Confinamento: um longo e duro processo de recolhimento domiciliário que se atravessou nas nossas vidas pela segunda vez em menos de um ano. Depois da incerteza de março e de abril, perante a chegada de um vírus longíquo, mas que nos bateu à porta a ceifar vidas, propagou-se a ideia de "milagre português".

A "benção" durou pouco tempo, e a partir de outubro o país começou a caminhar numa espiral negativa, que viria a conhecer o seu pico no mês de janeiro de 2021, no qual morreram mais de cinco mil pessoas, um terço do total de óbitos registados até aí. Assim, foi a 13 de janeiro que o primeiro-ministro anunciou um regresso ao confinamento, para poucos dias depois lhe acrescentar medidas, na sequência daquilo que disse ser o desrespeito dos portugueses  pelas restrições anunciadas.

Agora, sabemos que esta situação vai durar pelo menos até 16 de março. O Parlamento aprova esta quinta-feira nova renovação do estado de emergência, que entra em vigor em 2 de março, e vigora até meio do mês.

O decreto do Presidente da República deixou vincado que o desconfinamento é algo que já entra na agenda política, ainda que esse horizonte não tenha uma data propriamente definida. No documento enviado por Marcelo Rebelo de Sousa à Assembleia da República é pedido que se pense numa reabertura faseada, baseada nas recomendações dos peritos, que no início desta semana voltaram a reunir-se com os políticos no Infarmed.

Se o desconfinamento não tem data, talvez possa ter um número: 200 ou menos internados em unidades de cuidados intensivos (UCI). Foi pelo menos esta a meta traçada pela ministra da Saúde, quando, no dia 9 de fevereiro, admitia um confinamento até meio de março. Não se enganou, e talvez até tenha pecado por defeito. É que os números avançados pelos especialistas apontam que Portugal ainda terá 245 doentes internados em UCI no dia 24 de março.

Esta quinta-feira está reunido o Conselho de Ministros, mas não é esperado que da reunião saiam medidas muito concretas em relação ao processo de desconfinamento, devendo manter-se todas as medidas em vigor atualmente.

O que dizem os especialistas

Certo é que, seja lá quando for, o desconfinamento arrancará pelas escolas, como confirmou a ministra da Presidência. Um plano que é arriscado, no entender do professor de matemática Henrique Oliveira, que dá aulas no Instituto Superior Técnico.

Considero extremamente arriscado começar pelas escolas, considero mesmo o pior passo", alertou o matemático na TVI24.

Sobre o mesmo tema, a Federação Nacional de Educação pede que este regresso às aulas presenciais seja feito de forma prudente, pedindo ainda um reforço de medidas.

Também esta semana, e depois de uma reunião com o Presidente da República, vários partidos deixaram a ideia de que o desconfinamento não deve acontecer antes da Páscoa, que acontece no final de março/início de abril.

A verdade é que, além de não sabermos quando será o desconfinamento, tão pouco foi revelado se existe algum plano para que isso seja feito. Essa é, na ótica de muitos especialistas e políticos, uma das maiores falhas na atuação do Governo, que já devia ter preparado o pós-confinamento há mais tempo.

Esta também é a opinião de Carlos Antunes, professor de matemática na Faculdade de Ciências da Universidade Nova de Lisboa, que diz que os "critérios de desconfinamento deviam estar definidos desde o verão passado".

Em todo o caso, uma coisa é certa: o documento que circula nas redes sociais e que dá conta de um novo plano de desconfinamento é falso, e já foi desmentido oficialmente pelo Governo.

António Guimarães