Na tarde de 15 de outubro, “o pior dia de incêndios do ano”, o pico do vento deu-se antes das 16:00 horas. Foi nesta altura que a energia do incêndio se tornou maior do que o vento. Foi também nesta altura que os “fenómenos piro-convectivos” se tornaram “responsáveis pelo grande episódio de incêndios” que ocorreu nas horas seguintes. O relatório dos fogos de outubro aponta falhas à intervenção humana na tragédia que levou a vida a 48 pessoas, mas explica ainda como uma junção de fatores, uma espécie de “tempestade perfeita”, se alinhou e fez destes incêndios um acontecimento nunca antes visto na Europa e único em 2017.

O relatório da Comissão Técnica Independente começa por assumir que “os incêndios de 15 de outubro foram dominados pela influência do furacão Ophelia”, que acabou por chegar a Portugal apenas em forma de tempestade. O Ophelia apenas “bordejou” o território nacional, mas gerou elevadas temperaturas, acima dos 30º graus, pouca humidade e ventos muito fortes. Ainda assim, a “culpa” dos fenómenos que levaram aos trágicos incêndios não é só dele.

O vento do Ophelia está muito longe de ser o único criador do megaevento de incêndios. O Ophelia iniciou a expansão dos incêndios, mas a posição dos mesmos, o estado do combustível e as interações entre colunas convectivas acabaram por gerar uma sequência complexa”, explica o relatório.

Numa fase inicial foi de facto a força do vento e a baixa humidade, que em alguns locais desceu abaixo de 15%, que permitiu o crescimento dos incêndios. Mas depois, quando o vento do furacão começou a quebrar, foram os “episódios distintos de piro-convecção”, ou seja, a subida e descida de massas de ar na atmosfera relacionadas com os fogos que “desencadearam as fortes rajadas de vento associadas aos incêndios”.

Os incêndios de outubro ficaram marcados por dois grandes episódios de piro-convenção. O primeiro, afetou o litoral e parte do interior. Este fenómeno, que estava “claramente sob a influência do vento de sul impelido pelo Ophelia”, fez com que estes incêndios iniciais fossem “conduzidos pelo vento”. Já no segundo episódio tudo foi diferente. Começou ao final da tarde e prolongou-se pela noite de domingo, 15 de outubro e madrugada de 16 de outubro. O interior do centro do país assistiu então a uma “tempestade de fogo”, que coincidiu com o momento em que existe um “máximo crescimento” de todos os fogos “em área e em velocidade”.

A piro-convecção situou-se no centro do país, sobre os incêndios de Vilarinho-Lousã, Figueiredo-Sertã e Esculca-Côja-Arganil. As três colunas exibem o fenómeno por volta das 17 horas, sendo evidente a existência de interações entre elas e a criação de uma zona de tempestade de fogo”, descreve o documento.

A tempestade de fogo criada pelos “três grandes incêndios do interior, os quais interagem entre si”, sobretudo devido à subida da humidade do ar, que chegou a passar de 20-25% para 75-85%, levam à criação de um outro fenómeno: um piro-cúmulo-nimbo (PyroCb), isto é, uma nuvem de tempestade, com produção de raios, com um grande desenvolvimento vertical que normalmente surge na sequência da criação de várias nuvens de fumo causadas pelos incêndios (pirocúmulos). "Das 19 horas às 23 horas ocorreu um grande episódio de PyroCb que afetou os três grandes incêndios do interior”, revela o relatório.

Vieira de Leiria, 17:00 horas. A fotografia da autoria do bombeiro Hélio Madeiras.

É depois deste momento que os incêndios voltam a evoluir e a criar “downdraft múltiplos e contínuos”, ou seja, correntes de ar descendentes, que “aceleram e expandem os incêndios erraticamente”. Este fenómeno é semelhante ao que ocorreu em Pedrógão Grande, em junho, e que acabou por potenciar os incêndios que levaram à morte de 64 pessoas.  Por fim, durante a madrugada de segunda-feira, ocorre “o maior fenómeno de downdraft”, isto é, o “colapso” da coluna de fumo, que acaba “por dispersar para a Europa o fumo de Portugal”.

