Descascar batatas e cebolas, trinchar o leitão, desfiar a carne, fazer a salada, empratar. Tudo isto e muito mais faz Patrícia Fernandes, todos os dias, no seu emprego no Armazém das Sandes - O Cabeças, em Rio Tinto (Gondomar). “Fez em novembro um ano que trabalho aqui e espero ficar por muito mais tempo”, diz. E o seu rosto enche-se de um sorriso. 

Patrícia tem 39 anos e há 15 que estava fora do mercado de trabalho: “Estudei até ao 6º ano, depois trabalhei na indústria da confecção, mas depois de ter o meu primeiro filho fiquei em casa”, conta. Não se arrepende dessa opção pois sentiu que era importante dar apoio à família. Mas, entretanto, os rapazes cresceram e hoje já têm 13 e 15 anos. E com o marido também desempregado a vida tornou-se complicada. “Decidi voltar a trabalhar e inscrevi-me no programa Incorpora.”

“A Patrícia era acompanhada pela equipa de Rendimento Social de Inserção (RSI) da nossa instituição, o Centro Social do Soutelo, que a encaminhou para o Incorpora. Estava à procura de trabalho e já estava desempregada há vários anos. Estava disponível para trabalhar em qualquer área mas a restauração era uma área que lhe interessava. Por isso, assim que soubemos desta vaga, achámos que seria boa para ela”, recorda Carla Almeida, a técnica de acompanhamento do programa Incorpora que acompanhou Patrícia nesta caminhada.

O matching foi, de facto, perfeito. A Xana, como todos lhe chamam no restaurante, “é uma empregada espetacular”, diz, sem hesitar, Patrícia Sousa, proprietária d’O Cabeças com o marido Saul Sousa.”Nunca falta ao trabalho, é responsável, até posso dizer que ela é quase o meu braço direito aqui dentro. É uma empregada mesmo cinco estrelas”

Como funciona o Incorpora?

“O Programa Incorpora, desenvolvido pela Fundação La Caixa, está em Portugal desde setembro de 2018 e pretende promover a empregabilidade de públicos vulneráveis”, explica a técnica Carla Almeida. “Públicos vulneráveis são todas aquelas pessoas que à partida, por uma série de condições sociais e económicas, têm mais dificuldade em integrar o mercado de trabalho. Estamos a falar de beneficiários de Rendimento Social de Inserção, pessoas com baixa escolaridade, desempregados de longa duração, pessoas com mais de 45 anos, ex-reclusos, ex-toxicodependentes, pessoas com doença mental ou outra incapacidade...”

O Incorpora acredita que todas as pessoas, apesar das suas condicionantes, podem ter um emprego: só têm de ter vontade de trabalhar e de encontrar uma vaga que corresponda ao seu perfil. A tarefa das equipas Incorpora é, precisamente, ajudar a encontrar esse emprego e promover a sua integração.

Neste momento, Incorpora estende a sua presença a todo o território português aumentando em cerca de 35% a rede de entidades apoiadas no país. As 58 entidades sociais que formam parte da Rede Incorpora Portugal poderão dar resposta a pessoas que se encontram em situação de vulnerabilidade em todos os Distritos de Portugal continental.Em cada entidade, trabalha uma equipa constituída por um técnico de prospecção (que faz o acompanhamento junto das empresas empregadoras) e um técnico de acompanhamento (que faz o trabalho de proximidade com os beneficiários).

O núcleo do Porto, por exemplo, tem equipas a trabalhar com instituições em Rio Tinto, Vila Nova de Gaia, Vila do Conde e Porto. “Trabalhamos em rede dentro do núcleo e depois também em rede a nível nacional”, explica Carla Almeida. “Assim garantimos um resultado mais positivo.” Nestes dois anos, o Incorpora Até agora, o programa Incorpora já apoiou a criação de mais de 2000 postos de trabalho com a colaboração de mais de 700 empresas.

Em busca do “match perfeito”

O programa atua, portanto, em duas frentes. Por um lado, explica a técnica de prospeção, Susana Pereira, contactando “as entidades sociais e o tecido empresarial da sua zona de atuação, apresentando o Incorpora e tentando estabelecer parcerias”. “Nem todas as empresas estão recetivas ao nosso público, isto não é um mundo cor-de-rosa, mas fazemos essa sensibilização, é o nosso trabalho”, explica. “Mas grosso modo as empresas recebem-nos muito bem, acreditam no Programa, veem-nos mesmo como parceiros.”

Restaurantes, indústrias, supermercados, lares de terceira idade, são várias as empresas que já aceitaram ser parceiros do Incorpora. “A partir daí, nós somos um meio privilegiado para preencher as vagas que eles tiverem. Contactam-nos quando precisam de um empregado e nós procuramos um candidato que se adeque ao perfil pretendido.” Também pode acontecer o contrário: “Às vezes temos um candidato e vamos procurar entre os nossos parceiros se há alguma vaga para ele.”

