Estórias Made In é uma rubrica do Maisfutebol que aborda o percurso de jogadores e treinadores portugueses no estrangeiro. Há um português a jogar em cada canto do Mundo. Este é o espaço em que relatamos as suas vivências. Sugestões e/ou opiniões para djmarques@tvi.pt ou rgouveia@tvi.pt

Verão de 2011. Vinte anos depois de Lisboa’91, Portugal volta a uma final de um Campeonato no Mundo sub-20. Na Colômbia, a raparizada lusa mostra a dureza necessária para se ter sucesso. Até ao derradeiro (e fatal, raios!) jogo com o Brasil, os comandados de Ilídio Vale fazem da solidez defensiva a chave do sucesso. Apenas cinco golos marcados, mas nenhum sofrido em seis jogos. Cali, Cartagena e Medellín testemunham, até à noite de 21 de agosto em Bogotá (3-2 após prolongamento para a canarinha e o génio de Oscar), aquilo que aparenta estar a caminho de ser a confirmação de uma das leis mais inabaláveis da história do futebol.

«Os ataques ganham jogos; as defesas ganham campeonatos.»

Entre os 21 jogadores da equipa das quinas, apenas dois terminam o Mundial como totalistas: o guarda-redes Mika (União de Leiria) e o defesa-central Nuno Reis, jogador da formação do Sporting e acabado de se afirmar logo na primeira época como sénior nos belgas do Cercle Brugge, aos quais esteve cedido.

Onze anos depois e, também, 11 horas à frente no tempo, encontramos Nuno Reis já trintão. Casado, pai de duas filhas e emigrado na Austrália. De bem com a vida e fiel a uma filosofia: nunca deixar um ‘se’ para trás.

Para trás ficam só as memórias. De Portugal, claro, mas também de Bélgica, França, Grécia, Bulgária e, agora, do país da «vida selvagem» onde está desde janeiro do ano passado e com um título inédito – para ele e para o Melbourne City – conquistado: o de campeão nacional.

Em entrevista ao Maisfutebol, o defesa que foi internacional por todos os escalões dos sub-16 aos sub-21 fala-nos sobre a aventura pelos Antípodas e as particularidades de um país onde há desportos mais reis do que este futebol que lá nem pode dar-se ao luxo de responder pelo nome.

«Estou contente com o que alcancei», diz-nos Nuno Reis, que assume, ainda assim, uma certa tristeza por não ter chegado a fazer qualquer jogo oficial pelo Sporting. E ‘se’ fosse hoje? A este ‘se’, porque é um ‘se’ de futuro, responde: acredita que este Sporting de Amorim teria o habitat ideal para o jovem Nuno de há dez anos que, pelo meio, também trabalhou com Sérgio Conceição no Olhanense: «Nunca tive um treinador tão bom como ele.»

Maisfutebol – Está agora a fazer um ano desde que chegou à Austrália. Como surgiu a oportunidade de ir jogar para um país que não é propriamente a escolha mais óbvia para o jogador português?

Nuno Reis – Quando saí do Levski Sofia fiquei uns meses sem clube e na altura falei com a minha mulher e decidimos que se aparece alguma coisa, fosse para onde fosse, nós íamos desde que fosse bom para todos. Eu até brincava e dizia que se calhar ainda íamos parar ao Japão [risos].

MF – Foi quase…

NR – O [Melbourne] City não foi o primeiro convite que tive na Austrália. Tive o Wellington, da Nova Zelândia, mas as fronteiras estavam fechadas, tinham de ficar em Sydney para jogar o campeonato e não davam o visa à minha mulher: rejeitei. Depois surgiu o [Melbourne] Victory, que é o rival do City. Mas o treinador optou por trazer um defesa-central inglês. E depois surgiu esta oportunidade de vir para o City.

MF – O que sabia do futebol na Austrália? Do soccer, como lhe chamam aí.

NR – Sinceramente não sabia muito. Mas quando surgiu a oportunidade de vir para cá, comecei a acompanhar, porque também já tinham começado o campeonato e passei a ver alguns jogos. Mas não sabia grande coisa. O soccer aqui é talvez como o hóquei em patins em Portugal ao nível de adeptos e de acompanhamento.

