Cada trabalho, por mais pequeno ou desconhecido que seja, é vital no sucesso ou insucesso de um clube. O palco é dos jogadores e atrás das cortinas estão aqueles que trabalham silenciosamente na sombra.

Justamente atrás de uma das bancadas do estádio do Famalicão, está o renovado gabinete do departamento de scouting do Famalicão que é, desde julho, constituído por Flávio Costa, Vicente Portal e Vítor Lima. O cenário que encontrámos é sintomático do trabalho que se faz: computadores, folhas preenchidas e uma televisão. 

O ritmo e volume de trabalho é mais calmo por comparação com o mercado de verão. Afinal, esta equipa de scouting dissecou cada membro do plantel famalicense. Por isso, quota parte da liderança do Famalicão resulta do que se fez naquela sala.

«Estamos numa situação um pouco diferente. Quando chegámos tínhamos necessidade de ter tudo a uma velocidade brutal. Tínhamos uma meta a cumprir, que era o fecho  do mercado. A maioria dos jogadores, que tiveram grande mérito na subida à Liga, não tinham algumas das condições que queríamos para o projeto. Desconstruímos um plantel e construímos outro. Acha que deu muito trabalho? Deu o dobro», começa por dizer Flávio Costa, o chief-scout do clube.

A pergunta seguinte, caro leitor, é obrigatória. Afinal, como trabalha um departamento de scouting quando o mercado está aberto?

«O verão foi atípico e de muito trabalho. Tivemos de nos adaptar, reunir informação que já tínhamos acerca de jogadores de elevada qualidade, etc. Como crescemos muito rápido, temos outro tipo de necessidades. Normalmente chegamos por volta das 9h30 e não temos hora de saída. Pode ser às 18h00 como à meia noite. No verão não saímos nenhum dia antes das 20h00», conta o antigo scout do Benfica e do Estoril antes de alertar para algumas especificidades da profissão.

«Temos de estar preparados 24 horas por dia, porque as oportunidades surgem a toda a hora. Por vezes, a direção pede-nos uma observação rápida e temos de saber responder. Posso dizer que já concluí observações de jogadores de madrugada, enviei a decisão [de contratar] às três e meia da manhã.»
 

Local de trabalho do departamento de scouting do Famalicão


A carga horária e a rotina variam em função das necessidades, portanto. Ao mesmo tempo, o trabalho desenvolvido não seguiu as linhas condutoras idealizadas em virtude da especificidade do momento. O departamento de scouting iniciou funções em julho e precisou, por isso, de alterar o processo de recrutamento.

«Esta pré-época foi diferente. O clube estava munido de scouts, havia informação, mas não havia tratamento e gestão dessa mesma informação. Adaptámos a informação que tínhamos, reunidos entre nós, ouvimos a direção e fizemos uma triagem para tirar conclusões», esclarece Flávio.

Atualmente o trio de scouts do Famalicão está a preparar caminho para atingir o modelo idealizado de trabalho.

«O projeto ideal passa por três fases: deteção, seleção e contratação. Esta última etapa envolve mais a liderança do departamento de scouting, a direção e a equipa técnica. Muitas vezes chegamos a uma lista de quatro jogadores, até sem os definir numa ordem de ranking. A triagem é feita em função das questões contratuais. O objetivo é chegar a um produto final com o maior filtro possível», acrescenta Flávio.

A deteção, seleção e análise não respeita normas como o próprio Vítor Lima sublinha. «Não há um padrão. Para alguns jogadores levamos muito mais tempo, para outros menos. Para bons e para os maus. Alguns olhamos dois ou três minutos (risos).»

Existe sim, contextos perfeitamente identificados que este departamento de scouting analisa para chegar a conclusões.

«Procuramos ver um contexto facilitado, ou seja, jogos nos quais a equipa do jogador ganhou ou contra equipas da parte inferior da tabela. Também analisamos contextos de dificuldade maior, contra líderes dos campeonatos e contextos confortáveis e desconfortáveis. Este último ponto afere a capacidade mental do jogador. Numa fase mais adiantada, temos preocupação de ver a tomada de decisão do jogador a partir do minuto 70», diz Flávio.

Na etapa final, entenda-se, na validação da contratação do jogador, Flávio defende a necessidade do scout sentir conforto. «Se existem dúvidas, não avançamos e continuamos a ver. Não há nenhum jogador validado sem que duas ou três pessoas o tenham visto. Observámos in loco a maioria dos jogadores do plantel, até porque já os conhecíamos. Tirámos algumas dúvidas através do vídeo e demo-los a conhecer à direção e à equipa técnica.»

