A Unidade de Combate à Corrupção da Polícia Judiciária está esta manhã a realizar buscas ao Benfica e a altos responsáveis encarnados, sabe a TVI, com especial incidência para as instalações da SAD do clube e para o próprio gabinete da presidência, na porta 18 do estádio da Luz. 

O presidente Luís Filipe Vieira é, de resto, um dos principais visados desta operação, liderada pelo juiz Carlos Alexandre, sob suspeita de crimes como corrupção desportiva. Outro dos suspeitos é Paulo Gonçalves, antigo braço direito de Vieira na SAD, que saiu quando foi acusado no processo ‘E-toupeira’ mas continua a fazer negócios com o Benfica. 

Em causa, nas cerca de uma dezena de buscas que envolvem mais de 50 inspetores da PJ, a recolha de informação para diferentes processos que estão já na reta final e onde o Ministério Público ata as últimas pontas antes das acusações. Sobretudo o dos ‘mails’, que teve origem na divulgação pública de informações obtidas pelo ‘hacker’ Rui Pinto; e também o do ‘saco azul’, por suspeitas de que o Benfica fez sair 1,8 milhões de euros das contas da SAD, em 2018, para pagamentos de serviços informáticos que nunca foram prestados.

A operação da PJ é articulada com uma equipa de magistrados do DCIAP e visa ainda empresários, e outros intermediários, que ao longo dos últimos anos se relacionaram com o Benfica, alguns dos quais com ligações diretas a Luís Filipe Vieira. São suspeitos de terem sido utilitários para diferentes esquemas – sobretudo de corrupção desportiva, nomeadamente através de subornos a atletas de clubes adversários, entre eles do Marítimo e do Rio Ave, para que prejudicassem as suas equipas em campo nos jogos frente ao Benfica. 

Também o Santa Clara está a ser alvo de buscas, sendo o principal alvo os negócios relacionados com três jogadores líbios: o extremo esquerdo Hamdou Elhouni, o médio defensivo Mohamed Al-Gadi e o médio ofensivo Muaid Salem Ali, mais conhecido como Muaid Ellafi. Os três futebolistas passaram pelo clube açoriano há vários anos e o primeiro foi transferido em 2016 para o Benfica, tendo sido emprestado durante duas épocas ao Chaves e, mais tarde, cedido a custo zero pelo Benfica B ao Desportivo das Aves. O objetivo das autoridades será perceber se o fisco foi defraudado durante estas operações.

No caso de Vila do Conde, estávamos na época 2015/16, quando o Benfica disputava de forma renhida o campeonato com o Sporting de Jorge Jesus e Bruno de Carvalho. Já na reta final, em abril, há suspeitas de que jogadores do Rio Ave foram aliciados para que tivessem fracas prestações e permitissem que o Benfica vencesse, como se veio a verificar, por 1-0. O modus operandi, segundo foi denunciado e acredita a investigação tenha sido repetido noutros jogos, passava por promessas de contratos para os atletas na época seguinte, com colocação noutros clubes e melhorias salariais. Era nesta intermediação que entravam os empresários. 

Este caso, do Rio Ave, começou por ser investigado no Porto, mas entretanto transitou para o DCIAP, em Lisboa, onde os dirigentes do Benfica são investigados numa perspetiva global, em várias frentes, com recurso a diferentes esquemas que visariam a subversão da verdade desportiva. Nomeadamente através do condicionar também das prestações dos árbitros, até pelo controlo dos observadores que os avaliam. No caso dos ‘mails’, é esse procedimento que segundo a investigação fica subentendido nas trocas de correspondência eletrónica entre responsáveis encarnados e pessoas do meio da arbitragem. Há recurso a linguagem cifrada, como a expressão “padres para missas”, usada entre outros pelo antigo responsável da BTV Pedro Guerra, que é entendida como “árbitros para jogos”. 

Os milhares de mails retirados por Rui Pinto do servidor do Benfica foram obtidos de forma ilícita, a chamada prova contaminada, mas a investigação da PJ contornou a questão e chegou depois a grande parte da informação de forma legal, validada judicialmente. A prova documental, pericial e testemunhal está agora consolidada, acreditam os investigadores, e tanto os responsáveis do Benfica como a própria SAD do clube deverão ser alvo de acusações formais nos próximos meses. 

Caso fique demonstrado o crime de corrupção desportiva, uma das sanções previstas passa pela descida de divisão do clube.

Ministério Público confirma 29 buscas domiciliárias

Em nota enviada às redações, o Ministério Público confirmou a realização "no âmbito de investigações dirigidas pelo Ministério Público do Departamento Central de Investigação e Ação Penal", de 29 buscas, sendo oito domiciliárias, uma a uma fundação, seis a instalações de três sociedades desportivas, nove a outros tipos de sociedades, três a dois clubes desportivos e duas a escritórios de advogados. 

As buscas, segundo o MP, "decorrem em vários locais do país e contam com a participação de magistrados do Ministério Público e dos tribunais de Instrução Criminal, inclusive, o Central e elementos da Polícia Judiciária e da Autoridade Tributária. Nos inquéritos investigam-se factos suscetíveis de integrarem crimes de participação económica em negócio ou recebimento indevido de vantagem, corrupção ativa e passiva no fenómeno desportivo, fraude fiscal qualificada e branqueamento". 

"Estão em causa negócios de diversa natureza, todos relacionados com o futebol profissional e relativos, nomeadamente, a contratos de parceria de cooperação financeiro-desportiva e respetivos aditamentos bem como a acordos de alteração de contrato de parceria. Investigam-se ainda a aquisição dos direitos desportivos e económicos dos jogadores por parte de clubes nacionais de futebol, empréstimos concedidos a um destes clubes e a uma sociedade desportiva por um cidadão de Singapura com interesses em sociedades sediadas nas Ilhas Virgens Britânicas e a utilização das contas do mesmo clube e de outro, para a circulação de dinheiro. As investigações incidem igualmente sobre o envolvimento de outros tipos de sociedades (algumas ligadas ao setor imobiliário), o pagamento em dinheiro de 2 prémios de jogo, a satisfação de dívidas pessoais de dirigentes, a utilização por estes de valores dos clubes e a omissão declarativa de operações fiscalmente relevantes", informa ainda a nota do Ministério Público, que acrescenta que as investigações prosseguem "sob a direção do Ministério Público com a coadjuvação da Polícia Judiciária e da Autoridade Tributária". 

SAD do Benfica manifesta disponibilidade para cooperar com autoridades

A SAD do Benfica confirmou entretanto as buscas às suas instalações, mostrando-se totalmente disponível para colaborar com as autoridades para esclarecer as questões do processo em causa.

A Sport Lisboa e Benfica – Futebol, SAD confirma a realização de buscas às suas instalações. A Benfica SAD manifesta, como sempre, a sua total disponibilidade para colaborar com as autoridades no esclarecimento das questões suscitadas no âmbito da diligência em curso", lê-se num curto comunicado das 'águias'.

Fontes de Benfica e Santa Clara já tinham confirmado terem sido alvo de buscas, no âmbito de uma investigação relacionada com negócios no futebol, assim como a SAD do Sporting.

Henrique Machado / atualizada às 15:10