O coração quase traiu Casillas, deixando o mundo desportivo em sobressalto.

O guarda-redes do FC Porto sofreu um enfarte do miocárdio e, apesar de não ter tido sequelas, poderá ter a carreira em risco.

De momento, certo é que a época desportiva terminou para Iker e, no imediato, as portas da baliza abrem-se de par em par para a titularidade de Vaná, o homem que durante toda a época se sentou no banco dos dragões. Tanto mais se considerarmos que também Fabiano, terceiro guarda-redes na hierarquia estipulada por Sérgio Conceição, se encontra lesionado.

Chegou a hora de Vanailson Luciano de Souza Alves.  

Aos 28 anos, Vaná será o mais que provável titular da baliza do FC Porto já no sábado na receção ao Desp. Aves, da 32.ª jornada da Liga.

Antes de ser concorrente pelo lugar, Vaná já era fã de Casillas, garante em conversa com o Maisfutebol Vinícius, o seu irmão mais velho.

«Conversámos ontem e o Vaná ainda estava abalado, um pouco assustado até. Ele estava surpreendido pelo que aconteceu no treino. Além de colega de equipa, o Casillas é uma referência para o meu irmão. Ele diz-me por vezes: “Como o Casillas é inteligente… Que leitura de jogo que ele tem! Vinícius, ele parece que tem um íman na bola vem até ele. Ele sabe onde ela vai!” [risos] O meu irmão está a competir com aquela que é maior lenda das balizas, juntamente com o Buffon. Vive um sonho e ao mesmo tempo uma aprendizagem, sempre com aquela esperança de estar pronto quando a sua hora chegar», salienta Vinícius, antes de recuar no tempo para revelar uma estranha coincidência que marcou a adolescência do guarda-redes do FC Porto e dos seus irmãos.

O pai de Vaná, Vinícius e Vailson teve um enfarte em casa, em frente aos seus três filhos.

«Estávamos os três irmãos em casa quando o nosso pai teve um enfarte gravíssimo. Colocámo-lo dentro do carro e levámo-lo para o hospital. Se tivéssemos demorado mais uns minutos, não teria dado tempo para o salvar. Foi Deus! Ficou 15 dias em coma até recuperar. Ficou apenas com 38 por cento do coração a funcionar», conta Vinícius, revelando que esse episódio quase fez Vaná desistir do futebol:

«Ele jogava noutro estado, longe de casa, nas categorias de base do Atlético Paranaense. Queria deixar o clube para ficar perto do pai e da mãe. Ainda me lembro dele, com 14 para 15 anos, entrar no autocarro a chorar, não queria ir embora de casa e voltar ao clube. Toda a família ficou abalada. Eu, como irmão mais velho, disse-lhe: “Podes seguir o seu caminho que eu seguro a onda.” E deixei eu o futebol para ele continuar.»

O problema de saúde do pai, a que se juntava a arritmia da mãe, assustou os três irmãos de Planaltina, cidade nos arredores da capital federal Brasília.

«Depois desse episódio, o médico fez um check-up a todos. “Vaná, temos de fazer um exame.” A nossa mãe teve uma arritmia e quando o nosso pai teve um enfarte… Tinha de ser. Felizmente, não tinha qualquer problema connosco ou com o coração dele.»

Peçanha: «Ele que não pense no Casillas e dará conta do recado»

Agora, «infelizmente», sublinha Vinícius, foi precisamente este problema de saúde de Casillas a dar a oportunidade que Vaná desejava há muito.

Contratado em 2017/18 ao Feirense, o guarda-redes brasileiro fez até ao momento cinco jogos esta época pelo FC Porto – todos na Taça da Liga –, depois de na temporada anterior ter apenas jogado 10 minutos na última jornada, no jogo de consagração do campeão nacional frente ao V. Guimarães.

Peçanha, que perdeu a titularidade para Vaná, em 2016/17, quando ambos competiam pelo lugar na baliza do Feirense, reconhece que o seu ex-colega de equipa tem tudo para cumprir a missão de substituir Casillas, desde que não pense demasiado na responsabilidade que tem sobre os ombros.

«Agora vai chegar a oportunidade dele e vem o desafio maior. Não vai ser fácil. Jogar no FC Porto não é igual a jogar noutros clubes e substituir Casillas ainda menos. Se me permite o conselho: ele não deve pensar no Casillas. Não pode carregar todo esse peso nas costas se quiser sentir-se confiante. A nível psicológico poderia afetar. Mas conheço bem o Vaná e acredito que ele tem tudo para dar conta do recado», afirma o agora guarda-redes da Académica, acrescentando: «O Vaná tem uma técnica acima da média, é alto, ágil... Um excelente profissional e como pessoa é cinco estrelas: tenta sempre brincar com os companheiros. É muito saudável ter alguém como ele no balneário.»

Se Peçanha acredita que Vaná tomará conta do recado, a Vinícius quase escusado seria perguntar.

Ele, dois anos mais velho que o benjamim da família, conta que o irmão Vaná «pezudo e grandão» com quem jogava no campo de terra de Planaltina – como pode ler nesta reportagem do Maisfutebol –, é desde criança assim: «Sempre foi muito dedicado. Quando precisavam dele, ele estava pronto. E desde criança já fazia coisas inacreditáveis na baliza: “Não acredito que ele pegou essa bola”, dizíamos em algumas defesas dele.»

Quando precisarem, ele está pronto. Era assim em criança, foi assim quando chegou o primeiro grande desafio como profissional.

«Não é a primeira vez que acontece ser chamado assim, como poderá agora acontecer no FC Porto. No Coritiba, a faltar duas jornadas para o final do campeonato, o pai do guarda-redes titular faleceu e o Vaná teve de entrar na equipa nas mesmas condições: esteve o ano todo sem jogar, até que foi chamado do nada. Na altura, o Coritiba tinha de vencer os dois jogos e torcer por um empate de um adversário para não descer. E deu tudo certo. Agora, o FC Porto tem de vencer três jogos para ser campeão e torcer para o Benfica perder um. «Ele lembrou-se desse desafio no Coritiba quando ontem conversámos e disse: “Será que Deus vai escrever de novo essa página na minha vida?”»

Sérgio Pires