A sociologia da comunicação tem, desde há décadas, vindo a debruçar-se sobre como diferentes sociedades lidam com o luto de figuras públicas como, por exemplo, a Princesa Diana ou do líder norte-coreano Kim Jong-il.

A televisão jogou um papel central no luto público de Diana, e o aparelho de propaganda norte-coreano foi fulcral para o luto de Kim Jong-il. Em ambos os casos, houve um luto oficial decretado e é isso que, em qualquer sociedade, dá o sinal para o envolvimento do público.

No primeiro caso, a cobertura televisiva foi fundamental para criar uma empatia pública de perda para com Diana. No caso de Kim Jong-il foi o próprio mecanismo de controlo e consenso estatal que ditou o luto público partilhado pelas lágrimas de perda.

Na morte de Mário Soares o fenómeno central esteve nas redes sociais. É certo que houve cobertura televisiva extensa e pessoas nas ruas a seguir o cortejo, mobilizadas pela comunicação social e pelo Partido Socialista. Mas foi nas redes sociais que se pôde vislumbrar a singularidade do luto público em relação a Mário Soares.

Sendo Portugal uma democracia, e tratando-se de um ex-governante e presidente, Mário Soares foi alvo dos que quiseram fazer uma última despedida na Internet, mas também dos que, baseando-se em notícias falsas (um fenómeno que não começou com Donald Trump), aproveitaram a derradeira oportunidade de o atacar e criticar nas redes sociais.

No entanto, o fenómeno do luto público nas redes sociais teve implicações políticas diretas sobre Marcelo Rebelo de Sousa e Pedro Passos Coelho, nomeadamente no desaparecimento das opiniões favoráveis face ao primeiro e o aumento face ao segundo.

O luto político durou três dias, o tempo das tréguas para o funeral de Estado e para a sessão evocativa na Assembleia da República. Ao terceiro dia, a polémica da TSU ressuscitou pela mão de PSD e, assim, os políticos deram por encerrado o luto público dos cidadãos.  

O Sobe e Desce da Semana Política

Esta foi uma semana atípica, na qual se detectaram muitas partilhas de notícias e menos comentários de cidadãos do que habitual. No entanto, entre os políticos, jornalistas e lideres de opinião a participação nas redes sociais manteve os ritmos normais de qualquer outra semana.

A neutralidade dos posts ocorreu em particular para Marcelo Rebelo de Sousa e para António Costa (produto da sua ausência na Índia). Na realidade, ambos não foram os visados na maior parte dos posts, mas apenas veículos para as mensagens ou ações relacionadas com Mário Soares.

Nas redes sociais não foi significativa a polémica em torno da ausência de António Costa nas cerimónias fúnebres de Mário Soares, apesar das tentativas de aproveitamento político da oposição.

No que respeita ao Presidente da República, algum desgaste por parte da “opinião” relativamente à exposição pública de Marcelo Rebelo de Sousa, e de algum "excesso de afetos" (se bem que na mesma medida se continua a detectar opinião favorável relativamente a essa mesma exposição e afetos).

A exceção continua a ser Passos Coelho, que continua a atrair mais “opinião” do cidadão comum. No entanto, esta semana, também a propósito da morte de Mário Soares, registou um aumento de sentimentos favoráveis e um decréscimo dos desfavoráveis.

Por último, surge uma novidade que tem a ver com o número de posts relacionados com António Costa, que ultrapassou os 19 mil artigos nas redes sociais, em particular no Twitter. Um valor inédito desde que ocorre a análise e que está associado à projeção e impacto que a sua visita teve na Índia e na diáspora indiana entre os falantes de inglês.

 

Ficha técnica:

Neste trabalho foi seguida a metodologia proposta pelo Pew Research na análise de enquadramentos de discussão nas redes sociais através da plataforma de codificação da Crimson-Hexagon. Foram consideradas as redes Twitter, Facebook, Tumblr, Google+ e Blogues. A análise do sentimento considera as categorias ‘positivo’, ‘negativo’, ‘neutro’ ou ‘fora de âmbito’. Informação detalhada sobre o algoritmo pode ser consultada aqui.