Em maio de 2017 com dois filhos e sem condições para pagar uma renda, Micaela ocupou um apartamento abandonado na Alta de Lisboa. 

Encontrei uma casa em frente à creche do meu filho. Não sabia a tipologia, não sabia nada, apenas que a casa estava vazia. Então, durante o dia, tentei vir ver a casa. Entrei, vi a casa, tentei pôr uma fechadura", disse Micaela à TVI, revelando que, quando saiu do apartamento, uma vizinha encontrou-se com ela e começou a tentar expulsá-la.

Mesmo assim, Micaela não recuou perante a adversidade. A casa que ocupou mal podia ser chamada de lar.

A casa estava completamente destruída, não tinha nada, não tinha casa de banho, não tinha cozinha, não tinha torneiras, nem maçanetas. Nem portas tinha, não tinha nada, mas tinha paredes e um teto, nem tinha janelas", diz. 

Mesmo com o frio de uma casa sem janelas e o perigo de ser descoberta a qualquer momento, Micaela não consegue evitar um sorriso ao lembrar-se da reação do filho mais velho quando percebeu que tinha quatro paredes e um teto onde brincar.

O mais novo tinha três meses. Ele passou o tempo todo a dormir, não deu conta de nada. O mais velho era uma festa. Como não tinha maturidade suficiente para perceber o que se estava a passar. Para ele, estávamos ali a brincar e a fazer alguma coisa muito fixe. E quando entrámos ele começou a correr e a atirar-se para o chão. Para ele era um sonho", afirma Micaela cuja história não é única na capital.

A associação Stop Despejos afirma que, em Lisboa, há centenas de famílias a viverem em casas ocupadas, avançando que as ocupações são feitas sobretudo por mães solteiras e trabalhadores a receber o salário mínimo.

Quando ocupou o apartamento, Micaela vivia com 300 euros por mês.

É que nem um quarto dá para alugar. E depois temos despesas médicas no meu caso, tenho despesas escolares, de transporte, de alimentação e todas as outras despesas. Com 300 euros mensais. Então, isto é capricho? Ocupar uma casa?"

A história de Micaela repete-se na de Ana. Sem dinheiro para pagar uma renda, foi despejada com as filhas da casa arrendada onde vivia. Ficou com duas opções: ocupar ou dormir na rua.

Sabia que estava a cometer um crime, mas foi o que me aconteceu porque naquele momento estava desesperada para entrar dentro de uma casa e ter um lar para mim e para as minhas filhas", diz Ana que confessa ter vivido durante muito tempo com receio de ser descoberta pelas autoridades camarárias.

Ana não dormia, não ia descansada para o trabalho e sabia que a qualquer momento a polícia podia estar a bater à porta de sua casa para a despejar. Até que o que mais temia acabou por acontecer.

A polícia bateu-me à porta, disseram-me que eu tinha de desocupar a casa. Colocaram as coisas num armazém muito alto, levaram para lá as coisas. Houve mobílias que me partiram coisas, que ficaram destruídas porque meteram tudo ao monte. Ver os brinquedos das minhas filhas espalhados no armazém da câmara cortou-me o coração", afirma Ana que confessa nunca mais esquecer esse dia.

António Gori, da associação StopDespejos, revela que a maior parte das ordens de despejo que acontecem não dispõe de uma mediação da Câmara Municipal de Lisboa. 

Infelizmente não há uma mediação da câmara, a única mediação feita é através da Polícia Municipal e dos senhores das mudanças", diz, denunciando que, na presença de menores, os casos não são acompanhados por uma assistente social.

À TVI, a Câmara Municipal de Lisboa diz que as pessoas são devidamente notificadas da desocupação, bem como informadas da forma legal de acesso a uma habitação municipal.

Como sempre acontece nestes casos, é ativada em tempo a rede social e apresentadas as respostas sociais existentes, em função das realidades concretas dos agregados. Esta análise tem em conta a existência ou não de morada alternativa, se o agregado está afecto a outro fogo municipal, do grau de efectiva fragilidade, entre outro aspectos", afirma fonte camarária.

A câmara afirma que nos últimos cinco anos foram celebrados 8751 contratos para habitações sociais e que foram gastos 5,4 milhões de euros dedicados à recuperação de casas para combater a falta de oferta de habitação social na cidade.

O município dá neste momento resposta habitacional a cerca de 25 mil famílias, tanto em bairros municipais, como em património disperso, sendo as casas vagas reabilitadas e atribuídas a novos moradores em função das disponibilidades do património", diz fonte do gabinete da vereadora Paula Marques, responsável pelo pelouro da habitação.

Micaela e os dois filhos vivem agora num apartamento com renda solidária. Ana arranjou um part-time. Ganha 450 euros e mal consegue pagar o apartamento onde vive. Se não tiver outra opção, garante que vai voltar a ocupar uma casa.

Se calhar vou ter de ocupar outra casa. Porque se ficar sem esta não vou ficar na rua com as minhas filhas", diz Rita.