Kayla Edwards, de Washington, EUA, soube na adolescência que sofria da síndrome de Mayer‐Rokitansky‐Kuster‐Hauser (MRKH), que é caracterizada pela falta de parte ou de todo o útero. Na altura, há 12 anos, ouviu uma médica dizer-lhe que nunca ia poder engravidar. “Disseram-me que nunca ia acontecer”, relatou a mulher à BBC.

Na altura, a médica que me atendeu nem sabia o nome do que eu tinha. Ela saiu do consultório e voltou com um livro enorme", afirmou Kayla. Descobriu, entretanto, que, tal como uma em 4,5 mil mulheres no mundo, sofria daquela síndrome.

Hoje, com 28 anos e casada com Lance, é mãe de uma menina, Indy Pearl, de quase um mês, que carregou na barriga durante nove meses. E quer mais.

Ela é maravilhosa, estamos completamente apaixonados. Ela tem apenas semanas, e eu continuo a beliscar-me para acreditar que ela está mesmo aqui, que é real”, contou a recém-mãe. "Ainda não acredito que consegui ser mãe".

Kayla só conseguiu passar pela experiência da maternidade porque foi uma das 20 mulheres que receberam transplante de útero, integradas numa investigação realizada pela clínica Baylor University Medical Center, em Dallas, no Texas.

A filha Indy foi a quarta bebé a nascer, resultado da experiência clínica de transplante de útero, uma investigação que começou em 2016.

Agora, esta mulher quer ser uma referência e um exemplo para outras mulheres que sofrem da mesma condição. Quer mostrar-lhes que, ao contrário do que a médica disse, é possível acontecer.

Muitas mulheres que sofrem de MRKH não querem falar sobre o assunto. Muitas pessoas que sofrem com infertilidade simplesmente não querem falar. Eu queria quebrar esse tabu. Nós enfrentámos tanta coisa, e tudo valeu a pena, para ter nossa filha agora. E se a nossa história puder inspirar alguém que acaba de ser diagnosticada, que se sinta sozinha, isso significa muito para mim”, sublinhou Kayla.

“Foi muito emocionante, nunca pensei que ficaria grávida”

Quando ainda tinha 16 anos, na altura do diagnóstico, Kayla procurou saber juntos dos médicos se era possível realizar um transplante de útero.

A resposta da médica não foi animadora. "Ela meio que riu e disse 'Não, isso nunca vai acontecer'", lembra Kayla.

Já em 2014, com o marido, procurou um especialista em fertilidade que voltou a negar-lhe a possibilidade de um transplante uterino, algo que veio a ser desmentido não muitos meses depois, quando, na Suécia, médicos anunciaram o primeiro transplante bem-sucedido, que resultou em gravidez.

A esperança desta mulher voltou a crescer e chegou aos Estados Unidos. Em agosto de 2017, foi a vez de Kayla receber um transplante de útero. No início deste ano, uma fertilização in vitro cumpriu-lhe um dos maiores desejos: ser mãe.

Eu tive uma gravidez muito boa, senti-me ótima. Foi muito emocionante, nunca pensei que ficaria grávida, por isso tentei aproveitar cada momento", destacou.

Liza Johannesson, cirurgiã ginecologista e diretora clínica de transplantes de útero do centro clínico de Baylor, disse à BBC que, até ao momento, nenhuma das mulheres transplantadas teve complicações na gravidez.

Todas as gestações foram normais. Os bebês estão ótimos, nasceram com o tamanho certo, sem problemas, e estão a desenvolver-se normalmente", sublinhou a especialista.

As 20 mulheres envolvidas na pesquisa receberam transplantes de útero e, por isso, têm estado a tomar imunossupressores, para evitar que o organismo rejeite o órgão. Por esse motivo, têm um limite de duas gravidezes, para que depois lhes seja retirado o útero e se retire a toma dos remédios.