“O que me levou a escolher medicina foram as pessoas, o cuidar das pessoas”, diz Tânia Varela, médica especialista em medicina geral e familiar no Centro de Saúde de Alcabideche (ACES Cascais), onde coordena a equipa comunitária de suporte em cuidados paliativos. 

“É uma equipa multidisciplinar: temos médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais e gostaríamos de ter também um apoio mais espiritual, que ainda não conseguimos”, explica. “O que fazemos é cuidar das pessoas com doença progressiva, avançada, incurável, que desejam estar no seu domicílio, na companhia das suas famílias. Fazemos esse acompanhamento e tentamos que a pessoa consiga viver da melhor forma possível até ao momento da sua morte. Um doente nesta fase da sua vida precisa de cuidados especializados que só uma equipa multidisciplinar e especializada pode garantir.” 

“Os cuidados paliativos são muito mais do que pegar na mão do doente. Devem ter afeto, sim, mas são mais do que isso”, sublinha Tânia Varela. “E são cada vez mais necessários. A estrutura populacional do nosso país mudou muito, as pessoas vivem cada vez mais tempo, mas têm muito mais doença e com uma carga de sintomas muito maior.”

Em Portugal estima-se que cerca de 80% das pessoas não tenham acesso a cuidados paliativos quando precisam. Dados referentes a 2017 indicam que dos 70 mil a 85 mil portugueses a necessitar de cuidados paliativos, apenas 12 mil terão recebido este tipo de cuidados. 

Mas a escassez de médicos com competência na área da medicina paliativa - apenas 51 em todo o país - constitui um entrave à criação de novas equipas. 

A verdade é que a medicina paliativa requer uma extensa formação, uma vez que se centra na qualidade e não na duração da vida, na pessoa e não na doença. 

Os cuidados paliativos já são uma especialidade em muitos países, mas em Portugal ainda não, lamenta Tânia Varela. Apesar disso, um médico pode ver a sua competência em medicina paliativa reconhecida pela Ordem dos Médicos: para isso, tem de ter formação avançada teórica nesta área (um mestrado), tem de publicar trabalhos científicos e tem ainda de fazer 810 horas práticas em equipas de cuidados paliativos, sob orientação de um médico cuja competência já foi reconhecida.

É precisamente neste processo que Tânia Varela se encontra. E, para isso, tem contado com a ajuda preciosa da bolsa do Humaniza, um programa da Fundação “la Caixa” em colaboração com o BPI, no âmbito de uma parceria estabelecida com a Ordem dos Médicos.

Humaniza: pensar o apoio integral a pessoas com doenças avançadas

Na sequência de um protocolo assinado em dezembro de 2018, a Fundação ”la Caixa” e a Ordem dos Médicos lançaram um concurso com vista à atribuição de bolsas que permitissem a qualificação de médicos com a competência em medicina paliativa.

Foram atribuídas treze bolsas a treze mulheres, o que irá permitir aumentar em 20% a quantidade de médicos com formação nesta área em Portugal.

“Estas bolsas representam um contributo muito expressivo para ir ao encontro das atuais necessidades de Portugal, sabendo nós de antemão que com os desafios demográficos e com o peso da doença crónica será ainda mais importante ter uma resposta forte, consolidada e abrangente nos cuidados paliativos”, explica a Fundação “la Caixa”.

As bolsas fazem parte do Programa Humaniza - Apoio Integral a Pessoas com Doenças Avançadas, da Fundação ”la Caixa” que, desde 2018, intervém na área dos cuidados paliativos mediante diferentes iniciativas como, por exemplo, apoiando a criação de Equipas de Apoio Psicossocial que complementam o trabalho das equipas de cuidados paliativos já existentes. Até agora, estas equipas já acompanharam mais de 10 mil doentes com doenças avançadas e 13 mil familiares.

Dar tempo e condições aos médicos para se especializarem

Tânia Varela fez a especialidade em medicina geral e familiar. Depois, fez o mestrado em cuidados paliativos e começou a trabalhar no Centro de Saúde de Cascais.

“Felizmente, nessa altura, em 2017, iniciou-se o Plano Estratégico de Desenvolvimento dos Cuidados Paliativos, e começaram a aparecer as equipas comunitárias”, explica. A médica foi desafiada a criar uma equipa comunitária de suporte em cuidados paliativos no ACES Cascais. Desde há dois anos está inteiramente dedicada a esta área. 

No entanto, ainda não tem a competência reconhecida pela Ordem dos Médicos. Para tal, a médica tem de fazer 810 horas práticas em cuidados paliativos sob orientação de um médico que já tenha essa competência. Mas, dada a escassez de médicos, não é fácil convencer as direções dos hospitais e centros de saúde a dispensarem os seus profissionais para que eles façam estas horas noutros serviços. 

“Há dificuldade em investir nos cuidados paliativos porque há muita falta de médicos e parece que há sempre outras áreas que são prioritárias”, lamenta Tânia Varela. 

Para resolver este problema, muitos médicos optam por tirar licenças sem vencimento para fazerem estágios. O que levanta bastantes dificuldades a nível pessoal.

É por tudo isto que a bolsa do Programa Humaniza é tão importante.

“A bolsa da “la Caixa” veio permitir que os médicos pudessem suspender a sua atividade nos sítios onde estavam para adquirirem as horas práticas de atividade necessárias e a seguir concorrerem à competência da Ordem dos Médicos. É nessa fase que estou agora”, explica a médica.

A importância da bolsa do Programa Humaniza

Assim que percebeu que o seu percurso passaria pela medicina paliativa, Tânia Varela tentou que todos os estágios feitos durante o internato fossem nesta área, no entanto, ainda não tinha as 810 horas necessárias. A médica tem a certeza que se não fosse a bolsa do Programa Humaniza não teria conseguido fazer as horas de que precisava ou, então, teria demorado muito mais tempo. 

“Quando se está a trabalhar é complicado. Então, ter esta bolsa permitiu-me, por um lado, sensibilizar as chefias para a importância dos cuidados paliativos e, por outro, conseguir o número de horas para ter a confiança da Ordem dos Médicos”, explica.

“Além disso, a bolsa deu-me a capacidade financeira para fazer também um estágio internacional, em Inglaterra. Isso foi importante, não só na área clínica, mas sobretudo porque aprendi muito sobre a organização, a competência das equipas, a estruturação dos serviços para funcionarmos melhor, trouxe muitas ferramentas para a minha equipa.”

Finalmente, Tânia Varela acredita também que o facto de a Ordem dos Médicos e a Fundação “la Caixa” se terem juntado nesta iniciativa veio dar mais visibilidade à medicina paliativa: “Percebe-se que é aqui uma vontade de todos que vai fazer com que seja possível que os cuidados paliativos se tornem uma área nobre da medicina.”