MF – Não é o desporto de eleição, portanto.

NR – Não. Se a final do nosso campeonato, o soccer, coincidir com a final do footy, que é o futebol australiano, o estádio do footy está a 100 por cento e o nosso às moscas.

MF – O footy despertou-lhe interesse? Já percebe alguma coisa das regras?

NR – Por acaso até já tenho uma equipa aqui. À chegada dizem-nos logo que temos de escolher a nossa equipa de footy. Aqui, é o footy, o críquete e o râguebi. Na altura em que escolhi uma equipa para apoiar, não percebia grande coisa, mas agora já vou entendendo algumas coisitas. E é engraçado. É bom de se ver, mas é um desporto muito físico, com placagens atrás de placagens e é sempre a andar. Eu partia-me todo [risos]. É ainda mais agressivo do que o râguebi, porque como estão sempre a chutar a bola para trás, para a frente e para cima, eles vão todos a olhar para ela e batem uns nos outros. É clavículas fraturadas, cabeças abertas [risos]. É um desporto muito popular: os maiores estádios de Melbourne levam 120 mil pessoas e estão cheios.

Final do campeonato de futebol australiano (Aussie Rules ou footy) em setembro de 2021 em Perth, quarta cidade mais populosa da Austrália e a maior da zona ocidental do país. Lotação esgotada para o jogo mais importante do ano no desporto mais assistido no país

MF – Voltando um pouco atrás: esteve perto de meio ano sem jogar desde que saiu do Levski. Não foram surgindo as oportunidades ideais?

NR – Surgiram várias opções e até tive algumas em Portugal, mas não chegámos a acordo e também não era o melhor para a minha família. Rejeitei algumas e o mercado acabou por fechar-se. Tive de ter paciência, porque só os mercados da Ásia é que estavam abertos. Foram muitos meses sem jogar, porque o meu último jogo foi em março [de 2020], o campeonato búlgaro parou e o clube tinha problemas financeiros, deixou de pagar e optei por rescindir. E, depois, surgiu esta oportunidade do City: deram-me feedbacks e fizemos várias videochamadas com o treinador e com dirigentes. Transmitiram-me logo o que pretendiam de mim e o que queriam fazer a curto e a longo prazo.

MF – O que pesou mais para aceitar esse convite?

NR – A estabilidade! O clube não pensa só no amanhã. Querem fazer as coisas bem feitas. Temos um processo que engloba vários jogadores da academia e jogando bem e ganhando títulos conseguimos que as crianças olhem para o Melbourne City e tenham o objetivo de vir para cá jogar. E estamos a falar do grupo City [n.d.r.: do qual faz parte do Manchester City], que é uma coisa do outro mundo. Logo aí, temos a estabilidade de que precisamos. Só precisamos de estar preocupados em fazer o nosso trabalho bem feito. Qualquer coisa de que necessitemos – nós ou a nossa família – a nível de saúde, etc, basta ligar e eles estão sempre um passo à frente.

MF – Como por exemplo?

NR – Por vezes, estarmos de folga e ligarem-nos a perguntar se está tudo bem e se precisamos de alguma coisa. Por exemplo: sentimo-nos doridos e precisamos de uma máquina para fazer gelo ou de um tratamento e os próprios fisioterapeutas do clube vêm a nossa casa na hora. Estão 24 horas disponíveis para os jogadores, para que o rendimento seja também o melhor.

MF – É algo que nunca teve em Portugal ou nos outros países por onde passou?

NR – Sem dúvida! Eu nunca tive um fisioterapeuta a vir a minha casa num dia de folga fazer-me tratamentos só porque eu precisava.

MF – Entretanto, ajudou o Melbourne City a sagrar-se campeão australiano pela primeira vez logo no primeiro ano e acabou de ser considerado o melhor jogador do mês na sua equipa. Desportivamente, era difícil pedir muito melhor…

NR – É verdade. Mas quando cá cheguei a equipa era basicamente a mesma do ano anterior, as bases estavam bem cimentadas e as ideias do treinador também estavam bem assimiladas. Eu só tive de ter um bocado paciência e de observar a forma como jogavam os meus companheiros para estar pronto quando chegasse o meu momento de entrar na equipa e ser mais um para ajudar. A nível físico foi mais difícil estar pronto no ano passado, porque não tinha feito pré-época, que aqui dura 16 semanas. Este ano sinto-me melhor e isso pode explicar o meu melhor rendimento.

