Estórias Made In é uma rubrica do Maisfutebol que aborda o percurso de jogadores e treinadores portugueses no estrangeiro. Há um português a jogar em cada canto do Mundo. Este é o espaço em que relatamos as suas vivências. Sugestões e/ou opiniões para djmarques@tvi.pt ou rgouveia@tvi.pt

Máscaras, distanciamento social, etiqueta respiratória, higiene das mãos. Testes e mais testes!

O novo normal que tomou conta do Mundo desde os primeiros meses de 2020 aplicou-se também ao futebol.

Os estádios, muitos deles com capacidade para dezenas de milhares de espectadores, tornaram-se, de repente, lugares estranhos e desprovidos de calor humano. Primeiro, deixaram de receber jogos de futebol. Depois, voltaram a abrir. Inicialmente sem adeptos; a seguir, com poucos adeptos; e, depois, novamente sem eles.

Esse tal novo normal fez-se de avanços e recuos em nome de um combate mais eficaz a uma pandemia que sugou a alma do desporto-rei.

Hoje, um clássico com as bancadas a abarrotar, ou aquele abraço ao desconhecido que partilha consigo as dores e a emoção do golo da sua equipa parece uma realidade alternativa. Inverosímil.

Mas não em Israel, a nação do Mundo onde o processo de vacinação se encontra mais avançado e que já tem mais de 80 por cento da população vacinável (16 anos é a idade mínima elegível) inoculada com as duas doses.

Num país com quase tantos habitantes como Portugal mas uma densidade populacional quatro vezes superior, o número de novos casos diários é residual e no dia 23, pela primeira vez em dez meses, não foi registada qualquer morte em consequência da doença.

Pessoas contemplam o pôr do sol em Tel Aviv, já depois do levantamento da obrigatoriedade do uso de máscara em espaços exteriores. Passaporte verde é o visto para o regresso a uma vida normal

Público sem máscaras nos estádios e possibilidade de enchentes em breve

E no futebol? Os clássicos a abarrotar para lá caminham, tal como aquele abraço ao desconhecido durante a emoção do golo.

Depois de praticamente um ano sem público nas bancadas, os estádios voltaram a abrir no mês passado para o público, ainda que com algumas (cada vez menos) restrições.

«Neste momento pode ocupar-se 30 por cento da lotação, o que significa que os estádios maiores, com capacidade para 30 mil pessoas, podem ter 10 mil espectadores nas bancadas», introduz Miguel Vítor, há cinco anos em Israel, onde já se sagrou duas vezes campeão nacional e foi considerado o melhor jogador da Liga logo na época de estreia.

O defesa-central do Hapoel Be’er Sheva, ex-Benfica, é um dos dois guias escolhidos pelo Maisfutebol para nos traçar o retrato da realidade em Israel, onde a obrigatoriedade do uso de máscaras em espaços exteriores foi levantada recentemente e muitos adeptos assistem aos jogos como se a pandemia fosse já um combate de uma vida passada, como é possível constatar pelas fotografias partilhadas nas redes sociais por vários clubes.

«As pessoas estão divididas por bancadas e não se cruzam muito fora do estádio, mas lá dentro, principalmente nas claques, estão muito juntas. No início tinham de ter a máscara colocada, não podiam levantar-se das cadeiras e os árbitros até estavam autorizados a interromper um jogo se as pessoas se levantassem. Mas são regras difíceis de cumprir e que acabaram por ser aligeiradas, também porque a situação está controlada», conta.

Adeptos do Hapoel Be'er Sheva durante um jogo da equipa de Miguel Vítor em casa (FOTO: site Hapoer Be'er Sheva)

Para assistirem aos jogos in loco, os adeptos têm de ser portadores de um passaporte verde, que é atribuído pelas autoridades de saúde a quem estiver vacinado ou tiver recuperado da doença. Nos últimos dias, a permissão de entrada nos estádios foi alargada: quem não tiver o passaporte verde, é submetido à porta do estádio a um teste rápido, previamente adquirido, cujo resultado é conhecido em poucos minutos.

André Geraldes, que regressou em janeiro ao Maccabi Tel Aviv, onde já tinha estado na época passada, conta que os jogos em casa do atual campeão israelita podem ter 9 mil espectadores, mas é expectável que a situação seja revista em breve. «Começaram com 10 por cento da lotação, passaram depois para 30 e agora estão a ponderar não haver limite a partir de 6 de maio», diz ao Maisfutebol.

Esta medida foi admitida pelos ministros da Saúde, e da Cultura e do Desporto, num comunicado conjunto emitido no domingo e que contempla uma série de medidas que serão sujeitas a aprovação nesta quinta-feira (27). Entre elas, está a autorização para o preenchimento completo das bancadas desde que os espectadores estejam comprovadamente imunizados.

