Investigadores espanhóis do Vall d'Hebron Instituto de Oncologia, em Barcelona, conseguiram provar a eficácia de um tratamento personalizado para controlar a progressão do cancro do pâncreas, um dos mais letais e com uma taxa de sobrevivência muito baixa.

A investigação foi apresentada no congresso da Sociedade Americana de Oncologia Clínica, que decorre até dia 4 de junho, e publicada no The New England Journal of Medicine. Em concreto, os investigadores analisaram os resultados da utilização do olaparib, um fármaco inibidor de PARP - envolvido na reparação do ADN - num grupo de doentes portadores de uma mutação genética hereditária, BRCA, que ocorre em 7% dos afetados pelo tumor no pâncreas. Quando a doença não progredia há 16 semanas - algo que só acontece com quimioterapia - o tratamento era substituído pelo inibidor, para analisar se o olaparib travava o desenvolvimento do tumor. E concluiu-se que o novo tratamento atrasou a progressão do cancro com metástases em 7,4 meses.

Ainda que esta terapia se destine a um grupo reduzido de doentes, este estudo abre a porta à medicina personalizada. "O objetivo era ver se se podia permitir ao doente que descansasse do tratamento de quimioterapia, que tem um nível de toxicidade mais complexo, e que se mantivesse apenas com o olaparib, melhorando a qualidade de vida", disse ao El Mundo Teresa Macarulla, a investigadora principal do grupo de tumores gastrointestinais e endócrinos do Vall d'Hebron Instituto de Oncologia.

Os fármacos como o olaparib atuam impedindo a ação da enzima que repara o ADN. Ao impedir a sua atividade nas células tumorais, consegue-se a sua destruição, sem que as células saudáveis sejam afetadas. Este tratamento personalizado, que beneficia das vulnerabilidades do cancro, aplica-se ao subgrupo de pacientes que têm a mutação dos genes BRCA mas, eventualmente, poderá servir também aos doentes que não têm esta mutação mas que sofrem de alterações noutros genes que se comportam como se tivessem esta mutação. "Esta mesma estratégia poderá funcionar", admite Teresa Macarulla.

Os resultados da investigação, que tem como primeiro autor Hedy L. Kindler, da Universidade de Chicago, demonstraram que o tratamento com olaparib proporcionou um atraso na progressão da doença e uma melhoria na qualidade de vida dos doentes, que até agora não tinham alternativa senão seguir com a quimioterapia entre sete a oito meses. "Nos doentes com cancro do pâncreas sabemos que se não fizermos nada para parar o tumor ele continua a crescer, não pode estar sem quimioterapia. Isto permite-nos ter mais uma arma para lugar contra a doença", sublinha a especialista.