108 internacionalizações pela Hungria ao longo de 18 anos: mais do que um histórico pela carreira na sua seleção (jogador com mais jogos a par de Dzsudzsák), Gábor Király tornou-se também um ícone do futebol mundial, pelas calças de fato de treino cinzentas, entre outras superstições, que se tornaram a sua imagem de marca.

No dia Portugal defrontar a seleção magiar, na Aréna Puskás, Király fala em exclusivo ao Maisfutebol sobre este jogo e sobre aquele célebre empate a três golos no Euro 2016, em que ele, mais velho jogador de sempre na competição, quase eliminou aqueles que haveriam de ser os futuros campeões da Europa.

Numa conversa entre Budapeste e Szombathely, já bem perto da fronteira com a Áustria, o antigo guarda-redes de 45 anos fala sobre o exemplo de Ronaldo e também sobre o seu amigo Mourinho, com quem conversava nos tempos em que ambos tinham os filhos a jogar nos escalões de formação do Fulham.

Falta também sobre a academia que criou na sua cidade e recorda as suas incríveis superstições: das tais calças cinzentas que viajavam sempre na sua bagagem às camisolas, com um tigre e com um número 13, até ao tema «It´s my life», dos Bon Jovi.

É assim a vida de Gábor Király. E ele faz questão de mostrar que a leva com um sorriso no rosto.

PARTE 1: «Naquele 3-3 no Hungria-Portugal tive noção de como Ronaldo gosta tanto de futebol»

Recordando a sua carreira. O Gabor ainda hoje é recordado como um ícone por aquelas calças de fato de treino cinzentas que usava. Tornou-se a sua imagem de marca?

Nos meus tempos de juventude, não havia bons relvados na Hungria, sobretudo para quem como eu jogava à baliza. Eram muito duros e eu queria «mergulhar» no relvado. Foi por isso que comecei a usar calças. Comecei como profissional em 1993 e passado três anos passei a usar as calças cinzentas. O nosso patrocinador tinha um par preto e outro cinzento. Eu usava o preto, claro. Mas uma vez esqueceram-se de as pôr para lavar e no dia seguinte era o jogo. Estava muito sujo. Perguntei se alguém me arranjava o outro par de calças pretas e disseram que essas já tinham sido usadas na véspera. Portanto, não tive alternativa a usar as cinzentas. Ganhámos nesse jogo. Estávamos mal na classificação e começámos a vencer. Durante nove jogos ninguém conseguiu bater-nos. E eu pensei: «Talvez estas calças cinzentas tragam sorte…» E fiquei com elas até ao fim da minha carreira. Depois tentei mudar para calções, mas as calças eram mais confortáveis. Calções não é para mim.

As famosas calças cinzentas: à conta da superstição Gábor Király criou a sua imagem de marca

E os clubes onde jogou tinham de pedir às marcas desportivas para fazerem para si de propósito calças cinzentas?

Claro. Nunca foi problema. E viajavam sempre comigo. Eu lavava-as em casa e levava na bagagem. Todos os anos usava uns vinte pares de calças cinzentas.

A camisola com um tigre era outra das suas superstições quando jogava?

Sim. E a camisola de basquetebol com o número 13. Sou um pouco louco. Tenho algumas crenças. É claro que tens de trabalhar, mas por vezes também tens de acreditar noutras coisas.

A camisola de basquetebol era de algum clube?

Não. Era só uma camisola comprida que usava por dentro para me proteger as costas e manter a roupa ajustada sempre que tinha de me atirar para o relvado.

E por dentro ainda tinha outra com o tigre?

Essa usava em todos os jogos, fosse inverno ou verão. O tigre é o meu animal favorito [é também o símbolo da academia de Gábor]. Por saltar, por caçar a bola... É também uma questão de pensamento motivacional.

Ouvir Bon Jovi antes de cada jogo era também superstição?

Sim. Desde 2000, quando foi lançado o tema «It’s my life» passou a ser a minha canção no aquecimento. Fosse no Hertha de Berlim, no 1860 Munique, no Crystal Palace, na seleção da Hungria… É uma música simples, com ritmo, boa para criar atmosfera. Colocavam-na nas colunas do estádio. A primeira canção quando entrava para aquecer era «It’s my life» dos Bon Jovi.

Para finalizar, é verdade que uma vez mandou a bola contra a barra da sua baliza de propósito para iniciar um contra-ataque?

É uma lenda. Eu consigo fazê-lo. No treino fi-lo diversas vezes, mas no jogo não. Por uma questão de respeito pelo adversário.

Sérgio Pires / Enviado especial do Maisfutebol ao Euro 2020