Pelo Melbourne City, um dos clubes que pertence ao universo do City Football Group, onde está integrado o Manchester City

MF – Fale-nos do campeonato australiano.

NR – É um campeonato fechado, sem subidas nem descidas. Primeiro há a fase regular, que tem um campeão – que fomos nós – e depois é como na MLS. Fazem os playoffs, com quartos de final, meias-finais e final. Na final ganhámos ao Sydney FC, que no ano anterior tinha vencido o Melbourne City na final.

MF – E o campeonato tem um bom nível? Nota-se que, pelo menos, há aí mais imprevisibilidade relativamente às equipas que podem ser campeãs…

NR – Há um campeão novo quase todos os anos. Salvo erro, só o Sydney é que foi campeão duas ou três vezes seguidas. Mas têm sido eles, o [Melbourne] Victory, o Adelaide e no ano passado fomos nós. Vai mudando, porque muitas equipas também não mostram a mesma estabilidade que, por exemplo, há no campeonato português, onde o núcleo normalmente se mantém de um ano para o outro, mesmo com algumas alterações. Aqui, se corre bem mantêm-se os jogadores ou tenta-se vender para fazer algum dinheiro. Mas se corre mal muda-se a equipa toda. Foi o que o Victory fez este ano. Comprou 14, 15 ou 16 jogadores.

MF – O campeonato ainda está numa fase muito inicial, mas já deu para ver quem são os candidatos ao título este ano?

NR – Diria que são os mesmos do ano passado. Há sempre o Sydney, que é considerada uma equipa grande aqui. O Adelaide, que é sempre um adversário difícil. Mesmo esta equipa, [WS Wanderers] contra a qual jogámos no último jogo e empatámos 3-3, não digo que seja favorita, mas é ‘chata’. O Victory também pode ser um candidato porque fez várias alterações e está bem no campeonato. Mas eu creio que sempre que conseguimos impor o nosso jogo é muito difícil jogarem contra nós.

MF – Quais foram as primeiras sensações que teve quando chegou a Melbourne há um ano?

NR – Primeiro, tivemos de fazer uma quarentena de 14 dias. Eu, a minha mulher e as minhas filhas. Estava tão farto de estar dentro de um quarto que quando cheguei a Melbourne sentia-me num paraíso. Fomos diretos para o estádio, porque nesse dia havia jogo, e fiquei estupefacto. O estádio é incrível, os adeptos estão cada vez mais a aderir e com o tempo também consegui ir vendo algumas coisas da cidade. Não muita coisa, porque passado um mês entrámos num lockdown de três meses. E aqui são muito rigorosos com o lockdown: não temos sequer hipótese de andar a passear na cidade. Ainda estou a conhecer Melbourne aos poucos. Uma zona de cada vez, também porque para irmos de um lado ao outro da cidade demoramos uma eternidade.

Vista aérea de Melbourne, com o estádio onde joga a equipa de Nuno Reis assinalado:

MF – Nesse lockdown o campeonato também parou?

NR – Não. Jogávamos à porta fechada. Quem não podia trabalhar em casa recebia uma isenção passada pelo Governo para que pudesse exercer a profissão. E todos os meses tínhamos essa isenção renovada para podermos treinar e jogar.

MF – E o que podiam fazer além de treinar e jogar? Estavam muito limitados?

NR – Sim. Era casa-treino, treino-casa e depois só podíamos passear duas horas por dia e num raio de cinco quilómetros.

MF – Nos últimos dias Melbourne tem estado nas bocas do Mundo por causa de toda a situação gerada em torno Novak Djokovic. A ideia que passa é que na Austrália a gestão da pandemia é feita de uma forma ainda mais rigorosa. É assim mesmo?

