«Marcante e por vezes um pouco surreal», é assim que Filipe Puga (33 anos) relata o novo normal do quotidiano de um médico em tempos de pandemia.

Filipe exerce como médico de família no Centro de Saúde de Arca d’Água, no Porto, transformado por estes dias numa espécie de clínica quase exclusiva de doenças respiratórias, onde só entram suspeitos de coronavírus, além de crianças e grávidas – as únicas exceções. Mas é também médico do plantel do Desp. Aves e juntamente com o seu colega de equipa André Couto, ortopedista, lançou há pouco mais de uma semana uma iniciativa capaz de fazer a diferença na comunidade: ambos estão ao dispor dos sócios do clube do concelho de Santo Tirso à distância de um telefonema ou de um e-mail.

«Devido à Covid-19 há doentes crónicos que têm dificuldades em aceder a informações médicas das suas patologias de base porque as consultas estão a ser desmarcadas: um diabético ou um hipertenso deixam de ser avaliados e essas doenças não ficam em stand-by à espera que esta crise termine. Essas pessoas não podem ser esquecidas e tanto eu como o Dr. André Couto decidimos criar esta plataforma em que prestamos auxílio aos associados do Desp. Aves», começa por explicar ao Maisfutebol, detalhando: «Se houver doentes com dificuldades para acederem ao Centro de Saúde, podem entrar em contacto connosco, para tratarmos de esclarecer dúvidas clínicas e fazermos renovações de medicação. Sendo um clube da terra, decidimos que é importante estarmos próximos dos adeptos. Às vezes, basta um simples telefonema para podermos ajudar e evitar que alguém se desloque a um hospital ou ao centro de saúde.»

Jogadores entre a incerteza e o medo da Covid-19

O objetivo é dar apoio clínico não associado ao coronavírus e, para já, tem tido algumas solicitações. Com os jogadores em casa, Filipe dá apoio aos adeptos. Ainda assim, existe, como é lógico, linha aberta para os futebolistas do plantel principal, que revelaram «alguma incerteza» inicial sobre a Covid-19.

«No início, havia muitos pedidos de esclarecimento sobre como deviam proteger-se, a que sintomas deviam de estar atentos, etc. Quando o número de casos começou a disparar, comecei a notar medo nos jogadores e alguma tensão na semana anterior à suspensão das competições. Tivemos inclusivamente um atleta com sintomas, mas nessa altura os testes só se faziam em quem tinha ligação a uma cadeia de transmissão. Como o jogador não tinha critérios para fazer o teste, ficou apenas em isolamento. Neste momento, todos os atletas estão assintomáticos. Mas estamos sempre em contacto para ir monitorizando possíveis queixas», explica o Doutor Puga, que não arrisca, porém, falar sobre um eventual regresso à competição.

«Só posso dizer que estão a ser tomadas medidas para quando começar, fazer-se com toda a segurança. Essa é a principal preocupação. Sinto que os jogadores têm uma grande saudade da bola, mas também que querem que tudo seja de forma correta e têm os seus receios de possíveis infeções», afirma, reconhecendo que a incógnita ainda é grande.

Voleibol e medicina desportiva como o pai Nélson Puga

Filipe, aliás, não é o único na família que gere junto dos jogadores esta incerteza do regresso às competições. É filho de Nélson Puga, médico da equipa principal do FC Porto, e herdou o gosto pelo desporto e um particular jeito para o voleibol – o pai foi figura nos dragões e ficou conhecido pelo seu serviço característico.

«Também joguei voleibol, na Académica de São Mamede e no Leixões, mas a um nível mais baixo do que o meu pai. Em comum temos também a paixão da medicina desportiva. É um caminho que quero seguir», diz o agora médico do Desp. Aves, que está ligado ao futebol profissional há três anos, depois de duas épocas no Feirense.

É o tempo suficiente para viver talvez o mais inusitado momento de que qualquer médico no ativo tem memória.

«Nos próximos 30 ou 40 anos ainda vou contar memórias deste tempo em que todos os campeonatos foram suspensos devido a uma pandemia mundial. É absolutamente incrível, mesmo para os médicos mais experientes que não viveram nada assim», afirma, concluindo: «Se há um mês e meio ou dois nos dissessem que o mundo ia estar parado, ia mandar essa pessoa dar uma volta.»

--

Fora do jogo é uma rubrica do Maisfutebol que dá voz a agentes desportivos sem participação direta no jogo. Relatos de quem vive por dentro o dia a dia dos clubes e faz o trabalho invisível longe do espaço mediático. Críticas e sugestões para smpires@mediacapital.pt ou vem.externo@medcap.pt.

Sérgio Pires