108 internacionalizações pela Hungria ao longo de 18 anos: mais do que um histórico pela carreira na sua seleção (jogador com mais jogos a par de Dzsudzsák), Gábor Király tornou-se também um ícone do futebol mundial, pelas calças de fato de treino cinzentas, entre outras superstições, que se tornaram a sua imagem de marca.

No dia Portugal defrontar a seleção magiar, na Aréna Puskás, Király fala em exclusivo ao Maisfutebol sobre este jogo e sobre aquele célebre empate a três golos no Euro 2016, em que ele, mais velho jogador de sempre na competição, quase eliminou aqueles que haveriam de ser os futuros campeões da Europa.

Numa conversa entre Budapeste e Szombathely, já bem perto da fronteira com a Áustria, o antigo guarda-redes de 45 anos fala sobre o exemplo de Ronaldo e também sobre o seu amigo Mourinho, com quem conversava nos tempos em que ambos tinham os filhos a jogar nos escalões de formação do Fulham.

Falta também sobre a academia que criou na sua cidade e recorda as suas incríveis superstições: das tais calças cinzentas que viajavam sempre na sua bagagem às camisolas, com um tigre e com um número 13, até ao tema «It´s my life», dos Bon Jovi.

É assim a vida de Gábor Király. E ele faz questão de mostrar que a leva com um sorriso no rosto.

PARTE 2: Calças cinzentas, o tigre, o 13 e Bon Jovi: as superstições de Király

Percurso de Gábor Király: Haladás (1993–1997), Hertha Berlim (1997–2004), Crystal Palace (2004–2007), West Ham (2006), Aston Villa (2006/07), Burnley (2007/09), Bayer Leverkusen (2009); 1860 Munich (2009–2014), Fulham (2014–2015) e Haladás (2015–2019).

Jogou contra Portugal naquele alucinante empate 3-3 no Euro 2016. O que se recorda desse jogo?

Lembro-me que estava muito calor no estádio. Foi um grande jogo para os adeptos. Seis golos! Estivemos umas vezes acima, outras abaixo, mas acabou por ser positivo porque terminámos o grupo em primeiro.

A Hungria esteve quase a eliminar Portugal, que acabaria por ser campeão…

É futebol! É por isso que gostamos dele. Tudo pode mudar num instante.

Nesse jogo, não foi fácil parar Cristiano Ronaldo, que bisou, pois não?

Após o terceiro golo da Hungria, o Cristiano estava muito zangado. Aí, tive noção perfeita de como ele gosta tanto de futebol. Ele tem tudo, mas quer ganhar um simples jogo. Não importa em que jogo, em que rua. Ele quer ganhar! É essa a grande lição. Não interessa só mostrar os carros, os apartamentos, a vida boa… Isso é bom? Claro. Mas ele trabalha no duro. Nesse Europeu mostrou o seu espírito, mostrou a grande pessoa que é e isso é incrível.

E desta vez, o que espera deste primeiro jogo da Hungria contra Portugal?

É o primeiro jogo no grupo e será muito difícil para Portugal e para a Hungria. Não temos nenhuma «radiografia», nenhum «feeling» sobre o adversário. A Hungria joga em casa, perante 60 mil adeptos, que têm de ajudar a equipa e não ser um fator de pressão. Se isso acontecer, talvez possamos ganhar. Portugal tem muitos jogadores num nível alto e tem mais individualidades que podem decidir o jogo. A equipa húngara tem de jogar como equipa.

Arrisca algum prognóstico?

Vou ver o jogo no estádio. Não arrisco um resultado, mas neste jogo a Hungria tem de vencer. Nos próximos dois, Portugal está à vontade…

Esta equipa portuguesa é melhor do que aquela que defrontou em 2016?

Acho que talvez esta equipa não seja tão experiente, mas seja mais poderosa do que a de 2016. Teremos de ver no jogo como ambas as equipas se vão apresentar em campo.

Além disso, já havia jogado contra a seleção portuguesa em 2009 e até em 1999 e 1998…

Sim, contra o Figo, Rui Costa, João Pinto, Vítor Baía… Outra grande geração.

É o jogador mais velho a jogar num Europeu, com 40 anos e 86 dias. É um orgulho para si, não?

Sem dúvida. Todos os recordes acabarão por ser batidos. Se não for neste Europeu, será no próximo. Mas fiquei muito feliz por fazer parte desta grande celebração do futebol.

Király despediu-se da seleção húngara em 2016, neste jogo contra a Suécia, aos 40 anos de idade

Em Inglaterra tornou-se amigo de José Mourinho porque ambos tinham os filhos a jogar nos escalões de formação do Fulham. Como aconteceu isso?

O filho dele jogava nos sub-14 e o meu nos sub-11. E nós estávamos ali, como pais junto ao relvado. Depois das 18 horas, encontrávamo-nos quando já não estava mais ninguém a ver o treino, só os pais dos miúdos que eram guarda-redes. E só dois pais se conheciam entre si: eu e o Mourinho. Encontrámo-nos também muitas vezes em campo. O FC Porto cruzou-se com o Hertha de Berlim na Liga dos Campeões. Mais tarde, em Inglaterra, joguei três vezes contra o Chelsea por três clubes diferentes: um jogo particular pelo Crystal Palace, passado uma semana assinei pelo West Ham e defrontámos o Chelsea e a seguir mudei-me para o Aston Villa e voltei a jogar contra o Chelsea. O Mourinho disse-me: «Estás em todo o lado!» Foi muito engraçado. [risos]

Depois e ter jogado na Bundesliga e na Premier League, terminou a sua carreira no Haladás, de Szombathely. Sempre teve essa ambição de deixar o futebol no clube da sua cidade?

O meu plano era fazer um jogo apenas pelo Haladás. Comecei lá aos cinco anos. Com 21 anos mudei-me para a Alemanha. Depois de 18 anos, regressei à minha terra com 39. Era uma sensação nova acordar na minha própria casa, sem necessidade de viajar, estar ali com a minha família, com os meus pais, com os meus amigos. Era um sentimento muito bom. Queria só fazer um jogo, mas fiz mais 108. No total, joguei mais de 200 pelo clube da minha cidade.

Gábor Király no clube fundado por si, que tem como símbolo um tigre

Criou a sua academia de guarda-redes em Szombathely. É o grande desígnio da sua carreira após deixar de jogar?

Em 2006, comecei este projeto e quando voltei à Hungria, em 2015, eu passei a acompanhá-lo de forma quase diária. Depois de deixar o futebol passei a ter uma presença permanente. Tinha 26, 27 anos, comecei a construir do zero a academia. Agora, temos o nosso clube de futebol e vários campos, e não apenas uma escola de guarda-redes. É dos 5 anos até à idade adulta, são mais de 250 crianças e 22 treinadores. E temos parecerias com alguns clubes, como o Hertha de Berlim e o Leverkusen. [Király jogou em ambos] É uma boa forma de continuar ligado ao futebol.

E esses miúdos querem ser como o Gábor?

Sim. Claro que o mais importante é apontar-lhes o caminho. Dou-lhes o exemplo do Cristiano Ronaldo: ele não compra os músculos no supermercado, ele tem de trabalhar. E é isso que eles têm também de fazer.

Sérgio Pires / Enviado especial do Maisfutebol ao Euro 2020