[FOTO: Vasco Oliveira]

Dos longos anos em que está ligado ao Desp. Aves, nunca como nestes dias António Freitas teve tantos problemas para resolver em tão pouco tempo.

Voltou a ser eleito presidente do clube há cerca de um mês, depois de um período de afastamento, mas apanhou pela frente um turbilhão no futebol profissional, gerido por uma SAD detida pela empresa Galaxy Believers, de Wei Zhao e Estrela Costa.

Não fosse o envolvimento de António Freitas e muito possivelmente o Aves teria faltado às últimas jornadas da Liga, em casa com o Benfica e fora com o Portimonense, o que poderia levar a equipa já despromovida à II Liga a ser relegada administrativamente para os Distritais.

Aos salários em atraso e consequentes rescisões de quase uma dezena de jogadores, juntou-se a falta de pagamento de seguros, a tentativa de despedimento das equipas técnica e médica, até que, no próprio dia da receção ao Benfica, as peripécias foram-se sucedendo: desde o encerramento de salas do estádio ao desaparecimento das chaves do autocarro da equipa e até da Taça de Portugal conquistada em 2018.

A cada problema criado, António Freitas foi tentando dar resposta. E a sua missão continua mesmo depois de concluída a Liga.

«Cheguei esta madrugada [de domingo para segunda] às 6h30 de Portimão com a equipa e entre as 11 horas e as 14h30 já estive numa reunião na Liga», justifica ao Maisfutebol o presidente, antes de recordar a azáfama dos últimos dias.

«Não quero ser herói, mas penso consegui evitar que o futebol nacional saísse muito mal disto. Se o Aves não aparecesse aos dois últimos jogos da Liga haveria impugnações e isto iria chegar à UEFA. A quem esperava isso, o tiro saiu pela culatra», conta António Freitas, enaltecendo o papel daqueles que lutaram ao seu lado:

«Os médicos e os fisioterapeutas foram suspensos… Mas disponibilizaram-se para fazer os últimos dois jogos, tal como o treinador Nuno Manta, que foi despedido pela administradora da SAD e rejeitou abandonar a equipa. É um homem com coluna vertebral. Identifiquei-me totalmente com ele e com a sua equipa técnica. Mas valeu a pena. Ontem, senti que os jogadores já sorriam e que confiam em mim.»

Aves: o contrarrelógio continua

António Freitas é um empresário de sucesso e avense de gema.

É o dono da T Freitas Energias, empresa que tem cerca de oitenta postos de combustível no Norte e Centro e que é uma das maiores distribuidoras do país, graças a uma longa parceria com a Galp.

A par da sua vida profissional, este homem de negócios de 65 anos sempre se interessou pelo clube da sua terra. O pai já havia sido dirigente do Desp. Aves. Ele entrou 24 anos para uma Direção e desde então foi mantendo a ligação. Mesmo quando estava fora da estrutura diretiva, continuou a amparar o Desp. Aves.

«Houve uma altura que eu estava adoentado e pedi ao meu filho mais velho, João, para tomar conta do clube. Ele tornou-se então no presidente mais jovem do futebol nacional, com 24 anos», conta o empresário, revelando que a sua disponibilidade não depende do cargo que ocupa.

«Aqui não há feira de vaidades. Nunca viu um presidente passar para adjunto? Eu já fiz isso. Estive em comissões administrativas também. Sempre tentei servir o Aves e fui um dos maiores investidores ao longo da história do clube, mas dou esse dinheiro como bem empregue», conta, recordando que noutros tempos havia uma política de que a Direção que saísse não podia deixar dívidas:

«Infelizmente, isso acabou. Apareceram novos investidores, mas as vitórias nos primeiros tempos ajudaram a cobrir uma péssima gestão financeira, que já vem de trás.»

Agora, tenta agora juntar os cacos. Acredita que o futuro da SAD não passará por Wei Zhao, com quem esteve frente a frente na segunda-feira numa reunião na Liga de Clubes, e põe a hipótese de ele próprio e outros investidores encontrarem uma solução.

De momento, o clube está em contrarrelógio para ajudar a SAD a inscrever a equipa na próxima edição da II Liga. Para isso, foi apresentado um Plano Especial de Recuperação na passada sexta-feira, que aguarda decisão do juiz, de modo a conseguir alguma margem para pagar alguns incumprimentos e tentar encontrar uma saída para os graves problemas financeiros.

Mil quilómetros para apoiar fora do estádio

Por agora, António Freitas continua a assumir pelo clube uma responsabilidade que cabia à SAD e tenta encontrar uma solução durante esta semana.

«Estamos agora a procurar arranjar solução o mais depressa possível e contamos com a colaboração da Liga e da Federação Portuguesa de Futebol. A grande batalha agora é inscrever o clube na II Liga. Acredito que vamos vencer mais esta, dentro da legalidade.»

A necessidade do Desp. Aves aguça-lhe o engenho. Na verdade, estes dias têm sido uma corrida contra o tempo; uma luta pela dignidade.

Por quem corre e luta o presidente?

António Freitas reflete um pouco e recorda um episódio da véspera. Um exemplo simbólico que o marcou. Bem fresco na memória está o esforço de gente que é tão apaixonada pelo Aves quanto ele e que ajuda à sua maneira, da melhor forma que pode e sabe.

No último domingo, um grupo de adeptos atravessou o país apenas para poder apoiar, do lado de fora do estádio, uma equipa já despromovida.

«Fiquei impressionado com aqueles adeptos que apareceram em Portimão sem a possibilidade de poderem ver o jogo. Fizeram 1000 quilómetros para apoiarem a equipa e poderem gritar, do lado de fora do estádio, “o clube é nosso”. Muitos chegaram às Aves às 7 horas da manhã e a seguir foram diretamente para os seus empregos», afirma, concluindo que é a essa gente que sente que não pode falhar:

«Isso dá-me ainda mais responsabilidade. São eles a grande armada que eu tenho nesta luta.»

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Fora do jogo é uma rubrica do Maisfutebol que dá voz a agentes desportivos sem participação direta no jogo. Relatos de quem vive por dentro o dia a dia dos clubes e faz o trabalho invisível longe do espaço mediático. Críticas e sugestões para smpires@mediacapital.pt ou vem.externo@medcap.pt.

Sérgio Pires