Acidente à primeira curva, uma volta de avanço, ultrapassagem, uma longa paragem nas boxes e segurança na reta final. A corrida para o título do FC Porto foi feita de trás para a frente e a diferença de andamento acabou por se notar tanto que a meta até foi cortada antes do final.

Uma recuperação insólita de uma equipa que parecia na iminência de ser encostada à berma pelo rival, mas acabou por resistir e sair na frente, provando que tem espírito competitivo para dar e vender.

Estes foram os dez momentos decisivos do 29.º campeonato do FC Porto.

1 – Entrada a baixar a crista

Foi em Barcelos que começou a semana «horribilis» do FC Porto no arranque da época. Os dragões baixaram a crista com uma entrada a perder no campeonato, diante do regressado Gil Vicente, que antecedeu o golpe de teatro que viria a consumar-se três dias depois: uma reviravolta do Krasnodar no Dragão, com sérios prejuízos desportivos e financeiros. O adeus portista à Champions, ainda na soleira da porta, provocou um rombo de 40 milhões e um sério abalo de confiança. Na Liga, nada pior do que começar com três pontos de atraso para o rival, em vésperas de o visitar.

2 – Então, fez-se Luz

Como a caminhada de um condenado para o cadafalso. Não faltava quem visse assim a visita de um FC Porto em crise de confiança a casa do campeão Benfica, que poderia, em caso de vitória, abrir uma vantagem de seis pontos logo à 3.ª jornada. Sérgio Conceição e a sua equipa, porém, não estavam convencidos do destino que lhe parecia traçado. Então, fez-se Luz. O FC Porto fez uma das mais notáveis exibições da época e, numa clara mostra de superioridade, bateu o rival no seu reduto (2-0). Um momento de redenção.

3 – Marega e Tiquinho matam borrego

Mesmo sem o brilhantismo da Luz, o FC Porto voltou a mostrar-se à altura dos jogos grandes. Onze anos depois, os dragões venceram de novo em Alvalade. Marega e Tiquinho mataram o maior dos borregos portistas das últimas épocas. Mesmo assim, no início de janeiro, a liderança continuava à distância de quatro pontos e um percalço maior estava prestes a acontecer.

4 – Braga da porta aberta

No espaço de uma semana, dois desaires perante o mesmo adversário. O Sp. Braga de Rúben Amorim havia batido o FC Porto no Dragão (2-1) e deixado os azuis e brancos a sete pontos do líder Benfica, no final da primeira volta. O título parecia distante, como meio campeonato por disputar, mas outro havia de esfumar-se oito dias depois: os minhotos venceram de novo o FC Porto e conquistaram a Taça da Liga. No fim do jogo, Sérgio Conceição colocaria o lugar à disposição.

5 – O clássico da viragem

Novo duelo contra o Benfica, nova prova de vitalidade do FC Porto. Se na Luz Conceição mostrou que podia superiorizar-se nitidamente no confronto direto com Bruno Lage, no Dragão o triunfo repetiu-se, embora sob uma pressão ainda maior: se o FC Porto perdesse em casa, ficaria a 10 pontos da liderança e praticamente diria adeus ao título a 14 jornadas do fim. Ao invés, deu-se a viragem. Uma vitória suada frente a um Benfica que deu mostras de intranquilidade e acabaria por tremer nas jornadas seguintes.

6 – A vitória de Marega

Ao minuto 70, Marega decidiu dizer basta. O maliano marcou o golo do triunfo portista e acossado por insultos racistas vindos da bancada deu a única resposta digna: abandonar o relvado e exibir em toda a plenitude a estupidez humana. A imagem marcou o campeonato, mas o jogo também teve a sua importância nas contas do título: uma jornada apenas depois de salvar o «match point» frente ao Benfica, o FC Porto encurtou a diferença para apenas um ponto, beneficiando da derrota caseira dos encarnados frente ao Sp. Braga.

7 – Ultrapassar antes de parar

2 de março de 2020: o dia da ultrapassagem. O FC Porto venceu o Santa Clara nos Açores e acabaria a noite no topo da Liga. Tudo porque logo a seguir o Benfica voltou a borregar e, na Luz, não iria além de um empate com o Moreirense. Em seis jornadas apenas, o FC Porto recuperou oito pontos ao rival e passou a comandar a Liga. Um ponto e vantagem no confronto direto: seria nesta condição que os dragões partiriam para a longa paragem competitiva, motivada pela pandemia.

8 – Déjà vu minhoto

Depois de uma longa paragem de quase três meses, a competição regressou e o FC Porto entrou de novo com o pé esquerdo. Tal como na jornada 1, em Barcelos, o FC Porto voltou a perder fora, no Minho, por 2-1, frente a um recém-promovido. A derrota em Famalicão só não fez maior mossa, porém, porque o Benfica não foi além de um empate em casa frente ao Tondela, desperdiçando a única hipótese que dispôs de ultrapassar pontualmente os dragões nesta reta final.

9 – A rendição de Lage

O FC Porto agarrou-se ao espírito competitivo e assistiu ao lento soçobrar do rival. A jornada 29, torna-se decisiva na corrida pelo título. A derrota por 2-0 na Madeira dita a demissão de Bruno Lage. Nessa noite, o FC Porto segura uma difícil vitória em Paços de Ferreira, por 1-0, e fica com seis pontos de vantagem a cinco jornadas do fim. Simbolicamente, o campeonato termina aqui, apesar de a vantagem ainda aumentar um pouco mais.

10 – Consagração em modo clássico

A consagração frente ao rival Sporting vale o título com ainda duas jornadas por disputar. De sete pontos de atraso no fim da primeira volta, para oito de vantagem. Conceição iguala o «grand slam» de Mourinho, de vencer os quatro clássicos na mesma época. E Rúben Amorim perde pela primeira vez nas competições nacionais. 

Sérgio Pires