NR – É. Aqui, tudo o que dizem para fazermos é para cumprir. Se não estiver tudo certo, seja o que for, não deixam passar. Seja quem for! Se não cumprirmos as regras, somos multados em 300 ou 400 dólares australianos e até podemos ser presos. Neste momento não há grandes restrições, mas temos de fazer sempre um check-in quando entramos numa loja, num restaurante ou até um centro comercial. Quem não tem a vacinação completa é barrado à entrada, mesmo que seja num supermercado.

MF – A nível pessoal, a adaptação à Austrália foi fácil?

NR – Sim. Por acaso já tinha aqui amigos que andaram comigo na escola em Fátima. Estavam aqui há alguns anos e ajudaram-me na adaptação. E conhecemos também um outro casal amigo deles, que nos foi orientando com dicas de lugares para visitar e restaurantes onde comer. E a qualidade de vida é boa. É como estarmos ao pé da praia em Portugal: um café, um almoço na esplanada, um pôr-do-sol. E os australianos recebem bem. No centro da cidade encontram-se restaurantes gregos, italianos e portugueses. Dá para escolher o que queremos e há muita variedade. Até temos cá os famosos pastéis de nata: há uma casa, chamada ‘Casa Nata’, que só faz pastéis de nata e vende vinho português. Dá para matar algumas saudades.

MF – Há muitos portugueses por aí?

NR – Sim, mas não na zona de Melbourne onde eu vivo, que é uma zona com muitos asiáticos: chineses, japoneses e coreanos. Eu estou na zona Este e a maioria está na zona Oeste.

MF – Roderick Miranda é um dos portugueses em Melbourne e joga no Victory, o rival do City. Curiosamente, o seu parceiro de defesa no Mundial sub-20 em 2011. Foi uma amizade que ficou?

NR – Somos amigos. Agora, por causa da covid, não podemos ter muito contacto e somos aconselhados a não frequentar sítios com muita gente ou, por exemplo, restaurantes fechados. Mas quando joguei contra ele recentemente acabámos por falar.

MF – Ele falou consigo antes de ir para a Austrália? Procurou informar-se consigo sobre o que podia esperá-lo?

NR – Não. Por acaso, eu só soube através das notícias que ele vinha para cá. Mas os clubes australianos informam os jogadores sobre tudo antes de virem para cá. Certamente que ele foi bem informado e lhe esclareceram todas as dúvidas que podia ter.

MF – Pelo que costuma publicar nas redes sociais, nota-se que aprecia muito o contacto com a natureza.

NR – Certo.

MF – A Austrália preenche-o também nesse aspeto?

NR – É verdade! Em todo o lado podemos fazer uma caminhada ao ar livre no meio da natureza. Há vários trails por onde podemos fazer caminhadas de várias horas e paisagens magníficas. Mas aqui há vida selvagem! Não é como em Portugal, onde vamos andar para qualquer lado. A qualquer momento podemos apanhar um susto. Por exemplo, aparecer-nos à frente um canguru, ver um coala nos eucaliptos ou uma cobra. Aqui há mesmo vida selvagem!

MF – Mesmo numa cidade como Melbourne?

NR – Mesmo em Melbourne. Às vezes vamos nos carros e os cangurus saltam para a estrada. É uma coisa impressionante.

MF – Apesar das limitações da pandemia, já conseguiu conhecer muita coisa fora de Melbourne?

NR – Nós somos adeptos daquelas tiny houses [n.d.r.: pequenas casas, normalmente de madeira] no meio da selva e sempre que podemos e tenho alguns dias de folga arrendamos uma casa no meio da natureza e fazemos umas caminhadas. Quando acabou o lockdown fomos até outro lado de Melbourne – Torquay e Geelong – onde visitámos um habitat de coalas, de avestruzes e de cangurus. Vimos baleias, leões-marinhos e golfinhos. Aconselho a quem puder cá vir.

MF – Bélgica, França, Grécia, Bulgária e Austrália. Onde se sentiu mais em casa?

NR – Aqui na Austrália, sem dúvida. Tem qualidade de vida, é o melhor país do Mundo em termos de educação e sinto-me seguro. E é como digo: como temos amigos aqui, dá sempre para falar um pouco de português. Há um ano que não vou a Portugal e é claro que sinto saudades da minha família, mas eles sabem que eu estou bem e se eles também estão bem, eu também estou.