As condições meteorológicas raras potenciaram aquele foi o maior incêndio florestal que há memória no país, com episódios únicos na Europa e no mundo, em 2017. Os cinco mega-incêndios, estudados pelo relatório, queimaram em média, 10 mil hectares por hora, ou seja, dez mil campos de futebol, durante 13 horas seguidas. Foi neste espaço de tempo, entre as 16:00 horas de domingo e 5:00 da manhã se segunda-feira, que morreram 48 pessoas.

O relatório lembra que as consequências do incêndio podiam ter sido piores, uma vez que a terra queimada no incêndio de Figueiredo-Sertã, também em 2017, e a chuva que caiu a 17 de outubro, impediu que a área ardida desse incêndio chegasse a meio milhão de hectares.

Pelas 17:00 horas de domingo, quando a tempestade de fogo já estava em marcha, a Proteção Civil falou ao país, numa declaração que apanhou muitos de surpresa, e que classificava este dia como o pior do ano. Depois da tragédia que matou 64 pessoas em Pedrógão, a declaração de Patrícia Gaspar parecia algo desajustada. A porta-voz pedia nessa altura aos portugueses “para não fazerem fogo”. Um apelo várias vezes repetido e que foi feito ainda antes do pior acontecer, mas que, como em muitas outras vezes, não foi ouvido pela população.

As queimadas foram responsáveis por 33% dos incêndios nos fatídicos dias de outubro. Um valor próximo do que historicamente acontece todos os anos: o valor do período de referência, 2002-2017, estudado no relatório é de 30,9%. No entanto, naquele domingo as queimadas realizadas tiveram um intuito diferente do que normalmente acontece em Portugal.

“Enquanto que historicamente a renovação de pastagens é responsável por mais de metade das causas determinadas e a limpeza do solo agrícola por uma percentagem baixa das causas, nos três dias de outubro em estudo a causa da renovação das pastagens foi muito mais baixa (31,3% contra 50,5% no período de referência) enquanto a percentagem de causas associadas à limpeza do solo agrícola foi muito mais elevada (37,4% contra 14,8%)”

Números que explicam o que levou muitos portugueses a fazerem fogo naquele fim de semana: a necessidade de limpar as terras associada à previsão de chuva. Factores que “poderão ter conduzido a um aumento de ocorrências” e que, “por falta da precipitação e por velocidades do vento inesperadas, num ambiente de secura da vegetação, elevadas temperaturas e baixas humidades relativas do ar” levaram a que pequenas fogueiras se transformassem em muitas ignições e depois em incêndios de largas dimensões.

Os incêndios naqueles dias de outubro foram o culminar de vários factores de um país que há muito luta contra o lume. Fenómenos pouco habituais, mas que se podem repetir, associados a fatores humanos levaram a um fogo que minutos depois de nascer já era impossível de combater.

“A maioria das ocorrências foi combatida em 5-10 minutos após o alerta, mas a 1ª intervenção terá essencialmente acontecido quando o incêndio já estava para lá da capacidade de extinção, pelo que eram muito reduzidas as opções face ao comportamento extremo do fogo. Independentemente da disponibilidade de meios (e de meios com maior capacidade de supressão) a estratégia seria naturalmente defensiva após a muito curta janela de oportunidade inicial, pelo que em dias com condições tão extremas é de considerar o uso de vigilância armada aérea para debelar de imediato as ignições que possam ocorrer”.

Naquele domingo de outubro, o Índice de Perigo Meteorológico de Incêndio médio nacional atingiu 59,2, o valor mais elevado desde 1999. Valor que está muito perto do triplo da capacidade de extinção com meios aéreos pesados. Em alguns locais, por exemplo na Lousã, a frente de chamas chegou a ter energia nove vezes superior à capacidade de extinção.

Os fogos de outubro ceifaram menos vidas do que os incêndios de Pedrógão Grande, mas em muitos dos restantes indicadores foram mais dramáticos. Em outubro,  houve “chuva” de faúlhas” e o lume saltou barragens.

Em 2018, pode voltar a acontecer.