muito respeitado. A nível de treino já não me lembro bem, mas recordo que era mais de conversa com os jogadores, de passar a experiência, passar esse carisma. Íamos jogar fora e a estrela era ele. E ele gostava. Tinha umas saídas muito engraçadas.

MF - Depois é emprestado pelo Sporting ao Campomaiorense, naquele que foi o último ano de futebol profissional no emblema alentejano (2001/02). Foi uma etapa atribulada?

VM - Foi uma experiência muito boa, ainda assim. Dei mais um passo. Entrei numa II Liga muito competitiva, numa equipa com Patacas, Beke, Paulo Vida, Paulo Sérgio… Quando iniciámos a época o clube era estável, nunca faltou nada. Mas a família Nabeiro terá percebido que o futebol estava a entrar por um caminho que não ia dar retorno ao que estavam a investir. No final houve alguma perturbação, com a troca do Diamantino pelo Fabri González, um treinador espanhol complicado, que criou ali um ambiente hostil.

MF - Termina depois a ligação ao Sporting. Foi um momento difícil?

VM - Nem por isso. Apego-me muito, mas depois também dou rapidamente a volta às coisas. Assinei pelo Vitória de Setúbal, e vi isso como um passo em frente, pois fui para a Liga. Aceitei bem. Temos de entender que nem todos podem chegar à equipa A, e por vezes é preciso fazer o percurso por fora. Foi fácil, por acaso.

MF - Mas olhando agora, o que faltou para conseguir a tal oportunidade na equipa principal?

VM - Nunca olho muito para os outros, olho para mim. O que me faltou foi a questão física, porque de resto era inteligente, decidia bem, sempre percebi bem o jogo. Hoje esse trabalho individual faz-se mais. Devia ter feito um trabalho específico para potenciar as minhas qualidades, mas acho que a culpa é mais minha do que dos outros. Se não cheguei lá, à equipa principal do Sporting, ou a outro nível, acima de tudo é culpa minha.

MF - Termina a ligação ao Sporting, depois vive uma descida de divisão com o Vitória de Setúbal (2002/03), e segue para o Felgueiras, então com graves problemas financeiros (2003/04). Nessa fase ponderou deixar de jogar?

VM - Não. O Felgueiras foi um ano importante para mim. Tinha trabalhado com o Diamantino em Setúbal, e depois ele convidou-me para o Felgueiras. Estava para ir para a Holanda, para o Roosendaal, mas não se concretizou, e fui para o Felgueiras. Nunca fui pessoa de baixar os braços, sempre fui forte psicologicamente. A dada altura percebi que não ia jogar numa equipa grande. Não sou burro. Então agarrei essa oportunidade, e fiz uma boa época no Felgueiras. Mesmo perante as dificuldades, já que estivemos cinco meses sem receber. Lembro-me que, os quatro ou cinco jogadores que eram de Lisboa, às tantas nem tinham água nem luz. A vida nunca é como imaginamos, e essas questões que passei, ao longo da carreira, transfiro agora para a carreira de treinador. É uma força extra. Depois fui para o Olhanense, um clube em ascensão.

MF - E no Beira-Mar, como foi partilhar o balneário com o Mário Jardel (2006/07)?

VM - Já foi na fase descendente, na fase terminal, mas era engraçado. O Mário gostava de ajudar os colegas, era muito simpático e divertido. Mas não nos conseguia ajudar. Para muitos daquele plantel o Jardel era uma referência. Estava sempre bem-disposto, pronto para um almoço. Ele ainda fez alguns jogos inicialmente, mas o Beira-Mar lutava para não descer, não dava para ter o Jardel na frente. A capacidade de trabalho e a mobilidade eram reduzidas. De vez em quando entrava, mas já não conseguia ajudar muito, até porque a vida fora do campo era complicada. É tão boa pessoa que havia sempre gente à volta a querer aproveitar-se.

Lembro-me que uma vez começou a aquecer - e ele raramente era a primeira opção para entrar -, e decidiu meter pressão no Carvalhal. «Professor, quando quiser estou pronto», disse ele (risos). Tinha assim umas reações… Nos treinos não participava no processo defensivo e começava a fazer umas corridas ou alongamentos. Depois entrou o grupo de investidores, a Inverfútbol, e ele acabou por ser dispensado.

