De manhã começa o dia. Mais precisamente às 7h30. Alexandrina Miranda mal sai de casa e já está no trabalho. Não vive numa moradia ou num condomínio. Mora com o marido e os filhos no Estádio dos Arcos, em Vila do Conde. E trabalha lá também. É responsável pela lavandaria e pelos pequenos-almoços do Rio Ave.

Define a sua profissão principal como operadora de máquinas de lavar, mas faz o que estiver ao seu alcance para que nada falte à equipa.

«Vivo no estádio desde que foi construído – por baixo do setor da bancada onde agora estão os visitantes. Em dias de jogo, quando saltam ou até partem cadeiras, sinto tudo. É que o meu teto fica mesmo por baixo. Mas, de resto, é uma casa normal. Os amigos dos meus filhos, quando eles eram pequenos, gostavam de cá vir para verem no teto os degraus da bancada, achavam giro aquilo», começa por contar ao Maisfutebol esta barcelense de 56 anos, que trabalha no clube e mora nas instalações desde 1984, quando o Campo da Avenida deu lugar aos Arcos, que já foi construído a contar com a habitação dos caseiros.

A longa ligação começou quando o Rio Ave precisou de um casal para fazer a manutenção do relvado: regar à noite, esperar que não estivesse vento… Apareceram Alexandrina e o seu marido: «Às vezes, eram duas da manhã e estávamos os dois sentados na bancada à espera que o vento parasse para regar. Isto porque com o vento a água não cruzava, não chegava ao meio-campo e o relvado ficava seco e estragava-se. Ficámos responsáveis pelas instalações. Fazíamos a limpeza aos balneários, limpava as bancadas, furava e marcava o campo…»

Recorda e volta ao início: «As pessoas acham estranho eu dizer isto, mas viver num estádio é muito bom. “Mora no estádio? Ah, que engraçado”, dizem-me quando dou a minha morada.»

Pequeno-almoço e roupa lavada

Entretanto, o marido passou a trabalhar na Câmara Municipal e dois anos depois de se instalar Alexandrina mudou de funções. Passou para «senhora da manutenção». Trabalha desde então na lavandaria do clube e agora trata também dos pequenos-almoços do plantel principal comandado por Carlos Carvalhal.

«É tudo feito aqui, mas temos uma ementa que obedece a regras muito específicas sob orientação do nosso nutricionista: cereais integrais, pão de água ou de centeio, leite e iogurtes magros, queijo magro, fiambre, fruta, ovos cozidos… E os jogadores têm de cumprir à risca. Há um horário do pequeno-almoço, das 9h às 9h30 e a partir daí não há nada para ninguém. Se vierem pedir, não dou. Sou má [risos]», diz, atalhando em seguida: «Mas eles são uns queridos. Às vezes, pedem-me uma compota, sei lá, de figo, por exemplo… E lá vai a Alexandrina às compras atrás de uma compota de figo. Compro, mas aviso o doutor», revela a mulher que começa o dia na hotelaria e acaba na lavandaria: «São centenas de equipamentos! Hoje tenho 20 equipas da formação, mais seniores, mais sub-23, mais o futsal… Cada lavagem tem 15 a 20 minutos e em média faço 20 máquinas de roupa por dia. Atenção, máquinas industriais! Não há um dia em que diga: “Hoje não tenho roupa para lavar.”»

De todas as camisolas que lhe passaram pelas mãos, há alguma mais bonita? «Gostei muito de um equipamento que tivemos da Liga Europa, com as faixas mais largas. E gostei também de um alternativo com vermelho e amarelo, as cores da cidade de Vila do Conde.»

A única camisola que a apoquentou foi aquela que um dia, há muitos anos, desapareceu pouco antes de um jogo da equipa principal: «Entrei em pânico. Chamei o presidente e toda a gente para tentar resolver. Desapareceu. Passado umas horas soube que alguém tinha pegado e que a camisola estava a caminho do aeroporto. A partir daí, comecei a entregar-se os equipamentos dois dias antes.»

Desmaios e ataques de choro pelo Rio Ave

Com uma simpatia contagiante, Alexandrina confessa que não falha um jogo nos Arcos. Pudera. «Não apanho trânsito para cá chegar… [risos]»

Quem mora no estádio tem de viver intensamente o Rio Ave. É até desmaiar, como aconteceu a 28 de agosto de 2014, quando aos 92m Esmael Gonçalves marcou um golo ao Elfsborg que valeu a qualificação para a Liga Europa: «Desmaiei ali nos camarotes. Estava a roer as unhas, nervosa com estarmos quase a ser eliminados e de repente entra a bola na baliza! Só me lembro de dar um salto, um grito e… no momento seguinte já estava no sofá, toda a gente à minha volta a dar-me água com açúcar. Apaguei, com certeza. [risos]»

Outro jogo que lhe ficou gravado na memória aconteceu pouco tempo antes, a 7 de maio de 2014, na final da Taça da Liga frente ao Benfica: «Chorei quando vi o nosso símbolo no relvado ao lado do do Benfica. Aquilo foi uma emoção! Deu-me um ataque de choro tão grande que me abracei a uma amiga e ficámos ali. Estava cá há muitos anos e nunca tinha visto uma final ao vivo. Ao ver ali o símbolo do meu clube… marcou-me muito. Vivo muito intensamente cada momento do clube. Às vezes, nem vejo consigo ver o jogo, mas fico a olhar para todo aquele ambiente.»

Houve também gente que lhe deixou boas recordações: Pedro Martins, Nuno Espírito Santo, Carlos Brito. «Chorei algumas vezes agarrada ao Carlos Brito ali na nossa sede, na Praça da República. E quando subimos de divisão fui esperá-lo à ponte [à entrada de Vila do Conde]», lembra, recordando pouco depois que também houve momentos em que não teve outro remédio que não fosse rir: «Às vezes, os jogadores fazem-me partidas. Por exemplo, o Ukra no aniversário dele encheu-me o balneário com confettis e serpentinas. No dia seguinte, lá veio ele: “Oh Dona Alexandrina, desculpe. Eu sei que lhe dei muito trabalho”. E eu: “Está bem. Podes voltar a fazer para o ano.” E ele fez.»

Alexandrina vive com entusiasmo e fala com o sentimento de quem faz parte da essência e da história do clube. Não é por acaso que na gala dos 75 anos foi premiada como funcionária do ano.

«Sinto-me orgulhosa por trabalhar aqui. É a minha segunda família», diz.

Numa era de estádios modernos e serviços externos, Alexandrina encarna a alma do clube a cada tarefa diária. Um exemplo de dedicação que resiste aos novos tempos: «Onde me imagino daqui por uns anos? Gostava de continuar aqui.»

Sim, mas até quando? «Enquanto eu puder. Enquanto me quiserem cá.»

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Fora do jogo é uma rubrica do Maisfutebol que dá voz a agentes desportivos sem participação direta no jogo. Relatos de quem vive por dentro o dia a dia dos clubes e faz o trabalho invisível longe do espaço mediático. Críticas e sugestões para smpires@mediacapital.pt ou vem.externo@medcap.pt.

Artigo original: 10-03; 23h50

Sérgio Pires