As autoridades da Etiópia disseram que pelo menos 32 civis, incluindo crianças, foram mortos no que descreveram como um ataque terrorista ocorrido no domingo na região de Oromia.

"Os números oficiais indicam a morte de 32 civis, mas informações preliminares recolhidas sugerem que o número real de mortes é suscetível de exceder esta contagem inicial", disse, numa declaração, a Comissão Etíope dos Direitos Humanos.

Por seu lado, o porta-voz do gabinete de comunicação da região de Oromia, Getachew Balcha, disse que "um brutal ataque terrorista perpetrado ontem [domingo] na zona de Guliso, em West Wollega, causou a perda de vidas civis".

"Mulheres, crianças, idosos e jovens foram sujeitos a mortes, raptos e ferimentos", acrescentou Getachew Balcha, sem especificar o número de mortos.

Balcha acusou o Exército de Libertação de Oromo (OLA)de levar a cabo o ataque, afirmando que estes tinham por objetivo criar caos e exercer pressão psicológica sobre os cidadãos.

Sobreviventes do ataque, citados pela Amhara Mass Media Agency, afirmaram que a etnia amara era o alvo.

"O grupo armado reuniu 200 pessoas e depois começou a disparar contra elas. Várias pessoas foram mortas em resultado disso", disse um dos sobreviventes, acrescentando que uma escola e cerca de 120 casas foram queimadas.

Os amara são o segundo grupo étnico mais populoso da Etiópia, depois dos oromo.

Outro sobrevivente, citado pela agência France Presse (AFP), contou que o ataque teve lugar depois de soldados estacionados na área se terem retirado subitamente sem explicação.

"Contei mais de 50 corpos e sei que outros [pessoas] foram atingidos por balas", disse.

Numa publicação na sua página na rede social Facebook, o primeiro-ministro etíope, Abiy Ahmed, denunciou o que classificou de assassínios com base na etnia.

"Os inimigos da Etiópia prometem governar o país ou arruiná-lo, e estão a fazer tudo o que podem para o conseguir", disse.

"Uma das suas táticas é armar civis e realizar ataques bárbaros baseados na etnia. Isto é de partir o coração", acrescentou, anunciando que foram enviadas forças de segurança para a região para "começaram a tomar medidas".

O Exército de Libertação de Oromo não comentou as alegações de ataque, tendo já no passado negado relatos semelhantes.

O OLA é uma fação dissidente da Frente de Libertação Oromo (OLF), que renunciou à luta armada desde que os seus líderes regressaram do exílio depois do Abiy ter chegado ao poder em 2018.

O governo responsabiliza o OLA por uma série de assassínios, bombardeamentos, assaltos a bancos e raptos em Oromia.

Segundo o Movimento Nacional Amara (NAMA), um partido da oposição, o ataque parece ter visado membros do grupo étnico amara, o segundo maior da Etiópia depois dos oromo.

Dessalegn Chanie, um membro do NAMA, disse que "pelo menos 200 amara foram cruelmente mortos" no ataque de domingo, embora tenha admitido que era difícil estabelecer um número preciso de mortos.

O político considerou ainda que o "governo falhou no seu dever de proteger a segurança dos cidadãos" e que o sistema federal etíope baseado na língua é a principal causa das mortes.

"Os amara residentes fora da região de Amara estão a ser rotulados como forasteiros e expostos a ataques repetidos", disse.

Sob este sistema, os falantes oromo vivem maioritariamente em Oromia e os falantes amáricos vivem principalmente na região de Amara, uma estrutura organizativa que dá aos habitantes locais de cada região mais voz nos seus assuntos, gerando conflitos.

Os acontecimentos na Etiópia motivaram uma reação da União Europeia, que numa declaração do alto representante para a Política Externa, Josep Borrell, manifestou "profunda preocupação" com os recentes desenvolvimentos no país.

"Todas as partes devem agir para reduzir a tensão, eliminar a linguagem inflamatória e abster-se de destacamentos militares provocatórios. Se não o fizerem, corre-se o risco de desestabilizar o país, bem como a região em geral", disse.

Josep Borrell apelou para "um diálogo nacional inclusivo", considerando que esta será a "chave para um futuro democrático e próspero para o povo etíope".

"A coerção ou a ameaça da força nunca poderá ser uma alternativa", disse, manifestando o empenho da União Europeia em apoiar as reformas na Etiópia.

"A única forma de assegurar o sucesso deste esforço é defender o Estado de direito, respeitando ao mesmo tempo os direitos humanos. Isto garantirá também a possibilidade de eleições livres, justas e credíveis em 2021", sublinhou.

/ AM