MF – E onde se sentiu mais «deslocado»?

NR – Na Bulgária. Ainda têm uma mentalidade algo antiga de se acharem superiores aos estrangeiros e por vezes tratam-nos mal. Tive vários colegas brasileiros e portugueses – o Filipe Nascimento esteve lá comigo – e estávamos juntos sempre que podíamos. Mas é um país muito antiquado e pouco desenvolvido.

MF – Até quando tem contrato com o Melbourne City?

NR – Tenho ainda este ano e mais um de opção.

MF – E imagina-se a exercer esse ano de opção?

NR – Sinto-me bem, a minha família está bem e, se me quiserem aqui, claro.

MF – Imagina-se, por exemplo, a terminar a carreira na Austrália?

NR – Eu vou jogar até ter saúde. Seja aqui ou noutro lado. Não faço grandes previsões, mas seria bom se eu pudesse ficar aqui muitos anos e talvez terminar aqui.

MF – E viver aí depois de terminar a carreira?

NR – Isso é que é mais difícil, pelas saudades da família. Tudo dependerá também das minhas filhas, que já serão maiores e terão os amigos deles.

MF – Está com 30 anos, quase 31. Olhando para trás e fazendo uma retrospetiva da carreira, fica satisfeito com o que alcançou até hoje?

NR – Fico! Quando eu estava no Sporting tive um treinador, o Luís Dias, que dizia: «Os ‘ses’ são a pior coisa que vocês podem ter na vida. Não deixem nenhum ‘se’ por fazer.» E eu, até hoje, nunca deixei nenhum ‘se’ para trás. O que aconteceu deveu-se à minha qualidade, ao meu empenho e ao meu profissionalismo. Estou contente com o que alcancei.

MF – Não deixar nenhum ‘se’ por fazer é uma boa filosofia de vida.

NR – É. O nosso treinador falava muito nisso na altura e nós ríamo-nos. Mas quando chegamos aos juniores esses ‘ses’ começam a surgir. «Se tivesse feito aquilo daquela forma…?» O certo é que ele tinha razão.

Com Facundo Ferreyra (ex-Benfica) nos quartos de final do Mundial sub-20 em 2011: Portugal venceu no desempate por penáltis

MF – Fez praticamente toda a formação no Sporting, foi internacional por todos os escalões dos sub-16 aos sub-21 e era titular na seleção sub-20 que chegou até à final do Mundial sub-20 em 2011, mas não conseguiu afirmar-se no Sporting. Falhou alguma coisa?

NR – Se repararmos, na altura era muito mais difícil subir à equipa principal. Os clubes tinham um budget maior e olhavam de outra maneira para o futebol estrangeiro. Agora, como os estão mais limitados em termos de orçamento e veem a capacidade das academias para formar grandes jogadores, os clubes estão a fazer, na minha opinião, uma gestão mais inteligente. Não gastam, formam jogadores que sobem à equipa principal e vendem. Estão a conseguir mudar um pouco a mentalidade. Isso dá-se graças aos dirigentes e aos treinadores que lá estão: tudo parte da aposta do presidente, mas é preciso estar tudo em sintonia. E, claro, haver jogadores. No Benfica nem tanto agora, mas no Sporting e até no FC Porto isso está a ver-se. Na altura, quando eu era júnior e subi a sénior, uma equipa tinha no máximo dois jogadores formados no clube. Com exceção do Paulo Bento, que levou uns quatro jogadores para a equipa principal.

MF – (…)

NR – Havia mais distância para a equipa principal. Hoje, essa ponte está muito mais próxima.

MF – O jogador português é hoje mais valorizado até pelos clubes portugueses do que há década?

NR – Sem dúvida! Agora em Portugal olha-se para o jogador português como o jogador que se quer. Antigamente, quando se estava na dúvida entre um jogador estrangeiro e um português, escolhia-se o estrangeiro. Agora não: agora são os estrangeiros que olham para nós da mesma maneira que nós olhávamos para eles. Hoje vemos jogadores a fazerem poucos jogos e a darem um salto muito rápido para outras equipas, o que é bom e espelha o bom desempenho da nossa Seleção.

