A tarde era de festa. A Dinamarca fazia o primeiro jogo no Euro 2020 a jogar em casa. A Finlândia estreava-se em Campeonatos da Europa.

Mas aos 41 minutos de jogo, tudo mudou. Christian Eriksen, estrela dos dinamarqueses, caiu inanimado em campo e deixou o mundo do futebol em pânico. As perspetivas não eram inovadoras. O médio do Inter de Milão lutava pela vida enquanto recebia manobras de reanimação dos profissionais de saúde presentes no relvado.

De repente, o futebol, a coisa mais importante das coisas menos importantes da vida, já dizia Arrigo Sachi, passou para segundo plano.

Eriksen seguiu para o hospital, os minutos foram passando e a ansiedade não reduzia. Até que as boas notícias começaram a chegar. Primeiro uma foto na qual se via o futebolista acordado. Depois a confirmação da federação dinamarquesa de que o médio de 29 anos estava acordado e estável.

Segundo a imprensa, Eriksen falou com os companheiros por vídeochamada e pediu-lhes que retomassem o jogo. Kjaer, Schmeichel e companhia assim o fizeram.

O FILME E A FICHA DE JOGO.

Passado o susto, a bola voltou a rolar. O golo da tarde e a vitória, no entanto, já haviam sido garantidos por Eriksen e pelos médicos heroicos que prontamente o assistiram.

Em campo, nos 49 minutos restantes da partida, mais compensação, foi a Finlândia a sorrir – timidamente, no entanto.

Talvez emocionalmente mais sólidos, uma vez que é impossível que os atletas dinamarqueses não tenham ficado afetados com a situação de Eriksen, os finlandeses estrearam-se da melhor maneira a jogarem no maior palco de seleções do futebol europeu.

Como acima referido, a Dinamarca foi uma sombra de si própria na etapa complementar, depois de uns primeiros 41 minutos em que dominaram por completo o adversário. E isso notou-se até de forma individual.

Schmeichel não fica bem na figura no golo histórico da Finlândia, da autoria de Pohjanpalo, à passagem da hora de jogo. Hobjberg foi displicente na forma como bateu o penálti a 15 minutos do fim, permitindo a defesa de Hradecky – que exibição do guarda-redes do Bayer Leverkusen.

E assim a Finlândia fica com os três pontos e sobe à condição ao primeiro lugar do grupo B, mas isso é o menos importante que há a retirar desta tarde/noite que se viveu em Copenhaga. Eriksen está vivo e, segundo as mais recentes informações, a progredir favoravelmente. Isso, sim, importa.

Isso e as imagens que este episódio nos deixa: os jogadores dinamarqueses a protegerem a privacidade do colega de equipa enquanto este era assistido no relvado, o mundo do futebol a unir-se pelos quatro cantos do globo, os adeptos das duas seleções a gritarem pelo médio do Inter, os aplausos dos futebolistas finlandeses quando a equipa da Dinamarca regressou de forma heróica ao relvado, e até a contenção de Pohjanpalo aquando do festejo do golo histórico da Finlândia, demonstrando respeito pela situação.

Até porque, já dizia Sachi, o futebol é a coisa mais importante das coisas menos importantes da vida, e a vida surge sempre em primeiro lugar. E mesmo perante o susto de Eriksen, Copenhaga viveu uma tarde de humanismo exemplar. E isso também é história do desporto rei.

Rafael Vaz