Marcelo Rebelo de Sousa sempre afirmou que nunca foi informado de qualquer investigação paralela, encenação ou encobrimento na recuperação das armas furtadas de Tancos. Mas o Ministério Público (MP), com base numa escuta telefónica, acredita que Vasco Brazão, major da PJ-Militar envolvido no esquema, referiu-se ao Presidente da República como o “papagaio-mor do Reino”, que, segundo ele, sabia de tudo.

Brazão estava em missão na República Centro Africana quando a Polícia Judiciária (PJ) civil fez as primeiras oito detenções na operação Húbris, em setembro do ano passado. Mas, ao fim de uma semana, chegou a Lisboa e foi também detido – ficando em prisão domiciliária por ordem do juiz. É considerado, no processo que conhece a acusação esta semana, um dos cérebros da encenação negociada com os assaltantes de Tancos para a devolução das armas, à revelia do Ministério Publico, e foi de resto ele quem recebeu a chamada anónima simulada a indicar o local ermo na zona da Chamusca onde o material seria abandonado.

Depois de ter sido detido, o major Brazão não esperava que as escutas da Judiciária se mantivessem ativas e, sabe a TVI, num telefonema com a irmã disse-lhe que “o papagaio-mor do Reino” estava a par do que se tinha passado. Esta escuta foi transcrita para o processo – e a expressão “papagaio-mor do Reino”, usada pelo oficial da PJ Militar, foi claramente entendida pela investigação como sendo uma alusão a Marcelo Rebelo de Sousa, tendo em conta o contexto da conversa.

No entanto, o Presidente da República sempre disse não ter sido informado de nada do que se passara, nomeadamente pela casa civil ou pela casa militar da Presidência, exigindo às autoridades um esclarecimento total, doa a quem doer.

Agora, confrontada pela TVI com estes factos, a Presidência da República limitou-se a dizer que “o Presidente quando está fora do país (nos Estados Unidos) não fala sobre assuntos nacionais. E não vai comentar este assunto”.  

À TVI Ricardo Sá Fernandes, advogado de Vasco Brazão, refere: “Apesar de o processo ainda estar em segredo de justiça, em defesa da verdade e da honra do Major Vasco Brazão, esclareço que a referência ao 'papagaio-mor do reino', que consta de uma escuta de uma conversa entre o meu cliente e a irmã, está descontextualizada e não teve em mente atingir o Sr. Presidente da República. De resto, o meu representado não tem conhecimento que o Sr. Presidente da República estivesse a par dos factos relativos ao achamento do material de guerra furtado em Tancos. Adianto ainda que o Major Vasco Brazão nunca contactou, directa ou indirectamente, a Presidência da República sobre este assunto”.

Certo é que a investigação da Unidade de Contra-Terrorismo da PJ está pronta, com um total de 25 arguidos. Além dos assaltantes, que furtaram as armas em junho de 2017, vão chegar a tribunal suspeitos de uma conspiração ao mais alto nível: são eles Azeredo Lopes, ex-ministro da Defesa, o ex-diretor-geral da PJ Militar, coronel Vieira, e outras altas patentes quer da PJ Militar quer da GNR. Uns porque participaram no esquema, que visava retirar protagonismo à PJ civil, prejudicando o processo; outros porque foram informados do encobrimento e não o denunciaram à Justiça.