MF – Disse há pouco que nunca tinha deixado um ‘se’ para trás, mas tenho de recuperar um ‘se’. Sente que SE aquela final com o Brasil, no Mundial sub-20 em 2011, tivesse pendido para Portugal, o futuro de muitos jogadores dessa seleção teria sido outro? Com o selo de campeões do Mundo?

NR – Até poderia ter sido mas, se repararmos, a seguir ao Mundial ainda tivemos o Nélson Oliveira a jogar pela equipa principal do Benfica e a ir depois para Inglaterra, o Danilo a ir para o FC Porto, o Cédric Soares que apareceu no Sporting e foi campeão europeu, o Mário Rui, que chegou ao Nápoles, o Sérgio Oliveira, o Mika, o Roderick Miranda, que esteve bem no Wolves e no Olympiakos. Talvez pudesse dar mais um impulso, mas acho que o suficiente já estava feito, que foi chegar a uma final que ninguém esperava e que nos levou para um patamar diferente.

Contra a França na meia-final do Mundial sub-20. Portugal venceu por 2-0

MF – O contexto deste Sporting de Ruben Amorim seria o ideal para o Nuno Reis de há dez anos?

NR – Sem dúvida! Não tenho qualquer dúvida. Curiosamente, até cheguei a jogar contra ele quando eu estava no Olhanense. Notava-se que era um jogador muito profissional, humilde e muito comunicativo, que parece continuar a ser com os jogadores. E quando temos um treinador que já passou pelo nosso lado, que sabe do que é que precisamos, quando precisamos, que sabe o que fazer para nos motivar e que, quando é preciso, puxa as orelhas de uma maneira a não deitar o jogador abaixo, é tudo mais fácil. Foi uma aposta do presidente, que disseram que era maluco por pagar 10 milhões por um treinador sem currículo, mas está à vista de todos.

MF – Do que vê de fora, parece-lhe que essa sensibilidade que o Ruben parece demonstrar no trato com os jogadores é uma das grandes mais-valias dele?

NR – Pode ser, mas também há treinadores que o fazem de uma maneira diferente. Cada treinador tem a sua forma de ser. Eu fui treinado pelo Sérgio Conceição.

MF – No Olhanense?

NR – No Olhanense, sim. E posso dizer que nunca tive um treinador tão bom como ele. Dizem que o Sérgio Conceição está sempre a mandar vir e de cara feita.

MF – E dizem bem?

NR – O que ele é no jogo, é no treino, sempre com aquela cara de poucos amigos. É rigoroso e se vir que estamos a facilitar um milímetro chama à atenção e repete até que tenhamos a intensidade e a atitude certas. É a maneira dele. Mas é uma pessoa excelente, que compreende os jogadores e amiga fora do campo. E consegue, com a sua maneira muito própria de viver o futebol, manter os jogadores com ele, também porque ele é sempre o primeiro quando é para dar a cara pelos jogadores. Para fora passa a ideia de que é arrogante, mas não é.

Pelo Sporting após marcar um golo num jogo de pré-época contra o Benfica em 2013

MF – Voltando um pouco atrás, e para terminar, ficou alguma mágoa pelo facto de ter deixado o Sporting sem ter feito qualquer jogo oficial pela equipa principal?

NR – É natural que fiquemos mais tristes, claro. Quando vamos para a academia, o nosso sonho é sempre subir à equipa principal. Mas nunca se sabe o dia de amanhã. Pode surgir uma oportunidade como jogador ou como treinador. As pessoas daquela casa recordam-se do bom profissional que fui.

MF – Imagina-se a seguir carreira como treinador?

NR – Sinceramente não me estava a ver muito como treinador, mas a minha mulher está-me sempre a dizer para eu tirar o curso [risos]. Diz que eu tenho jeito e este ano vou começar a tirar o curso aqui na Austrália.

MF – E é mais estilo Conceição ou Amorim?

NR – [risos] Para ser sincero, acho que posso ser um bocado dos dois. Dependendo de como as coisas estiverem a correr. Às vezes também é preciso ter ‘nervo’ para quando as coisas não estiverem a correr tão bem. Mas veremos…

David Marques