“A estratégia é procurar o matching. Não é fácil. Às vezes é uma questão de comunicação. Temos de perceber muito bem que perfil é que a empresa procura. Se nos podem boa apresentação o que é que isso significa? Temos de ser minuciosos no questionamento. Quanto mais informações tivermos mais hipóteses temos de encontrar a pessoa certa para cada lugar.”

Por outro lado, o Incorpora atua junto dos beneficiários para melhorar o mais possível o seu perfil de empregabilidade. “Os beneficiários chegam-nos quer por iniciativa própria quer por acompanhamento de outras equipas e organismos sociais. Traço com eles o seu perfil de empregabilidade e depois tentamos fazer o matching com as ofertas que vamos recebendo”, explica Carla Almeida.

“O mercado de trabalho não está preparado para receber estas pessoas, e estas pessoas à partida não estão preparadas para o mercado de trabalho, por isso as consideramos vulneráveis e tem de haver um trabalho de background nosso”, diz. “Trabalhamos as capacidades e as competências dos beneficiários.” Isso passa por ajudar o candidato em todo o processo de recrutamento, na preparação da entrevista, e depois também na integração. Por exemplo, acompanhando a pessoa no primeiro dia de trabalho, para afastar os habituais nervos, ou fazendo um telefonema ao final do dia para saber como correu.

“Após a integração, vamos acompanhando também junto da entidade ou empresa empregadora, para tentar perceber se as expectativas corresponderam, quer para a empresa quer para o beneficiário.” Este acompanhamento pode ser determinante: “Às vezes as pessoas querem desistir perante as primeiras contrariedades, mas nós estamos lá para ajudar.”

“A minha vida mudou muito”

Patrícia Fernandes confessa que os primeiros dias no novo emprego não foram fáceis. “Depois de estar em casa muito tempo, não foi fácil vir assim trabalhar de repente. Os horário eram complicados e nunca tinha estado tantas horas sem os filhos, no início estava sempre a ligar para eles para saber onde é que eles estavam, o que estavam a fazer. Mas acabou por correr bem”, conta. 

O Armazém das Sandes - O Cabeças, em Rio Tinto, é o segundo restaurante do casal Patrícia e Saul Sousa, que já tinham um restaurante também especializado em leitão e com grande sucesso em Matosinhos. “Mas este é diferente, decidimos trazer para aqui o conceito das feiras e mercados que fazemos durante o verão. Aqui há pré-pagamento e os clientes não são servidos à mesa”, explica a proprietária.

“Quando abrimos, há dez meses, metemos 18 funcionários novos nesta casa, todos do concelho de Gondomar porque eu fazia gosto que fossem aqui da terra”, diz Saul Sousa. Na altura, vieram sete candidatos propostos pelo Centro Social do Soutelo, na entrevista foram selecionados três para trabalhar à experiência, mas só Patrícia Fernandes acabou por ficar. “Viu-se logo que era mulher de trabalho”, diz Saul.

“Aqui os funcionários, à exceção do caixa, têm de saber fazer tudo, têm que saber pegar numa esfregona, esfiapar um leitão, fazer um prego, cozer pão… E Patrícia faz bem essas coisas todas”, garante Saul Sousa. A mulher confirma: “Está a correr otimamente”.

Aproxima-se a hora do almoço, o cheiro a leitão assado é irresistível e já há uma pequena fila de clientes junto à caixa a pedir caldo de nabos ou caldo verde, uma sandes de leitão ou um prego. Na cozinha, com o avental e a touca, Patrícia está atarefada. “Tinham-me dito  que eu tinha de saber um bocado de tudo, ainda fiquei um pouco ansiosa porque não queria estar ao balcão, ali diante dos clientes ia me sentir um bocadinho envergonhada. Mas de resto gosto de fazer tudo.” 

“A Patrícia é uma pessoa muito esforçada e trabalhadora e trouxe todo o empenho que ela poderia dar aqui ao restaurante, penso que foram essas as características que cativaram os proprietários”, sublinha a técnica Carla Almeida.

“A minha vida mudou muito” nestes meses, admite Patrícia. “Posso comprar mais coisas para os filhos, que antes não dava, não havia possibilidade para isso. E estou mais feliz, sinto-me melhor comigo mesma porque sinto que estou a ser útil para alguma coisa.” Em casa estava desanimada, a trabalhar parece que tudo corre melhor: “Faz muita diferença, a nível psicológico isto é uma maravilha, pelo menos não estou fechada em casa, interajo com colegas. Os patrões são um espetáculo e o grupo é muito bom, a gente brinca umas com as outras. Desde que vim para aqui já ri, já chorei, já brinquei, já fiz de tudo.”