A vitória do Sporting, este sábado (3-1), no Restelo, diante de um Belenenses a viver uma semana de terapia de choque, assegura que a discussão pelo primeiro lugar da Superliga continua viva pelo menos durante mais uma semana. Mas assegura mais. Assegura, também, a nona jornada consecutiva a ganhar para um leão que contra muitas expectativas atingiu uma assinalável velocidade de cruzeiro nesta fase da época e, acessoriamente, assegura ainda a satisfação dessa coisa tão imaterial, subjectiva e polémica que se chama justiça. No Restelo, objectivamente ganhou quem fez por isso, mesmo que com a preciosa ajuda de um hara-kiri em tons de azul.

A entrada de Inácio para o comando do Restelo surgiu na pior altura possível para o Sporting. Mesmo que o novo técnico dificilmente pudesse revolucionar a equipa em três dias, à sua chegada correspondeu, inevitavelmente, uma motivação suplementar para os jogadores. Como, para além disso, Inácio montou bem a equipa, com uma estrutura destinada a retirar espaços a meio-campo (quatro médios numa primeira linha, mais dois, Verona e Sané, com ordens para apoiar o solitário Antchouet, uma vez a bola recuperada), os primeiros minutos, sem lances especialmente vistosos, mostraram duas coisas: que a confiança do Sporting se traduzia em boa circulação de bola, com a excepção de uns quantos passes mal medidos por Rui Jorge; e que essa circulação não chegava, por si, para criar desequilíbrios num Belém que voltava a acreditar em si próprio, depois da bizarra passagem de Bogicevic pelo Restelo. Em suma: havia Sporting e havia adversário.

Sem Silva, Fernando Santos surpreendeu ao dar a titularidade a Clayton, como prémio pelo bom jogo (e os dois golos) ao Wolfsburgo, a meio da semana. De resto, a estrutura habitual neste Sporting de fôlego novo: Custódio a dar costas largas a um trio de criativos, Liedson a percorrer toda a frente de ataque, desta vez com a novidade de um parceiro mais agarrado à esquerda e com pouca presença na área. O outro ponto de interesse morava mais atrás, numa dupla de centrais que tinha como objectivo prioritário fazer um jogo limpo de cartões sob pena de exclusão forçada na cimeira de sábado.

Pelé acorda o jogo...

Passaram-se 25 minutos sem grande história, só para encaixar estes dados no campo, até que Pelé, de cabeça, após livre de Verona, obrigou Ricardo à primeira defesa do jogo. Foi o despertador de que o jogo precisava: o Sporting ia dominando a bola sem fazer estragos, eis que o Belenenses passava a existir na outra metade do campo. Depois de um segundo aviso, de Marco Paulo, para as mãos de Ricardo, eis que o Sporting pagou a factura da leveza forçada da sua dupla de centrais: Beto perdeu para Sané um lance que tinha controlado (29 m), o cruzamento do extremo azul encontrou Marco Paulo à entrada da área, para um remate sem defesa.

A maioria verde e branca nas bancadas engoliu em seco, mas não teve muito tempo para roer as unhas: o estado de graça deste Sporting é tal que três minutos depois, na primeira oportunidade digna desse nome, Sá Pinto, livre de marcação, foi o homem a mais para os três centrais do Restelo e concluiu de cabeça um excelente cruzamento de Custódio.

Mais do que o regresso à estaca zero, o empate mudava o sentido ao jogo, porque o Sporting tinha acordado de vez daquele falso domínio pachorrento a que a estratégia de Inácio o convencera no princípio. João Pinto começava a dar sinais de estar numa daquelas noites: tudo bem feito, tudo com objectividade, como aquele passe fabuloso que proporcionou a Liedson, na cara de Marco Aurélio, o primeiro dos seus dois encontros com a trave (36 m).

O hara-kiri de Marco Paulo

O intervalo chegava com o jogo num ritmo bem mais elevado, e com a certeza de que o leão tinha passado à velocidade superior. Verdade que Clayton nunca conseguiu ser mais do que um complemento esforçado ao trabalho dos outros, mas a iniciativa era todinha do Sporting. A incógnita estava em saber até que ponto a estrutura defensiva do Belenenses aguentaria a pressão. Os indicadores dos primeiros vinte minutos foram bons, mas logo a seguir, já com Tello no lugar de um desgastado Sá Pinto, Marco Paulo deu a resposta definitiva à questão, estragando todo o seu bom trabalho com um segundo cartão amarelo disparatado que partiu de vez o ânimo à equipa de Inácio.

A partir daí tudo aconteceu muito depressa: Fernando Santos trocou Clayton por Lourenço, e menos de um minuto depois teve o jackpot, com um excelente cruzamento de Tello a encontrar a cabeça de João Pinto ao segundo poste. Inácio já não tinha por onde fazer crescer a sua equipa, mas para a acta ainda lançou Ceará e Valdiran tentando o impossível. Mas não há técnico que possa resolver um jogo em que os seus homens se deixam expulsar com pretextos tão absurdos. A dez minutos do fim, quando o Sporting guardava a bola, geria o esforço e espreitava o contra-ataque sem forçar, Wilson (logo o capitão) pediu insistentemente a Carlos Xistra o primeiro amarelo, e depois o segundo.

Com nove contra onze, o Belenenses acabou transformado numa caricatura da equipa consistente e estruturada que baralhou os dados do jogo durante meia hora. E abriu a porta para o xeque-mate final, que só a invulgar generosidade de Liedson atirou para o período de descontos. Era apenas um post-scriptum numa história que já ficara escrita com a expulsão de Marco Paulo.

Carlos Xistra mostrou cartões a mais num jogo que esteve longe de ser violento. Nada a dizer quanto às expulsões, fica apenas a dúvida sobre uma queda de Liedson na área em que o avançado acabou por ser amarelado por simulação (42 m): no estádio ficámos com toda a sensação de que o brasileiro exagerou a queda, mas sofreu efectivamente um toque no pé quando passava por Marco Paulo.

Nuno Madureira