"Ou paras de gravar ou mato-te, maricas". A ameaça culminou no homicídio de um jovem em La Coruña e provocou uma maré de protestos em Espanha. 

Samuel Luiz Muñiz, um jovem homossexual, foi espancado até à morte no sábado, após uma saída à noite numa zona de bares, no noroeste do país. Com 24 anos, o auxiliar de enfermagem já não via os amigos há muitos meses por ter estado na linha da frente da pandemia num lar na localidade de Padre Rubinos.

Segundo informações veiculadas pelos órgãos de comunicação social espanhóis, Samuel encontrou-se com Lina, a melhor amiga, num bar, e outros amigos. O ambiente era de descontração e, a meio da noite, decidiram ir apanhar ar e fumar um cigarro.

 

Passeio marítimo e praia de Riazor. À esquerda, o pub Andén. Ao centro, perto das árvores, o local onde Samuel Luiz foi espancado, vindo a morrer pouco depois /Wikimedia Commons

 

Lina agarrou no telemóvel e fez uma vídeochamada com outra amiga e Samuel juntou-se à conversa. Alegres, riram ao mesmo tempo que falavam sobre os planos para a noite. Mas o ar leve que o grupo emanava acabou por se tornar num clima de tensão, quando um casal passou por ambos.

“Um rapaz começou a gritar connosco, a ordenar-nos para pararmos de gravar”, lembra Lina, ao testemunhar o que aconteceu ao La Voz de Galicia, referindo que tentou explicar ao jovem que os dois estavam a ter uma conversa privada pelo telemóvel. 

 "O rapaz queria confusão. Era a nossa vez”.

Ignorando os esclarecimentos, o jovem caminhou até Samuel e intimidou-o. "Ou paras de gravar ou mato-te, maricas". A vítima tentou acalmar os ânimos, mas nada serviu. O agressor desferiu-lhe um murro violento na cara que o colocou no chão. Indefeso, continuou a ser golpeado pelo jovem.

A violência só foi suspensa com a chegada de um homem que impediu o prolongamento do ataque.

De acordo com a testemunha, Samuel ergueu-se do chão e pediu, combalido, para que Lina se dirigisse ao interior do bar e recolhesse o telemóvel da vítima. No entanto, quando a amiga regressou à rua, não conseguiu encontrar Samuel.

 "Ouvi alguém gritar: maricas !”, descreve. Metros mais à frente, uma multidão reunia-se em gritos de medo e choque. Samuel estava deitado no chão, inconsciente. Os agressores fugiram.

Segundo o jornal El País, as ambulâncias demoraram entre 10 a 12 minutos a chegar à rua para prestar assistência. Embora tenham sido realizadas várias manobras para que ele voltasse a abrir os olhos, Samuel nunca mais acordou.

As agressões a murro e pontapé viriam a revelar-se como as causas para a morte do jovem, que nasceu no Brasil, já no sábado de manhã.

A Polícia Nacional de La Coruña está agora a tentar reconstruir o local do ataque na orla marítima da cidade, para identificar e deter os responsáveis. A visualização das câmaras de segurança e os subsequentes interrogatórios de suspeitos e testemunhas implicadas são a chave nesta primeira fase da investigação do caso.

Um delegado do governo da Galiza, José Miñones, não confirmou qualquer detenção numa aparição rápida durante uma visita a Ourense na madrugada desta segunda-feira. Miñones sublinhou o facto de a Polícia continuar a trabalhar com absoluta discrição e sigilo. 

"Estamos num momento chave, naquilo que é um procedimento normal em que a obtenção de depoimentos e detalhes são muito importantes", explicou.

Quanto ao motivo do crime, Miñones explicou que homofobia é uma das hipóteses abertas nesta investigação, mas “nenhuma das vias está descartada nesta primeira fase das investigações”, enquanto se aguarda a determinação do tribunal que instrui o caso. 

Peço prudência e responsabilidade neste momento, face a acontecimentos absolutamente condenáveis ​​pela brutal agressão de Samuel, e na sociedade em que vivemos, não podemos permitir esta violência”, declarou Miñones.

O delegado de Pedro Sánchez disse que se iria encontrar com a família da vítima e pediu paciência durante o andamento da investigação. 

 

 

Também três ministros do governo de Madrid publicaram mensagens de solidariedade à família de Luiz e condenaram o ataque brutal. A ministra da Igualdade, Irene Montero, pediu que o caso servisse de exemplo para a necessidade da construção de "uma sociedade mais livre entre todos nós, na qual não deixemos espaço para o ódio".

A ministra da Transição Ecológica, Teresa Ribera, pediu "a repreensão pessoal, social e jurídica para aqueles que transbordam de brutalidade e homofobia".

Pedidos de justiça multiplicam-se pelas cidades

"Justiça para Samuel. Homofobia e fascismo são o mesmo", dizia a gigantesca faixa carregada por manifestantes, que iniciaram uma marcha nesta segunda-feira (5) à noite na famosa Puerta del Sol em Madrid.

Milhares de pessoas se reuniram para protestar, algumas com a bandeira do Orgulho, convocadas por inúmeros grupos LGTBQIA +, exigindo "justiça para Samuel", entre gritos e hinos.

 

"Não são agressões, são assassinatos", gritou a multidão que fazia exibir faixas com frases como "Acabem com a homofobia", "Tudo o que importa é viver" ou "Eles estão a matar-nos".

A mensagem que os ativistas tentaram passar foi marcada por confrontos ao final da noite. A polícia chegou mesmo a usar a força contra a enchente de manifestantes nas ruas de Puerta del Sol.

 

 

Os pais de Samuel falam num crime homofóbico e apontam para o timing da agressão: imediatamente a seguir à Semana do Orgulho na Espanha.
 

 

 

 

Também foram realizadas marchas em outras cidades do país, como La Coruña, onde se reuniram várias centenas de pessoas.

 

 

 

Na segunda-feira, o ministro do Interior espanhol, Fernando Grande-Marlaska, indicou que até o momento ninguém foi ainda preso e que "nenhuma hipótese está excluída, nem o crime de ódio, nem qualquer outro".

Também no mesmo dia, o chefe do governo, Pedro Sánchez, pediu celeridade na investigação da polícia. “Foi um ato selvagem e cruel. Não vamos dar um passo atrás em direitos e liberdades. A Espanha não vai tolerar isto”.