André Geraldes, jogador do Maccabi Tel Aviv, atual campeão de Israel

Uma bolha à parte

Na capital económica de Israel, a segunda cidade mais populosa do país a seguir a Jerusalém, já se vive quase como se não houvesse pandemia. «As pessoas sentem-se claramente seguras e levam a vida com perfeita normalidade. Vê-se muita gente nas ruas e os bares e os restaurantes estão praticamente cheios. Vivemos uma bolha à parte. Onde ainda se notam diferenças é nos locais turísticos, que antes estavam cheios de estrangeiros e neste momento estão praticamente vazios, porque o país continua fechado para o turismo», retrata o lateral-direito que pertenceu vários anos aos quadros do Sporting.

Desde o início da pandemia, o Governo israelita viu-se forçado a decretar três confinamentos. O último deles vigorou entre dezembro de 2020 e o final de fevereiro, mês em que as restrições começaram a ser gradualmente levantadas.

Foi mais ou menos por aí que Miguel Vítor e a esposa, Tânia, foram inoculados com as duas doses da vacina Pfeizer/BionNTech, ainda antes de o processo chegar aos clubes. «Nessa altura só vacinavam pessoas com mais de 50 anos e algumas franjas mais religiosas aqui da população, como os ultra-ortodoxos e muçulmanos, tinham inicialmente muita desconfiança. Por isso, havia mais vacinas e do que pessoas dispostas a tomá-las e sobravam sempre algumas doses ao final do dia que podiam ser tomadas por quem tivesse menos de 50 anos para que não houvesse desperdícios. «Ligaram-me de uma clínica por volta das 17h00 e disseram-me que tinham doses a mais e que podíamos ser vacinados se chegássemos lá antes das 19h00. Quando a vacinação chegou aos clubes, eu e mais de metade dos meus colegas já estávamos vacinados.»

Miguel Vítor está no Hapoel Be'er Sheva desde 2016 (foto do arquivo pessoal do jogador)

O capitão do Hapoel Be’er Sheva já tem, por isso, o passaporte verde, que lhe permite, por exemplo, comer no interior de um restaurante e frequentar hotéis, ginásios e piscinas.

André Geraldes ainda não, apesar de ter anticorpos como consequência de infeção contraída no período do Natal, num surto que afetou mais de 20 jogadores, treinadores, diretores e staff médico do APOEL, equipa cipriota que representava. «Como tive covid-19 em Chipre, esses dados não estão no Ministério da Saúde de Israel. Por isso, tive de fazer um teste serológico na semana passada para saberem que tenho anticorpos. Daqui a uma ou duas semanas, eu e a minha mulher devemos ser chamados para tomar uma dose da vacina e aí já teremos esse passaporte», refere.

Um livre-trânsito para uma vida normal também fora da bolha que é o futebol e que limitou muito os jogadores durante longos meses. No campeonato israelita, o protocolo de testagem aplicado às equipas nunca foi tão rígido como em Portugal ou nas principais ligas europeias – nas quais os atletas de todas as equipas são sujeitos a testes na janela de 48 horas que antecede cada jogo – e uma testagem em massa só acontecia em duas situações: se algum elemento apresentasse sintomas de infeção ou antes de uma partida para as competições europeias.

Em troca, foi feito um controlo muito apertado à vida social dos futebolistas, com sanções previstas se algumas regras não fossem escrupulosamente cumpridas. «Durante muito tempo, os jogadores só podiam sair de casa para treinar e os clubes poderiam ser multados caso fôssemos vistos na rua e houvesse algum tipo de prova disso», diz Miguel Vítor.

Essas imposições foram retiradas e quase todos os atletas levam hoje uma vida quase normal fora e dentro da bolha, ainda que com naturais restrições em espaços interiores. Tal como os adeptos nas bancadas, quem se senta num banco de suplentes já não está obrigado ao uso de máscara, as refeições são feitas em equipa e muitos dos cuidados extremos aplicados há quase um ano, quando se começou a preparar a retoma do futebol após quase três meses de paragem forçada, ficaram para trás há muito tempo.

Miguel Vítor puxa pela memória para precisar a data do último teste que fez à covid-19, ainda bem antes de estar vacinado. «Talvez em janeiro, quando tivemos dois ou três casos no plantel. Agora, praticamente todos os jogadores já estão vacinados e nem se te tem falado de casos de infeção nas equipas», observa. Geraldes – tirando o serológico – desde fevereiro, quando o Maccabi Tel Aviv jogou para a Liga Europa com o Shakhtar Donetsk de Luís Castro.

A ciência e o futebol estão a derrotar a pandemia em Israel. O jogo está perto do fim e, para já, o resultado traduz-se numa goleada.

E, aqui, todos torcem pela mesma equipa.

* Foto de capa: Facebook do Maccabi Tel Aviv

David Marques