Vasco com a camisola do Beira-Mar, frente ao Sporting.

MF - Já que está a recordar histórias… da Roménia há muito para contar, certamente.

VM - Depois do Beira-Mar fui vendido ao Rapid Bucareste. Fui eu e o João Paulo, que estava na U. Leiria. Aquilo é surreal. Lembro-me que fomos jogar ao Cluj, que estava a lutar pelo título com o Steaua, rival do Rapid, e a administração informou o plantel que o Steaua dava 10 mil euros a cada jogador para ganharmos ao Cluj. A dada altura o Sapunaru, que depois esteve no FC Porto, levantou-se aos gritos. Disse que não podíamos ganhar ao Cluj, que o Steaua não podia ser campeão. Ele era todo rapidista. Steaua nem pensar. Perdemos 1-0, e curiosamente o golo foi uma bola nas costas do Sapunaru, mas ele fez um bom jogo. Perdemos dez mil euros. Uma vez fomos jogar a Buzau e um diretor estava em campo com uma pistola, para dar outro exemplo. Havia jogadores a faltar aos treinos e no dia a seguir estava tudo bem. É complicado…aquilo está sempre a mudar. Não há estabilidade. Uma vez, num Rapid-Dinamo, estamos a ir para o estádio e o autocarro fica parado por causa da claque do Dinamo que estava a passar. Às tantas o treinador sai e começa a ir a pé para o estádio.

MF - Depois esteve duas épocas no Portimonense (2008 a 2010) e quatro no Desportivo das Aves (2010 a 2014). Este foi, de resto, o clube onde esteve mais tempo, tirando o Sporting.

VM - Sim. Subi de divisão no Portimonense, e depois fui para a Vila das Aves. Criei muitas relações lá, até porque o meu filho viveu lá nesse período.

MF - É mesmo diferente jogar no Norte?

VM - Um pouco. É vivido de forma diferente, mais intenso. Ali naquela zona era Aves, Moreirense, Penafiel, Freamunde, Famalicão, Tirsense, Guimarães, Felgueiras, Braga… há muita relação, muito contacto, e o futebol vive-se de outra forma.

MF - Mais tarde a ideia foi pendurar as chuteiras perto de casa?

VM - Sim. Quando saí do Desp. Aves já estava a pensar no final. Tirei aí o primeiro nível do curso de treinador. O meu filho ia para a escola primária, e eu pensei ir para o pé de casa, mas ainda fiz um ano no Benfica de Castelo Branco [2014/15]. Fui sozinho, e a minha família veio para Lisboa. Ainda compensou financeiramente, e o Miguel Vaz, que tinha sido meu colega no Campomaiorense, era o diretor desportivo. O clube ia sempre ao playoff de subida, e parte da minha família é de Castelo Branco, pelo que aceitei esse desafio. Mas já estava virado para outras coisas, para pensar no treino, e acabei aqui ao lado, no Vilafranquense [2015/16].

MF - O final de carreira também foi encarado com naturalidade?

VM - Ia continuar a jogar, mas o Filipe Coelho [agora adjunto de Paulo Bento na seleção da Coreia do Sul] foi para o Leixões e convidou-me para adjunto. Não olhei para trás. Já jogava muito mais a treinar do que a jogar. Na parte final da carreira já era um treinador. Tinha uma excelente relação com o mister [Luís] Brás, que treinava o Vilafranquense nesse meu último ano, mas já treinava os meus colegas no campo. Aí entra a tal questão física também. Já tinha muitas lesões, muitas roturas. Não consegues continuidade. Muitas vezes já nem treinava, preparava-me só para o jogo. Já estava com o chip para o treino. Acabei a jogar na distrital, e com muito orgulho. Joguei nas divisões todas, e isso é uma mais-valia.

MF - A passagem para técnico principal foi mais rápida do que esperava?

