A parte pior é ter de usar máscara e luvas. Ao cuidar das utentes que se encontram na Estrutura Residencial para Idosos José António Marques, em Beja, Álvaro não pode dar-lhes a mão, num contacto pele com pele, nem pode transmitir-lhes conforto através de um sorriso amigo. Mas tirando esses incómodos, devidos à pandemia de covid-19, não há nada no trabalho como técnico de ação direta no lar da terceira idade que Álvaro não goste. “O lar foi uma surpresa”, admite. Há seis meses, quando estava desempregado e a passar por uma situação complicada, Álvaro Ameixa, de 27 anos, aceitou a proposta das técnicas do Programa Incorpora para preencher uma vaga numa área completamente nova para si e hoje sente que encontrou uma carreira. “É um caso de sucesso, o que nos deixa muito felizes”, conta Teresa Figueira, uma das técnicas que acompanhou o caso.

Álvaro estudou até ao 12º ano, tendo completado um curso técnico de contabilidade e gestão. Depois disso começou a trabalhar. Como fala várias línguas, facilmente arranjou trabalho como empregado de mesa em restaurantes ou como caixa em lojas. “Mas foram sempre coisas temporárias, muito sazonais, não me davam qualquer estabilidade”, diz. Nunca desistiu. “Já tive muitos trabalhos, nunca estive desempregado durante muito tempo.”

Em fevereiro deste ano, estava novamente desempregado. E, desta vez, com a companheira também desempregada e um filho de três anos, a situação parecia mais complicada. Foi por isso que, assim que tomou conhecimento do programa Incorpora, não hesitou em pedir ajuda. 

“O Álvaro chegou-nos desempregado, numa família com que recebia o Rendimento Social de Inserção (RSI). Muito motivado para trabalhar, sim, mas sem encontrar solução na cidade de Beja”, recorda Teresa Figueira, técnica de acompanhamento do Incorpora. “Tive vários contatos com ele e nessas conversas que tivemos o Álvaro mostrou-se aberto a experimentar algo novo. Tínhamos uma vaga para auxiliar de ação direta num lar, que é um trabalho geralmente realizado por mulheres, mas ele aceitou prontamente essa proposta. A entidade também aceitou esse desafio de integrar um homem na sua equipa e está a correr muito bem.”

“Aceitei a proposta com algum medo, trata-se de um posto de trabalho com muita responsabilidade, estamos a cuidar de seres humanos, pessoas que requerem muita atenção e muito afeto”, conta Álvaro. Mas seis meses depois, o medo passou a orgulho: “Pensa-se que este trabalho é só tratar de asseios e dar medicações e comida, mas existe toda uma componente humana e social, nós não trabalhamos de forma mecânica, mas de forma dinâmica, tendo em conta os gostos de cada utente. Tentamos trazer alegria e algum conforto e fazer com que as nossas utentes se sintam em casa e felizes. Cuidamos diariamente delas e acabamos por criar uma relação. Para mim é muito enriquecedor, sinto que ajudo pessoas e sinto-me realizado.”

 

O que é o Incorpora?

 

O Programa Incorpora, criado pela Fundação la Caixa em colaboração com o BPI, teve início em 2018, em Portugal, depois de uma vasta experiência em Espanha, e “tem como objetivo promover a integração profissional de públicos vulneráveis, através de um acompanhamento de proximidade, quer aos beneficiários quer às empresas ou entidades sociais”, explica Vera Neca, que coordena a equipa do Incorpora na Cercibeja, em Beja.  “Conjuga-se o perfil do beneficiário com as necessidades que as entidades ou as empresas têm no momento e procura-se integrar cada pessoa no local certo.”

O programa promove a contratação, por parte das empresas de pessoas em risco ou situação de exclusão, nomeadamente, jovens NEET (não estudam nem trabalham), desempregados de longa duração, com mais de 45 anos, ex-reclusos, ex-toxicodependentes, vítimas de violência doméstica e pessoas com deficiência ou incapacidade.

Neste momento, Incorpora estende a sua presença a todo o território português aumentando em cerca de 35% a rede de entidades apoiadas no país. As 58 entidades sociais que formam parte da Rede Incorpora Portugal poderão dar resposta a pessoas que se encontram em situação de vulnerabilidade em todos os Distritos de Portugal continental.

O Programa oferece às entidades selecionadas formação na Metodologia Incorpora, assim como uma contribuição a fundo perdido no valor de 30 mil euros por ano. As entidades comprometem-se não só a proporcionar formações para a melhoria da empregabilidade dos seus públicos-alvo, como em identificar ofertas de trabalho e desenvolver e acompanhar as pessoas durante todo o processo de integração.

Em cada entidade, trabalha uma equipa constituída por um técnico de prospecção (que faz o acompanhamento junto das empresas empregadoras) e um técnico de acompanhamento (que faz o trabalho de proximidade com os beneficiários). No entanto, um dos grandes trunfos do Incorpora é o trabalho em rede: as equipas partilham, através de uma plataforma informática, dinâmicas e ofertas de emprego, otimizando o seu trabalho. 

No total, nestes dois anos, o Incorpora já concretizou mais de 2000 incorporações laborais em colaboração com mais de 700 empresas.

 

Incorpora: muito mais do que arranjar um trabalho

 

Para fazer o seu trabalho, a técnica de prospecção do Incorpora deve conhecer bem o tecido empresarial da região: “Apresento o programa Incorpora às entidades empregadoras, que podem ser empresas ou entidades sociais, e tento sensibilizá-las para a responsabilidade social”, explica Helena Graça. “É preciso explicar que os destinatários do programa são pessoas vulneráveis, muitas vezes com deficiências”, e portanto não se trata só de preencher uma vaga mas também de dar uma oportunidade a alguém que precisa. 

