Em África foi atacado por elefantes e rinocerontes. Na Antártida, passou horas imóvel, no frio, até que os pinguins se acostumassem à sua presença. Na Amazónia, o helicóptero onde voava quase se despenhou num local onde dificilmente seria encontrado. No norte da Etiópia fez 850 quilómetros em 55 dias, a pé, por entre as montanhas. No Alasca, um helicóptero largou-o sozinho num ponto inalcançável por terra e foi buscá-lo duas semanas depois. Para fazer as fotografias que compõem o projeto “Génesis”, Sebastião Salgado viajou durante oito anos até aos locais mais selvagens do planeta e expôs-se aos maiores riscos. Mas valeu a pena. Ao vermos as fotografias de “Génesis” sentimo-nos assoberbados pela beleza e pela perfeição da natureza.

Parte dessas imagens estão agora expostas junto ao Arco da rua Augusta, em Lisboa, numa iniciativa integrada no programa “Arte na Rua” da Fundação La Caixa. “A Cultura, e uma das mais importantes expressões da cultura, que é a arte, merecem muita atenção por parte da Fundação La Caixa. A Fundação tem oito centros culturais em Espanha mas consideramos que é muito importante levar a arte junto das pessoas porque é a melhor maneira de atrair as pessoas para a arte”, explica Artur Santos Silva, presidente honorário do BPI e curador da Fundação La Caixa em Portugal. Ao retirar as obras do seu enquadramento habitual de museus e salas de exposições, misturando-as com o cenário quotidiano das cidades, democratiza-se o acesso e aproxima-se a arte das pessoas.

“Na rua, é mais fácil utilizar as fotografias do que a pintura. Portanto, o nosso propósito tem sido trazer o trabalho de excelentes fotógrafos e fotógrafas”, diz Santos Silva, dando como exemplo esta “exposição extraordinária do Sebastião Salgado que, numa época em que se evidencia porque é que é muito mau não tratarmos bem a natureza, nós temos aqui a natureza em todo o seu esplendor e o que é que a natureza é quando o homem não a agride com as suas práticas que são contrárias aos nossos interesses de preservação da vida vegetal e da vida animal”

As 38 fotografias a preto e branco que compõem esta versão do projeto “Génesis” já foram  apresentadas em seis outras cidades portuguesas e estão agora na rua Augusta, em Lisboa, onde podem ser vistas até 14 de janeiro de 2021. “Estamos a fechar com chave de ouro aqui em Lisboa e achamos que este sítio é muito apropriado, é um sítio onde passam muitas pessoas e perto do coração de Lisboa, que é o Terreiro do Paço, que é o sítio da nossa partida para as Descobertas”, explica Santos Silva.

“Génesis”: a importância de regressar à natureza

O fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, atualmente com 76 anos, dedicou a este projeto quase dez anos da sua vida, oito dos quais passados em viagem, realizando 32 expedições: a primeira em 2004 nas ilhas Galápagos e a última na selva do rio Amazonas, bem perto de casa, já em 2012.

O projeto nasceu no Instituto Terra, criado por Sebastião Salgado com a mulher, Lélia Wanick Salgado, na herdade da família, na região de Minas Gerais, no Brasil. “A erosão tinha destruído todo o território, todo o ambiente que ele recordava da infância, a fauna, a vegetação, a vida, tinham desparecido”, conta  Miguel González, representante de Sebastião Salgado em Espanha. “Eles decidiram plantar milhares de árvores, espécies autóctones, e aos poucos os animais foram voltando.” 

Na altura, conta Miguel González, o fotógrafo tinha terminado o projeto “Exodus”, que consistia “em fotografias de pessoas em todo o mundo que tinham sido deslocalizadas, ou seja que tinham sido forçadas a deixar os seus territórios, devido a guerras, catástrofes naturais ou outros motivos. O projeto coincidiu com os eventos do Ruanda, onde Sebastião Salgado presenciou a maldade do homem de uma forma tão intensa que adoeceu, não fisicamente mas mentalmente, com uma grande depressão. Os médicos disseram que ele tinha perdido a fé na humanidade.”

Então, Lélia levou Salgado para o Instituto Terra, para descansar e, “vendo como cresciam as árvores que tinham plantado e como a vida voltava àquele lugar, ela teve uma ideia: Sebastião, porque não fotografas a beleza da Terra?”. Foi assim que surgiu o projeto “Génesis”. Mais do que denunciar a destruição do planeta pelo Homem, o fotógrafo procurou localizar os locais mais remotos, as paisagens terrestres e marítimas que ainda permaneciam intocadas e os ecossistemas onde as comunidades vivem em harmonia com o ambiente. “No final do projeto, Sebastião Salgado tinha-se reconciliado com a humanidade.”

Sebastião Salgado explica assim o seu percurso: “Os meus projetos anteriores foram périplos através das tribulações da Humanidade. No entanto, este foi a minha homenagem ao esplendor da natureza. Ao viajar a pé, em embarcações, avionetas e balões, enquanto fotografava vulcões, icebergues, desertos e selvas contemplei um mundo que não mudou em milénios. Além disso, com os animais no seu habitat natural, desde pinguins, leões marinhos e baleias do Antártico e do Atlântico Sul até leões, gnus e elefantes de África, senti que era um privilégio contemplar os ciclos da vida em contínua repetição”.

A exposição divide-se em cinco núcleos: “Os confins do sul” (Antártida, península de Valdés e  ilhas Sandwich); “Santuários” (ilhas Galápagos, Indonésia, Madagáscar); “África”, (parque de Virunga, Botsuana, deserto da Argélia); “As terras do norte” (norte dos EUA e Canadá, Sibéria); e “A Amazónia e o pantanal” (Brasil, Venezuela, Bolívia). Das paisagens geladas do polo sul aos desertos abrasadores, passando por densas florestas tropicais ou ilhas solitárias, as imagens levam-nos por uma viagem a um planeta que poucos verdadeiramente conhecem. 

“Cada expedição demorava aproximadamente dois meses. Salgado foi a locais onde o acesso era muito difícil e teve que ultrapassar inúmeros desafios para conseguir tirar estas fotografias”, conta Miguel González. Isto ao mesmo tempo que não descurava nenhum pormenor, procurando sempre o melhor enquadramento e a luz perfeita. 

“O objetivo desta exposição é que tomemos consciência desta beleza, que tomemos consciência que temos de preservar isto, não só para nós mas também para as gerações futuras. Primeiro, temos que mostrar aos nossos filhos e aos nossos netos que isto existe e, depois, e mais fundamental, mostrar-lhes que se não tivermos cuidado, vamos acabar com o planeta.”