VM - Sim. Fomos para o Leixões, depois voltámos ao Vilafranquense, e a dada altura o Filipe, com quem ainda hoje me dou muito bem, disse-me que tinha uma possibilidade para sair. Nunca pensei que seria eu a pegar na equipa, embora o Rodolfo [Frutuoso, antigo presidente da SAD do Vilafranquense], que tinha sido meu colega no Sporting, já me tivesse dito uns tempos antes para eu me preparar. Eu dava-me bem com o Nélson Veiga, que era diretor desportivo, e até falámos de nomes para o cargo. Mas lembro-me que, depois de um jogo com o 1.º Dezembro, estava tudo sentado numa mesa redonda, e disseram que queriam que fosse eu o treinador. Às tantas fechei os olhos e aceitei. As coisas correram bem. Não tenho medo do campo. Foi um desafio muito importante para mim, e em ano e meio fizemos coisas muito boas.

MF - No final da carreira já preparava a carreira de treinador? Já tirava apontamentos?

VM - Costumo dizer que não sou treinador de computador, nem de muitos apontamentos. Sei delegar nas pessoas que me rodeiam. Tenho boa memória. Sempre fui muito observador. Estava sempre a pensar se os exercícios faziam sentido ou não. Eu não apontava exercícios, mas fixava tudo. Alguns exercícios são muito bonitos, com cones em todo o lado, mas depois aquilo não tem ligação nenhuma ao jogo. Tinha as ideias bem claras na minha cabeça, e rodeei-me de pessoas muito competentes.

MF - Qual o treinador que mais o marcou?

VM - Não posso dizer só um, seria injusto. Eu começo no Aliados da Brandoa, ganhávamos sempre, e o treinador, o Zeca - com quem ainda hoje tenho uma boa relação, e que vai estar aí na quinta-feira - quando perdíamos dizia que nem a água merecíamos. Aquilo era forte. Costumamos dizer que a cara de quem ganha nunca é a cara de quem perde. Eu hoje ainda levo isso. Se perder, fico doente.  Mas depois tive Paulo Leitão, Carlos Pereira…treinadores que me marcaram muito na formação. Depois no futebol sénior, que já é diferente, o Diamantino ensinou-me muito. Depois o Paulo Sérgio em Olhão. Vidigal. O Vítor Oliveira, um treinador muito inteligente, que sabe tudo do futebol, da gestão do grupo. E depois o Paulo Fonseca no Aves. Fez-me ver algumas coisas que eu não tinha visto até então. Vinha habituado a muita coisa. Costumamos dizer que só sentimos falta do que conhecemos. Ele chegou ao Aves a tentar impor algumas coisas, e mesmo entre nós dizíamos que ele era maluco. Ali era bola na frente, pressionar, segundas bolas…e ele mostrou que havia outro caminho. Mas não consigo eleger só um. Sou um privilegiado.

MF - Este jogo com o Sporting acaba por ser o contexto ideal para o Vasco mostrar também o seu valor, frente a um clube que lhe diz muito?

VM - Sim, é uma oportunidade única para todos. É uma janela de oportunidades para os jogadores, e também para a equipa técnica, mas não sou pessoa de andar aqui a dizer que inventei o futebol, a fazer coisas diferentes. Aquilo que tenho feito está bem visível. Não sou maluco, sei que este jogo é uma oportunidade, mas não é uma obsessão. Penso sempre no coletivo. E se formos fortes como grupo, vamos ser muito melhores. Queremos mostrar também que, em alguns momentos do jogo, podemos bater-nos com o Sporting, que podemos chegar a esse nível. Acredito que posso chegar a um nível alto, e é para isso que os meus jogadores trabalham também, mas acredito que as coisas acontecem naturalmente.

MF - A carreira de jogador não foi nada de deitar fora, pelo contrário, mas vê a carreira de treinador a chegar a um patamar mais alto?

VM - Vou ser muito melhor treinador do que jogador. Muito melhor, mesmo. Para já o treinador não tem roturas, não se rasga (risos). É um feeling que tenho. Como jogador já era muito treinador dentro de campo.

MF - Então sente quase como se a carreira de jogador tivesse sido uma preparação para a "verdadeira" carreira, a de treinador?

VM - Acho que sim. Já falava disso com alguns treinadores com quem trabalhei. Não fui um jogador extraordinário, fui mediano, e acho que vou ser melhor treinador. Não tenho muitas dúvidas disso.

Nuno Travassos