O chefe do departamento, Flávio, é o responsável por fazer a ponte entre o trabalho dos scouts, a equipa técnica e a direção.

«Sabemos o que a equipa técnica quer, logo não chegará um jogador diferente do pretendido. Há um pormenor ou outro que podem não gostar tanto, mas deixamos sempre indicação dos aspetos a melhorar. Avaliamos, fazemos um relatório e recolhemos ações para sustentar o que está escrito. Por vezes nem foi preciso apresentar o vídeo tamanha a assertividade do relatório. Se o treinador não se entusiasma com um jogador, será apenas mais um. Queremos gerar esse entusiasmo, é meio caminho andado para o nosso sucesso. O mister ficou ‘apaixonado’ com alguns jogadores que não vou dizer», referiu.

Durante o verão, Vicente Portal revela que o departamento de scouting famalicense observou cerca de 200 futebolistas. «Estamos a falar de um número significativo de jogadores num curto espaço de tempo.»
 

Departamento de Scouting do Famalicão atrás de uma das bancadas do estádio


A eterna luta dos scouts

Ainda que a análise seja exaustiva e detalhada, a margem de erro da observação dos scouts nunca deixa de estar presente. O intuito é diminui-la, embora a dificuldade seja tremenda devido a fatores incontroláveis.

«Todos os jogadores que errei procurei a razão e cada vez erro menos. Fico frustrado, mas faz parte do meu trabalho. Há fatores incontroláveis. Vejo mais erros pessoais e gerais relacionados com o ponto de vista mental do jogador. Agora damos muita atenção a isso tal como ao lado social. São difíceis de controlar. Uns jogadores dão e outros não. Porquê? Passa por esse aspeto», reflete Flávio.

Vítor Lima interrompe e acrescenta mais uma ferramenta para aumentar a qualidade da análise. «Muitas vezes tentámos chegar a pessoas que sejam próximas ou que jogaram com determinado jogador para saber como é que ele é fora do futebol. Temos de falar com as pessoas certas e de confiança. Caso contrário, um ano inteiro de trabalho…»

O plantel do Famalicão está recheado de jogadores jovens e de qualidade. A aposta arriscada, porventura para os mais céticos, revelou-se acertada a julgar pela amostra dos três primeiros meses.

«Tivemos em consideração jovens jogadores com vivências que jogadores de 28 anos não têm. A idade acaba por ser só um número. Um jogador que chega do Campeonato de Portugal à Liga aos 29 anos é mais experiente que um miúdo que joga na Liga desde os 18?», interroga Vicente.

«A maioria dos jogadores jovens que temos foram formados em clubes de outro nível. São miúdos que receberam estímulos e que têm vivências ricas. Acho que o clube tem mérito na maneira como recebeu as nossas referências. Possivelmente se apresentássemos um jogador que tinha acabado de descer para a quarta divisão, nem perderiam tempo a ouvir. Contratamo-los e estamos em primeiro lugar», completa Flávio.

O chief scout destaca a importância dos departamentos de scouting para «sustentabilidade e tranquilidade dos clubes» para que não existam oscilações entre os desempenhos de um ano para o outro.

«O Famalicão é um caso de sorte? Também pode ser, mas não só. Está aqui um trabalho que não é muito visível de várias pessoas. Se me perguntassem se quando definidos a equipa se teríamos esta classificação? Diria que não. Estaríamos confortáveis, mas não achávamos que o impacto fosse tão forte no imediato», disse.

O tempo de conversa está a chegar ao final com dois temas por abordar. A alegada influência de Jorge Mendes no clube e a contratação de jogadores emprestados de alguns clubes.

«Nenhum jogador passou sem ter sido avaliado. Apenas quatro jogadores são representados pela Gestifute. Não escondemos que tivemos jogadores com influência do Jorge Mendes que nos chegaram para avaliação, mas fizemo-lo de forma isenta. Em relação aos empréstimos, esses clubes não viram no Famalicão uma oportunidade. O processo foi ao contrário. Avaliámos, vimos que tinham qualidade e posso dizer que algumas pessoas ligadas ao projeto não os conheciam. Temos boas relações com alguns clubes e por aí existem vantagens, mas foi algo de dentro para fora», conclui Flávio.

Fora do jogo é uma rubrica do Maisfutebol que dá voz a agentes desportivos sem participação direta no jogo. Relatos de quem vive por dentro o dia a dia dos clubes e faz o trabalho invisível longe do espaço mediático. Críticas e sugestões para vem.externo@medcap.pt ou smpires@mediacapital.pt.
 

Vítor Maia / Estádio Municipal de Famalicão, Vila Nova de Famalicão