O Sporting entrou em grande no ano do Euro e venceu com justiça (3-1) um derby recheado de casos. A nova Luz teve o seu primeiro grande jogo e confirmou ser um palco fantástico para futebol de primeira. Futebol de primeira que o Benfica, ao contrário do seu adversário, nunca conseguiu apresentar, espartilhado numa táctica estranha e condicionado por erros defensivos primários. Como sempre, nestes jogos, a arbitragem esteve em foco: Pedro Proença errou muito e em lances importantes, com maiores queixas do Benfica. Mas não foi ele a escrever a história do primeiro derby da nova Luz.

Conhecendo-se o desfecho é difícil resistir à tentação de dizer que os primeiros minutos foram a chave do jogo. Mas é verdade que a entrada em jogo do Sporting, muito serena e cheia de personalidade, contrastou com um Benfica retraído, pouco à vontade nos novos equipamentos e, principalmente, no novo figurino táctico idealizado por Camacho.

Logo aos 7 minutos, a confirmar essa ideia, uma desconcentração inadmissível de Ricardo Rocha e Simão - num lançamento lateral a poucos metros da área - permitiu a João Pinto isolar Silva. O avançado entrou na área, ladeou Moreira, e cavou um penalty que convenceu todo o estádio e só as câmaras de TV desmontaram. Rochemback, com frieza, deu a primeira alegria à ilha de 4 mil adeptos verde-e-brancos, que a partir daí se bateram de igual para igual com os restantes 60 mil de vermelho.

Acidente? Nem pensar!

Podia ser acidental, mas não era. O Sporting estava muito mais arrumado e com as costas cobertas por um super-Custódio, Rochemback, João Pinto e um Pedro Barbosa das grandes noites desenhavam ataques a traço fino, com Liedson (subtil) e Silva (poderoso) a complementarem-se na perfeição. Claro que o Benfica reagiu, mas com Tiago e Zahovic em posições híbridas, entre o centro e os flancos, sobrava um estático Fernando Aguiar pelo meio e faltava quem alimentasse a teórica dupla de pontas-de-lança que acabou por não o ser, tal o número de vezes que Sokota descaiu para a direita.

Ganhando a bola em antecipação, à saída da sua área, o Sporting saía rápido para o ataque e sabia guardar a bola. Só um livre de Simão (23 m) obrigou Ricardo a trabalho valioso, mas pouco depois da meia hora, sem surpresa, Pedro Barbosa beneficiou da passividade de Hélder, ganhou a linha e, em esforço, arrancou um magnífico cruzamento que Silva, órfão de marcação, sentenciou de cabeça.

Até aí, tudo linear, e o Benfica parecia ter entrado num caminho sem saída. Mas ainda antes do intervalo Rochemback, protagonista em toda a linha, lançou uma bóia de salvação aos encarnados, ao ver o segundo amarelo num derrube a Tiago, depois de um feio desentendimento com Miguel, aos 22 minutos.

Rochemback dá, Miguel volta a tirar

Mesmo sem fazer muito por isso, o Benfica partia para a segunda parte com um suplemento de esperança, tanto mais que Camacho rectificou a inútil experiência do onze inicial, fazendo a equipa voltar a uma arrumação mais lógica, com João Pereira a tapar o deserto na direita e Petit a permitir a Tiago voltar ao centro. Os dispensáveis Fernando Aguiar e Zahovic ficaram nas cabinas, mas havia já 45 minutos de atraso e dois golos de diferença no marcador.

Sem chegar a encontrar todas as soluções, o Benfica foi mais equipa neste período, beneficiando da vantagem numérica e do natural encolhimento do Sporting. O golo de Luisão tardou onze minutos, e deu nova alma aos 60 mil adeptos do Benfica, mas não à equipa. Fernando Santos, atento, lançou então Sá Pinto, para dar mais posse de bola à equipa - abdicando de Silva, muito eficaz, mas cujo futebol de choque se tornava desajustado às circunstâncias.

O técnico do Sporting ganhou a aposta, e pouco depois saiu-lhe mesmo o jackpot quando Miguel, num lance muito semelhante ao que ditou a expulsão de Rochemback, derrubou João Pinto e viu o segundo amarelo. Novamente com armas iguais, o Benfica esvaziou o balão e o Sporting voltou a ser a equipa lúcida e consistente da primeira parte. Camacho voltou a trocar as voltas à equipa, retirando Sokota e lançando Roger. Com João Pereira a fazer todo o corredor direito, o Benfica continuou a conduzir a bola até esbarrar na parede e a não ter soluções para alimentar o agora solitário Nuno Gomes, manietado pelas exibições exemplares de Polga e Beto, a que se juntava a vigilância competente de Miguel Garcia a Simão.

Xeque-mate ao cair do pano

Com o tempo a escoar-se, começou a ser claro que o Benfica não tinha como chegar ao empate por mérito próprio. Restava-lhe esperar um ressalto, ou uma falha de marcação, para o milagre. Mas era o Sporting quem encontrava mais facilmente os espaços, e depois de Liedson e Lourenço (entrado para o lugar de João Pinto) terem falhado oportunidades para o KO, foi o brasileiro, já nos descontos, a dar o xeque-mate no jogo, entrando na área e procurando o contacto do infeliz Ricardo Rocha, que como bónus viu ainda o segundo cartão amarelo. Sá Pinto selou a vitória dos leões e deu ao marcador um desfecho que chegou por linhas tortas, mas cuja justiça não merece contestação.

Pedro Proença, sujeito a muita pressão, como sempre nestes jogos, teve uma noite muito infeliz. O primeiro penalty não existiu, o segundo foi pelo menos forçado - mas é verdade que só as repetições televisivas permitem chegar a essa conclusão. As expulsões de Miguel e Rochemback seguiram o mesmo critério, mas é verdade que o benfiquista até podia ter sido expulso mais cedo, depois de uma feia troca de mimos com o brasileiro. Apitando muito, por ter noção dos riscos que um critério largo traria ao jogo, o árbitro acabou por ter mais protagonismo do que o desejável. Mas que isso não seja pretexto para alimentar demasiadas discussões durante a semana: foi um Sporting superior a vencer o derby, foi um Benfica muito distante dos melhores dias e muito limitado por erros próprios o que não teve como vencê-lo.

Nuno Madureira