“Temos de conhecer bem as empresas e depois analisamos o perfil dos candidatos e tentamos fazer o match perfeito entre o beneficiário e a empresa, para que fiquem ambos satisfeitos.” O grande desafio é precisamente esse: encontrar a pessoa certa para aquele trabalho, encontrar o trabalho certo para aquela pessoa.

Essa parte de conhecer bem os candidatos é com a técnica de acompanhamento, que é quem contacta com o beneficiário “em primeira mão”. “As pessoas vêm ter connosco porque estão desempregadas e querem dar um novo rumo à sua vida. Vêm por iniciativa própria ou encaminhadas por algum assistente social”, explica Teresa Figueira. “São pessoas que consideramos vulneráveis, porque têm alguma incapacidade ou estão numa situação difícil, por exemplo quando são mães solteiras ou quando o companheiro também está desempregado. Temos muitas pessoas que têm o RSI, que não têm dinheiro para pagar as suas contas. Mas têm de ser pessoas com algum dinamismo e que queiram trabalhar, isso é essencial.”

A primeira coisa que Teresa Figueira faz é uma longa entrevista ao candidato para saber tudo aquilo que ele já fez, o que sabe fazer, o que tem vontade de fazer. A partir daí começa a procura de uma vaga. 

“Há pessoas que têm mais dificuldade em encontrar um emprego, temos de trabalhar a sua empregabilidade, e tudo isso acaba por fazer a diferença”, explica Helena Graça. “Muitas vezes são pessoas que estão há muito tempo afastadas do mercado de trabalho ou que têm uma formação mais baixa e por isso precisam de um acompanhamento especial - não sabem procurar emprego nos sites de emprego, ou não sabem fazer um currículo ou fazer uma candidatura. Nós ajudamos em todo esse processo.”

“Tentamos dar outra resposta que vai para além do habitual”, acrescenta Teresa Figueira. Ajudam na preparação da entrevista e podem acompanhar o candidato nesse momento decisivo. “O que distingue o Incorpora é esse acompanhamento personalizado, que fazemos em todas as fases do processo”, garantem as técnicas. “Mesmo depois da seleção, continuamos a acompanhar, quer falando com o beneficiário quer com a empresa, para perceber se está tudo a correr bem ou se há algum problema que tem de ser resolvido.”

 

O trabalho muda tudo: mais rendimento e mais felicidade

 

Este acompanhamento dá confiança às entidades empregadoras, como explica Vânia Castanheira, diretora técnica da Estrutura Residencial para Idosos José António Marques, da Cruz Vermelha, em Beja. “A nossa parceria com o Incorpora tem corrido muito bem”, conta. “Sabemos que quando empregamos alguém através deste programa estamos a inserir pessoas em situação de carência social e económica, e isso é importante para nós porque podemos ajudar essas famílias. Por outro lado, nós trabalhamos com pessoas idosas e nem todos têm perfil para este trabalho. Eu sei que quando alguém me é indicado por esta equipa é porque tem os requisitos que nós pedimos e tem o perfil indicado para este trabalho. Posso confiar que as técnicas já fizeram uma pré-seleção e que há uma grande probabilidade de correr bem.”

No caso de Álvaro Ameixa, “foi um casamento feliz”, confirma a responsável pelo lar. Os elogios são muitos: “Para além de ser um jovem que está muito atento a esta coisa de ser velho e estar debilitado, é homem, o que é bom para trabalhar na nossa área, porque tem força física. E tem as características humanas essenciais no trato com o idoso. É atencioso, carinhoso, muito cuidadoso, é um bocadinho perfeccionista, é muito calmo e sereno, e é super-atento. Funciona muito bem na equipa.”

Ao início, é preciso dizê-lo nem todas as utentes do lar se sentiram confortáveis por ter ali uma presença masculina, mas aos poucos ele foi conquistando-as com o seu sorriso largo, o seu modo ao mesmo tempo brincalhão e competente. “Agora já o aceitam bem”, garante Vânia Castanheira. Tratam-no por Alvarinho ou outro qualquer epíteto familiar e para elas é quase como se fosse um neto que está ali para as ajudar no que for preciso, que conversa com elas e as faz rir e ainda lhes aconchega os lençóis na hora de dormir.

“Encontrei algo que me dá estabilidade e alegria, tenho sido bastante acarinhado tanto pelas colegas como pelas utentes, sinto que faço parte da equipa”, diz Álvaro Ameixa, admitindo que gostaria de investir mais nesta carreira. “É uma área que me é nova, que ainda estou a descobrir, e é uma mudança muito grande para mim mas é uma alteração positiva, sinto que é algo que me está a enriquecer enquanto pessoa.”

Para a equipa do Incorpora, a alegria também é grande. “Fizemos uma grande diferença na vida deste casal, pois não só conseguimos integrar o Álvaro como também integramos a companheira numa outra empresa. Eles estavam à beira de ficar sem casa, iam ter que voltar para casa dos pais e mudar de cidade. Para nós é muito gratificante ver que conseguimos melhorar a vida desta família”, diz Teresa Figueira.

“O trabalho muda tudo” na vida de uma pessoa, conclui esta técnica. Muda a sua situação financeira, obviamente, mas também tem implicações no seu dia-a-dia e na sua auto-estima. “Não é só o rendimento que se tem mas a felicidade que é estar a trabalhar e sentir-se útil, principalmente quando se trabalha numa coisa de que se gosta.”