A taxa de desemprego em Portugal pode atingir um nível superior a 10 por cento da população activa, estimou o economista João Ferreira do Amaral num estudo divulgado esta quinta-feira.

«Salvo qualquer recuperação rápida que não está neste momento no horizonte, é muito plausível que a taxa de desemprego em Portugal possa atingir um nível superior a 10 por cento da população activa», refere o economista no estudo apresentado numa conferência internacional da UGT.

«Se tal vier a suceder porá problemas novos à sociedade portuguesa e obrigará a intensificar, de forma clara, as políticas de apoio aos desempregados e de reforço da melhoria da empregabilidade dos que se encontram no desemprego».

Intitulado «Estudo sobre a Evolução Recente e o Futuro da Economia Portuguesa», o documento mostra que o desenrolar da actual crise ao contagiar a economia real a partir da crise financeira provocou «uma quebra geral da actividade económica, que ainda persiste e que tem feito aumentar rapidamente o número de desempregados».

Segundo João Ferreira do Amaral, ainda é contudo cedo para antever até onde irá a quebra da actividade e o consequente aumento do desemprego a nível mundial.

No que respeita a Portugal, diz, a queda da actividade é «pronunciada» e o aumento do desemprego é também «claramente visível».

Num contexto «difícil» como o actual, especial motivo de preocupação no entender do economista será o reaparecimento de «reacções xenófobas relativamente aos imigrantes».

«Tais reacções afectarão os emigrantes portugueses em especial na Europa mas também os imigrantes em Portugal».

Para o docente do ISEG, a concertação europeia de políticas de combate a estas reacções é «uma necessidade que se adensará à medida que o desemprego aumenta».

No estudo, João Ferreira do Amaral sublinha ainda algumas debilidades da economia portuguesa decorrentes da perda de competitividade e da estagnação económica.

«O facto do nível médio de vida da população portuguesa ter praticamente estagnado desde o início do século significa que muitas das famílias portuguesas viram reduzir o seu nível de vida e portanto não têm muita margem para enfrentar as consequências de uma crise económica que se prevê profunda e prolongada».

Por outro lado, continua, a perda de competitividade gerou um «elevadíssimo nível de endividamento externo», que se torna muito mais difícil de financiar nas actuais circunstâncias e que teve como contrapartida um correspondente elevado nível de endividamento interno.

Este alto nível de endividamento interno, «muito mais difícil de suportar dadas as restrições ao crédito decorrentes da crise» vai por isso limitar ainda mais a possibilidade de crescimento da procura interna.

Face a estas debilidades, no entender de João Ferreira do Amaral, existe neste momento «o sério risco da economia portuguesa entrar em recessão profunda, possivelmente mesmo em depressão».

O que a política económica portuguesa poderá fazer para minorar estes riscos é usar a política orçamental reduzindo impostos e ou aumentando a despesa, em particular de investime1nto e de apoio ao emprego e aos desempregados para estimular a procura interna e evitar na medida do possível um aumento muito grande do desemprego.

O que pode fazer além disso é usar a Caixa Geral de Depósitos para aumentar o crédito às empresas e facilitar a solvência das famílias mais endividadas.
Redação / JF