Fácil de entender, difícil de desmontar. Eis o Sporting, o grande candidato (não assumido) ao título, que antes da glória que se antecipa mostrou no clássico desta noite esforço e dedicação sobretudo para segurar um empate que lhe vale uma distância de dez pontos para o FC Porto, até hoje perseguidor mais direto – o Sp. Braga pode assumir o segundo lugar, em caso de vitória sobre o Nacional, e ficar a nove pontos do comando.

Num duelo entre campeão nacional e líder isolado, os leões fizeram o que foi preciso para segurar o marcador a zeros no Dragão.

Antes de tudo, a história: apenas por três vezes neste milénio um líder entrara com 10 ou mais pontos de vantagem. Sempre o FC Porto: 2002/03 (13 pontos), 2006/07 (12) e 2005/06 (11).  

Chegou a vez do Sporting. E para entender isso, é preciso deixar as páginas da estatística e descer ao nível do relvado. 

Ao som do apito inicial, o 3-4-3 do Sporting desdobrou-se de forma dinâmica e até aos 20 minutos da primeira parte a equipa de Ruben Amorim pareceu ganhar o meio-campo. Uribe errático e Sérgio Oliveira nem sempre capaz de controlar uma ampla zona do terreno permitiam no miolo uma superioridade territorial dos leões, que viria a ruir com o tempo.  Nesse período, o 4-4-2 do FC Porto apostava em jogo direto. Faltava envolvência entre Otávio e Zaidu sobre a esquerda, tal como Corona e Manafá foram mostrando no flanco oposto.

Ainda assim, partindo a primeira parte ao meio, daí até ao intervalo o FC Porto foi ganhando domínio e esteve mais perto do golo. Não de forma clamorosa, ainda assim.

Manafá apareceu sozinho na área frente a Adán, mas desperdiçou à meia-hora de jogo. Otávio ou Corona descobriam nesgas nas costas da defesa leonina, mas Adán ou a bandeirola acabariam por anular os intentos dos campeões nacionais.

E assim se chegou ao intervalo, com o FC Porto em vantagem na posse de bola (59%-41%), remates (4-1) e cantos (3-0), mas com o Sporting a manter o essencial: uma baliza a zeros e 10 pontos de vantagem intactos.

A segunda parte, porém, começou com o FC Porto a avisar ao que vinha: pé no acelerador e potência no remate de Zaidu logo no primeiro lance.

Haveria de seguir-se o desperdício de Taremi. Exasperante para os portistas. O iraniano esteve muito mais em jogo do que Marega, mas falhou e voltou a falhar na hora de finalizar. Por três ocasiões. Aos 57m, falhou a emenda na pequena área o lance de golo criado por Otávio e Corona. Aos 75m, Manafá fez tudo bem e cruzou atrasado mas o iraniano rematou sobre a barra. Aos 83m, voltaria Taremi a tentar, num pontapé de bicicleta que saiu por cima.

Se na primeira parte o Sporting foi sendo encostado, na segunda encolheu-se ainda mais. Até que a 25 minutos do fim Amorim lançou Matheus Nunes para voltar a ter meio-campo. O brasileiro segurou o jogo e haveria aos 73m de corresponder lá na frente com um raide que o colocou na cara de Marchesín e a disparar cruzado sobre a barra.

Alarme dado, Conceição arriscou. Demasiado tarde. Evanilson e Francisco Conceição foram a jogo, mas o FC Porto acabaria por não descobrir o caminho do golo e, sem público, não se ouviu o ronco de motor que lhe permitisse uma aceleração final. Ao fim de 54 jogos, os dragões voltam a ficar a zeros (a última vez havia sido em dezembro de 2017, frente ao Benfica).

Quanto ao Sporting de Amorim, fez o necessário para sair com a estrada ainda mais livre diante dos seus olhos.

O leão travou, foi encostado à berma, mas passou o radar junto à VCI e, 19 anos depois, tem mais do que nunca Via Verde para o título.

Sérgio Pires / Estádio do Dragão, no Porto